Só quero poder desistir
Só quero poder desistir
Cândida Albernaz
Com a arma na mão só me faz perguntar o por quê. Os olhos mal se fixam em mim quando fala. Não quero entender o que sua boca diz, porque não parece ser você falando.
Tivemos momentos de ternura apesar de tudo e mesmo agora, em alguns deles, me olha do mesmo jeito. Tenta me tocar e retraio. Sinto o corpo tenso diante dessa aproximação e isso o irrita. Não posso agir diferente. Estou assustada.
Quando nos vimos pela primeira vez, o que mais chamou a atenção foi seu jeito quieto e meio tímido. Estava com amigos e enquanto todos riam por algum comentário que fizeram, você não tirava os olhos de mim. Logo pude perceber que a impressão que tive sobre uma possível timidez não era real.
Na primeira semana mandou flores, quis conhecer meus pais e falou que vinha me observando há algum tempo: eu era a garota de sua vida.
Mamãe gostou do jeito educado e reservado como se comportava. Papai, ao contrário, detestou a idéia de ver sua menina com um cara mais velho e “entrão”. Tem vinte e seis anos e eu dezesseis. Estava feliz da vida com a atenção que me dava.
Namoramos por alguns meses onde tudo parecia perfeito. Nas férias, quando decidimos ir para a praia, o que fazíamos todos os anos, você não gostou. Não podia nos acompanhar, a não ser nos finais de semana, porque trabalhava numa agência de automóveis e não tinha os dias livres. Conversamos a respeito e quando falei que não poderia ficar, proibiu que eu fosse. Argumentei que não era bem assim e tinha que segui-los. Não quis ouvir.
Em casa arrumei a maior confusão, mas não adiantou: não cederam.
Durante o sábado e domingo brigamos e quando confirmei que continuaria ali, recebi um tapa no rosto, para em seguida se mostrar arrependido. Não comentei sobre isso com ninguém.
Quando terminou o verão, com discussões constantes e outros tapas, eu não tinha mais certeza de seu amor.
Ficamos juntos por mais três meses, até que um dia papai entrando na sala, viu quando me empurrou fazendo com que caísse no chão. O rosto ainda conservava a marca de sua mão. Ele avançou enquanto você pedia desculpas e chorava, e o colocou para fora de casa.
Mandou flores, escreveu cartas, tentou falar comigo na escola, onde meu pai estava sempre presente, na entrada e na saída, mas eu não queria mais. Precisava que alguém me ajudasse a decidir e foi o que eles fizeram.
Depois de cinco meses voltei à vida normal. Você parecia ter desistido: engano, claro.
Dentro do carro, onde fui obrigada a entrar, choro e peço que me esqueça. Mas a cada vez que falo, a raiva parece aumentar. De vez em quando toca meu rosto com carinho e fala sobre o amor que sente. Quase implora para que eu sinta o mesmo. A cada toque seu, o medo aumenta e o ódio que demonstra também.
Você chora, ri, xinga e ameaça ao mesmo tempo.
Tento dizer que está tudo bem, vamos ficar juntos, casar e ter filhos como você quer. Agora diz que não acredita, que estou mentindo, que sou mentirosa e safada e que não ficaria comigo nem mesmo se fosse a última das mulheres: filho dele não ia nascer da barriga de uma qualquer.
Choro enquanto encosta a arma na minha cabeça.
Ouço um barulho e o tiro me acerta o braço. Não consigo entender o que está acontecendo, mas você é puxado para fora do carro e o revólver dispara por mais duas vezes.
Vejo o rosto de papai, que desconfiado por estar demorando, saiu a minha procura.
No chão você foi imobilizado. Pessoas se aproximam e a polícia chega.
Enquanto se afasta volta à cabeça e olha. Consigo ler o que seus olhos falam.
Não vai ficar lá por muito tempo e não desistirá.