Nem todas as palavras
Nem todas as palavras.
Cândida Albernaz
No silêncio que ela mesma provoca, sente a dor que a machucou e vê a impossibilidade de pedir socorro. Nunca soube fazê-lo. Não quer dar respostas ou fazer perguntas. Não mais.
Sua mente discute sem parar, mal pode ouvir o que se passa em volta. Chora por dentro o que não consegue externar. Este, o choro, a deixa exposta.
Necessita estar quieta com os medos que absorve.
Nem todas as palavras precisam ser pronunciadas. Nem tudo o que querem dizer deve ser escutado. Elas podem ferir e feridas provocam cicatrizes e estas muitas vezes são lentas para fechar. Por isso se encolhe como uma concha e se esconde (dela mesma?) do olhar que busca entender. Só não tem a casca dura como proteção. Sensível a toques, à respiração quente, à vontades, permite que seja seduzida por instantes. É bom se deixar ir com leveza. A cabeça respondendo apenas ao que o corpo pede e ele exige e ele quer tudo. O instante se prolonga e naquele período imenso, consegue somente querer mais.
Infelizmente volta ao chão. Pés presos novamente.
Esquecer poderia ser fácil. Nunca o é.
Se escuta o que o que foi dito, não há como fingir que não.
O tempo é seu amigo. Leva para bem longe a angústia. Que vem e vai e vem e vai... Leva a esperança também. Para tão distante que algumas vezes não é possível voltar a acreditar.
Não ficará assim, porque sempre quis mais. Sempre não. Houve uma época em que querer era inútil, então simplesmente deixava para lá.
Hoje é diferente. Sabe o que deseja. Rir. Rir muito. De tudo ou quase. Com os dentes, com a boca, com os olhos, com o corpo. Quando consegue sorrir inteira é porque está em paz. Procura com força esse sentimento de serenidade.
Jogar-se de uma janela e sem peso algum, flutuar. Olhar de cima e enxergar como o dia a dia pode ser minúsculo. Voando com asas que agora possui. No meio das nuvens atrapalha-se, mas são tão poucas que logo as atravessa. E o dia e o sol e o céu estão claros.
Não julgou que fosse possível. Voar.
Sempre julgou que fosse possível. Voar.
E bem do alto, percebe que está segura novamente e as frases que a assustavam, não a provocam mais.
Então se enrosca no meio de lençóis, num quarto na penumbra e fecha os olhos.
Quando estiverem abertos pela manhã, o dia teimoso romperá a cortina e estará pronta.
Seguirá em frente. Mesmo que novas palavras sejam ditas.
22-05-2012