Nem todas as palavras
candida 25/05/2012 14:55
  Nem todas as palavras. Cândida Albernaz No silêncio que ela mesma provoca, sente a dor que a machucou e vê a impossibilidade de pedir socorro. Nunca soube fazê-lo. Não quer dar respostas ou fazer perguntas. Não mais. Sua mente discute sem parar, mal pode ouvir o que se passa em volta. Chora por dentro o que não consegue externar. Este, o choro, a deixa exposta. Necessita estar quieta com os medos que absorve. Nem todas as palavras precisam ser pronunciadas. Nem tudo o que querem dizer deve ser escutado. Elas podem ferir e feridas provocam cicatrizes e estas muitas vezes são lentas para fechar. Por isso se encolhe como uma concha e se esconde (dela mesma?) do olhar que busca entender. Só não tem a casca dura como proteção. Sensível a toques, à respiração quente, à vontades, permite que seja seduzida por instantes. É bom se deixar ir com leveza. A cabeça respondendo apenas ao que o corpo pede e ele exige e ele quer tudo. O instante se prolonga e naquele período imenso, consegue somente querer mais. Infelizmente volta ao chão. Pés presos novamente. Esquecer poderia ser fácil. Nunca o é. Se escuta o que o que foi dito, não há como fingir que não. O tempo é seu amigo. Leva para bem longe a angústia. Que vem e vai e vem e vai... Leva a esperança também. Para tão distante que algumas vezes não é possível voltar a acreditar. Não ficará assim, porque sempre quis mais. Sempre não. Houve uma época em que querer era inútil, então simplesmente deixava para lá. Hoje é diferente. Sabe o que deseja. Rir. Rir muito. De tudo ou quase. Com os dentes, com a boca, com os olhos, com o corpo. Quando consegue sorrir inteira é porque está em paz. Procura com força esse sentimento de serenidade. Jogar-se de uma janela e sem peso algum, flutuar. Olhar de cima e enxergar como o dia a dia pode ser minúsculo. Voando com asas que agora possui. No meio das nuvens atrapalha-se, mas são tão poucas que logo as atravessa. E o dia e o sol e o céu estão claros. Não julgou que fosse possível. Voar. Sempre julgou que fosse possível. Voar. E bem do alto, percebe que está segura novamente e as frases que a assustavam, não a provocam mais. Então se enrosca no meio de lençóis, num quarto na penumbra e fecha os olhos. Quando estiverem abertos pela manhã, o dia teimoso romperá a cortina e estará pronta. Seguirá em frente. Mesmo que novas palavras sejam ditas. 22-05-2012  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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