O filósofo
candida 11/07/2012 22:36
O filósofo Cândida Albernaz O posto de gasolina estava com movimento. Véspera de feriado, e muitos se encontravam na estrada. Resolveu sentar no pequeno banco de madeira e esperar. Não sabia bem o que, mas tinha certeza de que algo aconteceria. O boné verde cobria parte da cabeça e deixava o rosto mais fino ainda. Perna cruzada e o cotovelo no joelho. A mão segurava o queixo sem necessidade. A mãe de vez em quando implicava com ele, dizendo que tinha um filho pensador. Sempre quis saber o que tanto pensava. Na maioria das vezes, nada importante. No momento, observava os caminhões transitando. Desde menino era assim. Parado em frente a qualquer lugar, olhava, olhava, e no fim fazia um comentário que ninguém entendia. A mãe ria e dizia que esse garoto é muito inteligente, vai ser alguém na vida. O pai dava um muxoxo e respondia: dá serviço a esse moleque, que ele para de falar bobagem. Não dava confiança nem para um, nem para o outro. Continuava onde estava até cansar. Cansar de pensar. Às vezes a mãe e se reunia com as tias para um lanche e ele passava por elas: vocês deviam olhar mais ao redor. Poderiam ver o que ninguém enxerga. - Viu só? - dizia a mãe. Ele tem uma mente privilegiada. Consegue perceber muito mais do que nós. - Acho que esse garoto vê coisas, isso sim. Leva no centro, que Pai Antônio dá jeito nisso. - Que centro que nada! Ele vai ser um filósofo, escrever livros, alguma coisa muito importante. Viravam-se para ele, olhavam aquele menino magrelo e imaginavam a celebridade que se tornaria. Aluno medíocre. Quase não tinha amigos e de vez em quando os pais eram chamados à escola por conta de notas baixas ou porque os professores estavam preocupados com a falta de comunicação dele com o resto do mundo. Avisaram que seria melhor procurar ajuda especializada. Nessas ocasiões, chegando à casa, o pai trancava-se no quarto com ele e falava. Os olhos permaneciam fixos nos dele e quando perguntava o que tinha a dizer, respondia: - Obrigado meu pai. Vocês não entendem como o mundo é pequeno para o tanto que há na mente. Então o pai começava a gritar e ameaçava que no dia seguinte o matricularia numa escola de futebol. Fez isso algumas vezes e depois de quatro ou cinco aulas, o técnico praticamente desistia dele. Na última vez chegou com um hematoma no olho. - O que aconteceu? - Não sei, mas isso dói. - Claro que dói. Quero saber o que você fez. Como não houve resposta, foi até o professor. - Ele simplesmente no meio do jogo, segurou a bola com as duas mãos e entregou ao adversário. - Como é que é? - E falou que sabia o quanto o outro queria aquele objeto. E para finalizar, acrescentou: É seu! Colegas do time ficaram irritados e partiram para cima dele. Não pude evitar. Voltando para casa, o pai avisou que não gastaria mais dinheiro com ele. Estava fora do futebol. E fora também de qualquer coisa que houvesse planejado para ele um dia. O tempo foi escorrendo e alguns fios brancos escapavam do boné. A mãe ainda era a dona da lanchonete do posto na estrada. Os clientes já não o provocavam para que dissesse suas frases. Com o tempo, notaram que elas se repetiam. O pai não estava mais entre eles, portanto, não era possível ver o desgosto escancarado em seu rosto quando olhava aquele único filho que tivera. Não percebeu que a mãe se aproximava. Puxando-o pela mão, falou que era hora do almoço. Estivera por toda a manhã naquele banco. - Mãe? - Sim, meu filho. - Quando minha visão alcança o infinito, sei que ainda não acabou. - Está bem, meu filho. Está bem. Vamos almoçar porque preciso voltar para o trabalho. Passou a mão muito branca naquele rosto com barba por fazer. Nos olhos que o fitavam havia melancolia e aceitação. 09/07/12  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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