Um abraço forte
Um abraço forte
Cândida Albernaz
Entrou no salão às oito horas. O dia prometia ser cansativo. Precisava chegar mais cedo em casa, deixou a filha com febre e a avó cuidando dela. Ainda bem que moravam perto, ela e a mãe.
Teve um sonho estranho, aliás, como a maioria deles. Costumava analisar estes sonhos quando conseguia lembrar. “Havia uma mesa redonda e nela estava o pai, que já morava com os anjos, ela, uma tia que não via há anos e seu marido, Raul. Comiam e riam muito, até que sentiu um toque em suas pernas e viu a mãe, que debruçando em seus joelhos chorava e agradecia”. O danado do sonho acabava ali, pelo menos o que recordava dele.
Não havia tempo para desvendar imagem nenhuma, portanto, ficaria para mais tarde. Uma coisa era certa, se a mãe agradeceu no final, foi bom.
Agora, o que precisava mesmo era se concentrar na unha da cliente, que naquele momento, dera um pequeno pulo na cadeira. Beliscou seu dedo com o alicate. Não machucou, foi o susto, mas não gosta quando isso acontece. Considera-se muito boa no que faz e detesta cometer falhas. Pediu desculpas e continuou.
Na hora do almoço, ligou e Raul estava com a filha. Avisou que a febre aumentara e não queria ceder. Aconselhou que a colocassem embaixo do chuveiro e fizessem compressas. O marido avisou que ia desligar e depois se falariam.
Tentou comer. Não conseguiu. A comida parecia brigar com a garganta, e esta tirava qualquer possibilidade de engolir. Deixou o pote de lado. Até a noite, sabia que ficaria em jejum. Sempre assim, nervosa, não se alimentava. Impossível.
Recordou que quando jovem, o pai adoeceu e em poucos meses se foi. Sentiu saudade tão intensa, que ficou dias sem conseguir colocar algum tipo de alimento na boca. Só parou com aquela dieta forçada, porque a mãe ameaçou interná-la. Então se obrigou a ingerir coisas líquidas ou ácidas. Era o máximo que se permitia. Até que a dor foi se acomodando em algum ponto de sua mente, deixando espaço para voltar a querer.
Outra cliente chegou e voltou para seu lugar. Fez uma, duas, cinco mãos e então olhou o relógio: dezenove horas. Fechou a maleta como estava, deixando para o dia seguinte a arrumação da mesma.
Despediu dos colegas e saiu. Começava uma chuva fina e ainda teria que andar um pouco até o ponto de ônibus. Pensou em ligar, mas o celular parecia não dar sinal.
No trajeto de volta, lembrou de quando a filha nasceu. Sentiu dores e a bolsa rompeu ainda em casa. O marido, como sempre, estava bebendo em algum bar e não havia como ser avisado. Raul saía duas vezes na semana, só voltava de madrugada e bêbado. Havia conversado, ou tentado, e ele não admitia mudar. Dizia ser homem e precisar estar com os amigos. Alem disso, mulher não tinha muito que opinar. Machista por comodidade própria. Como a maioria.
Ela teve que ser socorrida pelo vizinho que conseguiu, e pagou um táxi para levá-la ao hospital. Começara uma hemorragia e necessitou ser operada às pressas, caso contrário, colocaria em risco o bebê.
Quando Raul chegou, era uma hora da tarde do dia seguinte.
Olhou firme para ela e murmurou um desculpe. Nunca falaram sobre aquela noite, mas desde então, quando sai, cedo está de volta.
Enfim chegou. No quarto, a pequena dormia com uma máscara de oxigênio no rosto. - Precisou ficar no soro por algumas horas. Mas não te avisei porque podia resolver
sozinho. Está medicada e a febre cedeu.
Ela abaixou para beijar a filha e quando se levantou o marido a abraçou com força. Encostou a cabeça em seu ombro e ele a apertou um pouco mais.
Eram esse os momentos onde sabia ter valido a pena confiar que a vida daria certo.
03-07-2012