De volta para casa
De volta para casa
A viagem ia ser longa. O caminhão pequeno que conseguiu emprestado com o dono da quitanda estava abarrotado de coisas.
Os poucos móveis e utensílios da casa foram arrumados na carroceria de modo que ainda coubessem os dois garotos. Silas na ponta do colchonete e Serginho, sentado dentro da bacia de alumínio.
Nilo dirigia sem falar, a testa enrugada demonstrava preocupação. Ao lado Teresa ia quieta, olhando-o e de vez em quando, secando o canto dos olhos onde lágrimas teimavam em surgir.
Ontem quando chegou à casa depois de ter procurado por emprego o dia todo, encontrou a mulher na calçada, em meio aos poucos móveis que possuíam. Estava sentada na cadeira e os dois filhos, em pé atrás da mãe como a protegê-la.
Já haviam recebido o aviso de despejo, mas achava que conseguiria alguma coisa antes que este dia chegasse.
Aproximou-se deles e avisou que passaria na quitanda para falar com seu Francisco.
Quando voltou, dirigia um caminhão e começou a colocar o que estava na rua dentro dele.
Viviam na vizinhança há pouco e só fizeram amizade com o quitandeiro e a mulher, que era religiosa como a sua. Nos últimos tempos não tinham muito o que comer e ela aparecia trazendo comida quentinha, repetindo que errara a mão outra vez fazendo uma quantidade maior do que precisavam, ... e para não desperdiçar, trouxe para vocês.
Minha mulher agradecia e vez ou outra a ajudava na limpeza da casa.
Teresa era uma guerreira. Nunca falei isso para ela, não sou de muitos afagos, mas já sofreu nessa vida. Era professora quando a conheci. Depois que nos casamos não permiti que ela trabalhasse: “Mulher minha não trabalha”.
Tirei-a da casa dos pais aos dezoito anos. Quando tivemos nosso primeiro filho, o Silas, a mãe havia morrido há pouco e não teve quem a ajudasse. Eu trabalhava o dia inteiro e ela ali, cuidando da casa e do filho sozinha. Silas não foi um bebê com muita saúde e por muitas vezes, ficou dias e noites seguidas sem dormir.
Alguns anos depois, saímos da cidade em que nascemos e viemos para o Rio. No início foi bom. Empregado, ganhava direitinho e nossa casa era ajeitada. Quando perdi esse trabalho, e colocaram um parente deles no meu lugar, é que as coisas foram piorando.
Nesta época nasceu o Serginho, que agora está com dez anos. Foi um período ruim, até que consegui trabalho de novo. Fiquei quatro anos na firma. Diziam gostar do meu serviço mas me demitiram assim mesmo. Fui perguntar o porquê. Contenção de despesas, responderam. Já tinha visto vários colegas irem para a rua pelo mesmo motivo.
Depois fiquei pulando de emprego em emprego. Sempre a mesma história de contenção. Acho que é a palavra que mais odeio.
Agora estamos aqui neste caminhão, voltando para nossa cidade.
Tem uma casinha no mesmo terreno do meu sogro e estamos de mudança para lá.
Ele disse que a casa não está em muito bom estado, mas a gente dá um jeito.
Teresa ainda não sabe, mas quando for entregar o caminhão de seu Francisco, não volto. Como vou poder viver do favor do pai dela? Quando saiu dali novinha, era cheia de esperança. Agora trago a filha dele de volta, sofrida e com aquele olhar sem brilho como uma velha, apesar de ainda não ter feito trinta e um anos.
Vou ajeitar o que puder em dois dias e volto. Seu Francisco ficou de me arranjar qualquer coisa até conseguir algo melhor.
O sogro vai cuidar deles, não vai deixar a filha e os netos passarem fome.
Pronto, chegamos! O velho estava no portão. Abraçou Teresa, as crianças e mal me fitou. Sabia bem o que ele pensava. Eu era um incompetente que não tinha capacidade de criar os meus. Também não falei nada. Nem tinha o que falar.
Entrando em casa, vi minha mulher sorrir como há muito tempo não fazia. Recordações, acredito. Foi direto para a cozinha enquanto descarregávamos a mudança e quando terminamos, tinha comida quentinha colocada na mesa.
Depois de lavarmos as mãos, sentamos e o pai dela evitando me encarar, começou:
- Sabe de uma coisa Nilo, estive pensando nesses anos todos em que vivi aqui sozinho, cuidando do armarinho e da casa, sem minha única filha e sem a mulher, que se foi muito cedo. Sempre quis netos por perto e mal os vi crescer. Estou velho, cansado e preciso que alguém ajude na loja. Achei que talvez você pudesse...
A mão de Teresa sobre a minha fez uma pequena pressão. Levantei o rosto e vi em seus olhos um brilho que a tornava mais jovem e me trazia o rosto antigo, da época em que a conheci.
Não sabia o que dizer. Tinha orgulho e não queria depender dele. Falei que pensaria.
Dois dias depois, já no caminhão, ainda não havia dado nenhuma resposta.
Despedi dos meninos e de minha mulher. Eles não imaginavam que talvez demorássemos a nos ver de novo.
Fazia a manobra para virar a esquina, quando o pai de Teresa surgiu na frente. Veio até a janela do carro:
- Sei o que está planejando. Sou um velho chucro que só viveu no interior, mas também sou homem. Conheço nosso orgulho e até onde ele pode nos levar. Não estou lhe oferecendo ajuda. Eu preciso que me auxilie, pois estou cansado. Não faça o que está imaginando. Coloquei no bolso de sua calça, esta noite, o dinheiro da passagem de volta. Não seja tonto. Sua mulher e seus filhos precisam de você.
Em seguida deu-me as costas, dirigindo-se para casa.
Durante o caminho de volta, coloquei a mão no bolso da calça e senti o pequeno volume. Veio-me um sorriso. Talvez não precisasse realmente ficar longe da Teresa e dos garotos...
Cândida Albernaz