O filósofo
O filósofo
Cândida Albernaz
O posto de gasolina estava com movimento. Véspera de feriado, e muitos se encontravam na estrada.
Resolveu sentar no pequeno banco de madeira e esperar. Não sabia bem o que, mas tinha certeza de que algo aconteceria. O boné verde cobria parte da cabeça e deixava o rosto mais fino ainda. Perna cruzada e o cotovelo no joelho. A mão segurava o queixo sem necessidade.
A mãe de vez em quando implicava com ele, dizendo que tinha um filho pensador. Sempre quis saber o que tanto pensava. Na maioria das vezes, nada importante.
No momento, observava os caminhões transitando.
Desde menino era assim. Parado em frente a qualquer lugar, olhava, olhava, e no fim fazia um comentário que ninguém entendia. A mãe ria e dizia que esse garoto é muito inteligente, vai ser alguém na vida.
O pai dava um muxoxo e respondia: dá serviço a esse moleque, que ele para de falar bobagem. Não dava confiança nem para um, nem para o outro. Continuava onde estava até cansar. Cansar de pensar.
Às vezes a mãe e se reunia com as tias para um lanche e ele passava por elas: vocês deviam olhar mais ao redor. Poderiam ver o que ninguém enxerga.
- Viu só? - dizia a mãe. Ele tem uma mente privilegiada. Consegue perceber muito mais do que nós.
- Acho que esse garoto vê coisas, isso sim. Leva no centro, que Pai Antônio dá jeito nisso.
- Que centro que nada! Ele vai ser um filósofo, escrever livros, alguma coisa muito importante.
Viravam-se para ele, olhavam aquele menino magrelo e imaginavam a celebridade que se tornaria.
Aluno medíocre. Quase não tinha amigos e de vez em quando os pais eram chamados à escola por conta de notas baixas ou porque os professores estavam preocupados com a falta de comunicação dele com o resto do mundo. Avisaram que seria melhor procurar ajuda especializada.
Nessas ocasiões, chegando à casa, o pai trancava-se no quarto com ele e falava. Os olhos permaneciam fixos nos dele e quando perguntava o que tinha a dizer, respondia:
- Obrigado meu pai. Vocês não entendem como o mundo é pequeno para o tanto que há na mente.
Então o pai começava a gritar e ameaçava que no dia seguinte o matricularia numa escola de futebol. Fez isso algumas vezes e depois de quatro ou cinco aulas, o técnico praticamente desistia dele.
Na última vez chegou com um hematoma no olho.
- O que aconteceu?
- Não sei, mas isso dói.
- Claro que dói. Quero saber o que você fez.
Como não houve resposta, foi até o professor.
- Ele simplesmente no meio do jogo, segurou a bola com as duas mãos e entregou ao adversário.
- Como é que é?
- E falou que sabia o quanto o outro queria aquele objeto. E para finalizar, acrescentou: É seu! Colegas do time ficaram irritados e partiram para cima dele. Não pude evitar.
Voltando para casa, o pai avisou que não gastaria mais dinheiro com ele. Estava fora do futebol. E fora também de qualquer coisa que houvesse planejado para ele um dia.
O tempo foi escorrendo e alguns fios brancos escapavam do boné. A mãe ainda era a dona da lanchonete do posto na estrada.
Os clientes já não o provocavam para que dissesse suas frases. Com o tempo, notaram que elas se repetiam.
O pai não estava mais entre eles, portanto, não era possível ver o desgosto escancarado em seu rosto quando olhava aquele único filho que tivera.
Não percebeu que a mãe se aproximava. Puxando-o pela mão, falou que era hora do almoço. Estivera por toda a manhã naquele banco.
- Mãe?
- Sim, meu filho.
- Quando minha visão alcança o infinito, sei que ainda não acabou.
- Está bem, meu filho. Está bem. Vamos almoçar porque preciso voltar para o trabalho.
Passou a mão muito branca naquele rosto com barba por fazer.
Nos olhos que o fitavam havia melancolia e aceitação.
09/07/12