Um abraço forte
candida 05/07/2012 19:07
Um abraço forte Cândida Albernaz Entrou no salão às oito horas. O dia prometia ser cansativo. Precisava chegar mais cedo em casa, deixou a filha com febre e a avó cuidando dela. Ainda bem que moravam perto, ela e a mãe. Teve um sonho estranho, aliás, como a maioria deles. Costumava analisar estes sonhos quando conseguia lembrar.  “Havia uma mesa redonda e nela estava o pai, que já morava com os anjos, ela, uma tia que não via há anos e seu marido, Raul. Comiam e riam muito, até que sentiu um toque em suas pernas e viu a mãe, que debruçando em seus joelhos chorava e agradecia”. O danado do sonho acabava ali, pelo menos o que recordava dele. Não havia tempo para desvendar imagem nenhuma, portanto, ficaria para mais tarde. Uma coisa era certa, se a mãe agradeceu no final, foi bom. Agora, o que precisava mesmo era se concentrar na unha da cliente, que naquele momento, dera um pequeno pulo na cadeira. Beliscou seu dedo com o alicate. Não machucou, foi o susto, mas não gosta quando isso acontece. Considera-se muito boa no que faz e detesta cometer falhas. Pediu desculpas e continuou. Na hora do almoço, ligou e Raul estava com a filha. Avisou que a febre aumentara e não queria ceder. Aconselhou que a colocassem embaixo do chuveiro e fizessem compressas. O marido avisou que ia desligar e depois se falariam. Tentou comer. Não conseguiu. A comida parecia brigar com a garganta, e esta tirava qualquer possibilidade de engolir. Deixou o pote de lado. Até a noite, sabia que ficaria em jejum. Sempre assim, nervosa, não se alimentava. Impossível. Recordou que quando jovem, o pai adoeceu e em poucos meses se foi. Sentiu   saudade tão intensa, que ficou dias sem conseguir colocar algum tipo de alimento na boca. Só parou com aquela dieta forçada, porque a mãe ameaçou interná-la. Então se obrigou a ingerir coisas líquidas ou ácidas. Era o máximo que se permitia. Até que a dor foi se acomodando em algum ponto de sua mente, deixando espaço para voltar a querer. Outra cliente chegou e voltou para seu lugar. Fez uma, duas, cinco mãos e então olhou o relógio: dezenove horas. Fechou a maleta como estava, deixando para o dia seguinte a arrumação da mesma. Despediu dos colegas e saiu. Começava uma chuva fina e ainda teria que andar um pouco até o ponto de ônibus. Pensou em ligar, mas o celular parecia não dar sinal. No trajeto de volta, lembrou de quando a filha nasceu. Sentiu dores e a bolsa rompeu ainda em casa. O marido, como sempre, estava bebendo em algum bar e não havia como ser avisado. Raul saía duas vezes na semana, só voltava de madrugada e bêbado. Havia conversado, ou tentado, e ele não admitia mudar. Dizia ser homem e precisar estar com os amigos. Alem disso, mulher não tinha muito que opinar. Machista por comodidade própria. Como a maioria. Ela teve que ser socorrida pelo vizinho que conseguiu, e pagou um táxi para levá-la ao hospital. Começara uma hemorragia e necessitou ser operada às pressas, caso contrário, colocaria em risco o bebê. Quando Raul chegou, era uma hora da tarde do dia seguinte. Olhou firme para ela e murmurou um desculpe. Nunca falaram sobre aquela noite, mas desde então, quando sai, cedo está de volta. Enfim chegou. No quarto, a pequena dormia com uma máscara de oxigênio no rosto.      - Precisou ficar no soro por algumas horas. Mas não te avisei porque podia resolver sozinho. Está medicada e a febre cedeu. Ela abaixou para beijar a filha e quando se levantou o marido a abraçou com força. Encostou a cabeça em seu ombro e ele a apertou um pouco mais. Eram esse os momentos onde sabia ter valido a pena confiar que a vida daria certo. 03-07-2012

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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