Mais uma vez em casa
21/01/2017 | 18h48
Mais uma vez em casa
Cândida Albernaz
A cancela azul estava quase coberta por um mato alto.
Conseguia ver a casa, não muito grande, cercada por uma varanda que um dia fora branca. Os vidros das janelas, quebrados. Mal se via da estrada o telhado escurecido pelo tempo.
Duas pequenas flores roxas teimavam em existir, dando colorido à paisagem devastada.
Escutou o latido conhecido. Não era possível. A imaginação brincava com ele. Fechou os olhos e esperou que o som se repetisse.
Um, dois, três minutos, quieto. Só o balançar das folhas pelo vento.
Novo latido. Precisava encontrá-lo.
Quantos anos fazia?
No dia em que foram embora, enquanto colocavam as últimas coisas no carro, sentiu sua falta. Assoviou como era costume. Nada. Entrou no quarto da irmã e olhou embaixo da única cama que ficaria. Vazio. Procurou por toda a casa. Para que se esconder logo agora?
Ouviu a mãe chamando por ele. Já vou, gritou enquanto corria para o lado oposto. Rompeu por entre as árvores.
Nenhum som. Não iria sem ele. Ganhou no aniversário de dez anos. Um labrador preto, que se atrapalhava com as pernas que pareciam crescer rápido demais.
O pai gritava que seria melhor que aparecesse logo, caso contrário...
Sabia o que significava caso contrário. Uma surra com o cinto que estivesse usando. Sempre achou perceber uma expressão de prazer no rosto do pai quando batia nele. Descia a mão com vontade e a mãe chorando pedia que o deixasse em paz. Ele então virava- se e a ameaçava com o cinto também. Nunca foi além disso. Não encostava a mão na irmã ou na mãe. O problema era com ele.
Dizia que homem para ser homem, tinha que ser tratado de forma rígida. Fora assim com ele, seria com o filho e esperava que fizesse o mesmo com o neto que viria um dia.
Jamais encostou a mão no próprio filho.
Olhou para o carro onde o menino e a mulher esperavam. Sorriu para ela e avisou através de sinais que o portão estava aberto e iria entrar. Balançou a cabeça, mas não falou nada. Sabia que não ia adiantar. Sempre teimoso.
Mais uma vez o latido.
Foi até o carro onde estavam os pais e a irmã e pediu que o ajudassem a encontrar seu cachorro.
Que cachorro que nada. Para onde vamos não tem espaço para animais. Olhou suplicando para a mãe que abaixou a cabeça demonstrando impotência. Vem Alfredo, vem, depois voltamos para pegar ele, a irmã tentava convencê-lo.
Ameaçou voltar a procurar e recebeu um tapa no rosto. Não era a primeira vez que odiava aquele pai, mas tentou controlar o que seu rosto teimava em mostrar e pediu que esperasse só um pouco.
- Acho que Valente foi atrás de algum bicho e logo, logo volta, cansado da corrida inútil precisando de água.
Sentiu o corpo magro, de garoto com doze anos, ser levantado do solo e jogado dentro do carro. Nesta hora sua cabeça bateu no teto e, em seguida, lágrimas desceram.
Quando o carro começou a se mover, o choro aumentou. Ouviu um cala a boca e a mãe se desculpando por ele, dizendo que o menino bateu a cabeça, deve estar doendo.
Na verdade ela sabia que a dor que ele sentia era no peito. Dor forte, que sufocava.
Foi afastando o mato e abrindo caminho. Precisava ver de perto de onde vinha o som tão familiar.
Embaixo do pé de jabuticaba, que um dia fora cheia de frutos, estava um labrador preto de um ano mais ou menos. Não parecia ser puro. Ali já entrava uma ou outra raça. Mas lindo. Aproximou-se e acarinhou o focinho. Ele encostou o corpo maltratado em sua calça. Saiu andando e chamou-o. Começou a segui-lo.
Quando chegou perto do carro ouviu um ah não! da mulher. O filho deu um pulo no banco e arregalou um sorriso de ponta a ponta da orelha. Deixa mãe. Por favor, deixa. Alisava o pelo do animal. Alfredo ficou olhando-a e mudo, pediu o mesmo.
- Não acredito que está fazendo isso comigo, Alfredo. Está bem, está bem. Entre logo nesse carro antes que me arrependa.
Antes de entrar, pegou uma escova e passou por todo o corpo de Valente, claro que este seria seu nome. Forrou o banco com um lençol e o acomodou ali.
Durante o trajeto para casa, olhou várias vezes pelo retrovisor. Os olhos do filho brilhavam como os seus teriam brilhado um dia.
6/11/12
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Para todo o sempre
21/01/2017 | 18h48
Para todo o sempre
Cândida Albernaz
Quando a gente se conheceu estava na cara que não ia dar certo. Todos os amigos comentaram e tentaram me fazer desistir. Eu mesma alegava que era só uma brincadeira enquanto não tinha nada melhor. Claudinha nos apresentou “um amigo que acabou de chegar de Paris, viveu lá por seis anos trabalhando no hospital de maior renome, blá-blá-blá-blá”. A única coisa que realmente me interessou em tudo o que disse e não escutei, foram seus olhos de um negro profundo que não descolavam dos meus. Pediu meu telefone e apesar de ter certeza que não ia ligar, dois dias depois, quando atendi uma chamada, era você me convidando para o cinema. Chegou com uma camisa de tecido e manga longa enquanto eu caminhava ao seu lado com minha sandália rasteira e bolsa de lona verde. O filme foi ótimo e pude assisti-lo inteiro já que nem por uma vez você tentou me tocar.
Saímos para jantar e sugeri um restaurante “onde preparam uma ótima comida tailandesa”. Não questionou, mas mal tocou na comida. Em compensação, parecia engolir cada palavra do que eu dizia.
No domingo apareceu sem avisar, coisa incomum em você, como vim a descobrir mais tarde, para me convidar para irmos até o Museu Nacional de Belas Arte. Eu de biquine, pronta para a praia que havia combinado com o pessoal. Troquei a roupa e passei o domingo ouvindo sobre telas e os lugares onde me levaria para conhecer.
Passava os dias e algumas noites também no hospital em que trabalhava desde que voltou ao Brasil, e eu na pequena livraria que herdei de meu pai.
Você gostava da noite quando podia, é claro, e eu do dia. Você ouvia música clássica e eu mpb. Sabia escolher um vinho enquanto minha bebida predileta era suco de abacaxi com clorofila.
Cada encontro nosso se transformava na descoberta do outro e de prazeres ainda não experimentados. Porque fazíamos questão de conhecer o sabor do nosso gosto.
Quando notamos, dois anos haviam passado e você, num jantar especial, em um restaurante de comida asiática, que não aprendeu a gostar, me pediu em casamento. Sem medo algum aceitei.
Pedro, nome escolhido por mim, chegou numa noite em que você estava de plantão. Pedi ajuda a Claudinha, que havia sido nossa madrinha de casamento, que me levasse ao hospital. Na sala de cirurgia, onde demonstrava toda a minha força num parto normal, você entrou e segurou minhas mãos. Conseguiu que algum colega o substituísse.
Cinco anos depois, Layla, nome escolhido por você, e Pedro brincavam na praia enquanto nós dois babávamos por eles na areia. À tarde iríamos todos juntos ao Museu do Índio.
* * *
Você dorme enquanto passo os dedos em seus cabelos brancos. Adoro o contraste deles com seus olhos. Não opera mais, porque o tremor das mãos não deixa. Quando a memória foge um pouco, sento ao seu lado e folheio álbuns com as fotos de nossa vida. Vez ou outra percebo um movimento diferente em seus olhos e um repuxar dos lábios como se um sorriso fosse sair dali. Então sei que estamos juntos de novo. Aperto sua mão com força, que quase foge da minha. Vira-se e me observa. Beijo seus lábios rapidamente e você puxa a minha cabeça para seu ombro, enquanto tenta enlaçar minha cintura.
Nossa neta Manuela, entra no quarto e percebendo sua lucidez, fala sobre o que está aprendendo na faculdade de medicina. Então você se torna o rapaz recém chegado de Paris que me fitava com olhos negros e vivos, até que num repente, as pálpebras baixam e a voz se cala. Sabemos que é hora de deixá-lo descansar. Manuela me ajuda a acomodá-lo entre as cobertas e cada uma de nós beija seu rosto.
Talvez mais tarde, ou amanhã, ou ainda depois, possamos retomar a conversa. Temos paciência.
Ainda olho você antes de fechar a porta do quarto e penso que nossos amigos estavam errados. Nunca nada deu tão certo quanto nós dois juntos.
Para o que é tá bom
21/01/2017 | 18h48
Para o que é tá bom
Cândida Albernaz
- Por que não me disse que estava ruim?
- O que estava ruim?
- Não se faça de boba
- Não sei do está falando.
- Saí de casa vestindo uma calça marrom, sapato preto e camisa azul clara.
- Não notei
- Como “não notei?”. Perguntei antes de sair se minha roupa estava boa.
- E eu respondi?
- Disse que estava ótima.
- Talvez esteja ficando daltônica.
- Daltônica nada. Deixou que fosse para a rua vestindo isso de propósito.
- Eu?
- Com quem mais estou falando?
- Não sei, de uns tempos para cá, noto que algumas vezes fala sozinho.
- Eu falo sozinho e você resmunga o tempo todo.
- Deve ser a idade.
- Enfim reconhece que está ficando velha!
- Eu, não. Reconheço que você está avançado na idade e por isso pensa estar me ouvindo resmungar, quando na verdade estou cantando baixinho.
- E por que motivo estaria cantando? Vive de cara feia.
- É o seu reflexo que vê em mim.
- Meu reflexo... Não vivo mal humorado!
- Não, claro. Só quando me aproximo. Pelo menos, é quando posso identificar seu humor.
- Você é engraçada, reclama de mim, mas nunca está disposta a sair, e se saio com amigos, fica assim.
- Assim?
- Arrumando discussão.
- Não procuro discutir. Você foi quem chegou a casa apontando o dedo na minha direção.
- Que dedo apontei?
- Maneira de falar.
- Fui ao encontro de meus amigos vestido como um palhaço e não quer que eu reclame.
- Sua roupa foi você mesmo quem escolheu.
- Mas podia ter me dito que não estava bom. Teria trocado.
- E não ia adiantar nada.
- Por que não adiantaria nada?
- Você teria escolhido uma blusa laranja, ou roxa, ou qualquer outra que não combinasse.
- Mas podia me ajudar.
(- Pois sim. Para o que era estava bom).
- O que você resmungou baixinho? Viu só? Não ouvi o que falou.
- Falei que está crescidinho e já pode decidir o que vestir.
- Isso significa que não vai mais opinar sobre o que vou usar.
- Exatamente.
- Quando quiser saber se o seu cabelo ficou bom com um novo corte, ou se o vestido que comprou “valoriza o meu corpo?”, não vou responder nada.
- Estamos combinados.
- Não entendo. Resolveu mudar de uma hora para outra.
- Mudei faz tempo. Se não percebeu...
- O que quer dizer com isso?
- Cansei de cuidar de você como se fosse uma criança. Leite quentinho quando senta à mesa, roupa separada na cama para quando vai sair, jornal dobrado sem mexer até que você leia. Never more.
- Nunca mais coisa nenhuma. Não custa nada me fazer estes agrados.
- Custa sim. Minha paciência. A propósito, a meia azul marinho com bordado em relevo que estava usando, também não combinava com o resto. Seus amigos não notaram?
Não gosto de migalhas
21/01/2017 | 18h48
Não gosto de migalhas.
Cândida Albernaz
Parado ao lado da bomba de gasolina, tremia de frio. O boné, o uniforme vermelho e o sapato furado, estavam encharcados. Aqui todos me conhecem.
A chuva caía forte e prometia não estiar tão cedo. O guarda-chuva preto fechado, não conseguiu proteger-me.
O frentista com pena ofereceu-me um café quente que ao beber, parecia o melhor que já havia experimentado.
Saí de casa com água no portão que quase cobria a calçada. Arrumei o serviço há pouco e não posso me dar ao luxo de faltar. Estive desempregado por quase dois anos. Já não acreditava em mim mesmo, quando um vizinho conseguiu a entrevista para emprego de vigia de uma casa de tintas. Trabalho diurno.
Estava longe de ser jovem. Os sessenta anos pesavam como se fossem cem. Desde garoto, sempre trabalhei muito. Mal sei ler, mas os filhos, fiz questão que aprendessem. Hoje são homens com suas próprias famílias e não moram mais na mesma cidade que eu. Necessidades da vida.
No outro dia, a mulher leu para mim uma carta do Eliélton: dizia que a Dalva, nossa nora, esperava o terceiro filho. Ele trabalha numa firma de construção há três anos e prometia que qualquer dia desses mandava o dinheiro das passagens para que eu e a mulher fôssemos conhecer os netos. Cinco anos não vejo Eliélton.
Quando jovem trabalhei como pintor, ajudante de pedreiro, vigia de casas e até jardineiro. De todos, foi o serviço que mais gostei. Mexer com a terra e as flores fazia com que sentisse paz.
Minha mulher trabalhou durante muito tempo como faxineira de um hospital da cidade. Faz dois anos se aposentou e o que ganhava ficou reduzido. Hoje faz faxina em casa de família. Uma santa, a Denilda. Nos piores momentos da vida, sofria calada e só fazia rezar.
Quando perdemos nosso caçula ainda jovem - pressão alta, o médico disse - ela chorou muito. Ouvi quando fazia uma oração entregando o filho a Deus e dizendo aceitar a parte que lhe cabia na vida. Chorei também, escondido, que nunca fui de mostrar sentimento. Nem tanto por nosso filho, mas por ela.
O café quente não resolveu muito. Bato o queixo com força e o corpo treme sem me obedecer, porque não quero parecer frágil.
Uma mulher parou o carro ao meu lado e me ofereceu uma toalha. Teve pena de mim. Aceitei. Não estou em condição de negar, mas detesto quando me oferecem migalhas.
Não posso pegar uma gripe, nem coisa pior. Preciso continuar trabalhando, porque dessa forma sou homem.
Estive doente no mês passado: pneumonia. Não quero arriscar acontecer de novo.
A chuva não passa. Coloquei a toalha em volta dos ombros, o que me esquentou um pouco. Vou arregaçar a calça e continuar meu caminho. A água já está acima do tornozelo, e parece que vai aumentar. Enfio o boné na cabeça com mais força e abro o guarda-chuva. O vento quase o leva.
Vou andando devagar, não consigo o contrário. As costas doem e a tosse constante recomeça.
O chefe vai entender meu atraso, espero. Ele é um pouco intolerante, mas não é cego e está vendo o temporal.
Agora está perto, consigo ver a fachada do prédio.
Que frio estou sentindo. Até a toalha em que me enrolei está molhada.
Pronto, é só atravessar a rua, falta pouco. Lá dentro vou conseguir algo seco para vestir. Tenho certeza que vão arranjar. A garota que serve o café, de vez em quando me leva um. Vai fazer isso hoje também.
A visão está turva e percebo as pernas fracas. Cheguei.
Antes de abrir a porta de vidro, sinto tonteira. Meu corpo cai fazendo um barulho oco. Ouço vozes: ajude aqui, o seu Elias está passando mal.
A casa sob o viaduto
21/01/2017 | 18h48
A casa sob o viaduto
Aquela casa me traz lembranças que muitas vezes prefiro esquecer.
Quando passo no alto do viaduto dentro do carro, vejo-a já sem o telhado e com portas e janelas quebradas, mas com paredes em pé. As recordações vêm como avalanches mesmo depois de tanto tempo.
A parte que mais gostava era a cozinha onde sentava num banquinho e ficava olhando minha avó fazendo rabanada em calda. Minha boca ainda hoje se enche de água sentindo o gosto do pão com a calda de açúcar e a ameixa. Ela sempre tinha histórias para contar. E eu, sempre tempo para ouvir. Mais tarde já rapaz, era eu quem lhe contava histórias do dia a dia. Ela queria saber de tudo, parecia absorver o que falava com sofreguidão. Sempre soube que era seu neto predileto. Nunca tentou esconder isso dos outros, que aceitavam o fato como algo natural, de direito.
Depois que vovó se foi meu avô não durou muito. Costumava dizer que ela era sua luz e que não havia motivo para viver na escuridão.
A casa era grande. Nela morava nossa família e meus avós. Lembro de minhas irmãs quando crianças correndo no jardim enquanto as perseguia tentando tirar o laço de seus cabelos. Naquela época tudo era motivo de risos, nos sentíamos felizes.
Nunca percebemos nada errado, até o dia em que papai nos reuniu na sala com um olhar sério e colocando-nos um ao lado do outro, avisou que mamãe tinha ido embora.
As meninas começaram a chorar e vovó correu para abraçá-las. Saí andando e fui até a janela. Tentava olhar o mais distante que podia para ver se ela ainda estava lá. Não adiantava mais.
Levei muitos anos sem saber o motivo de nossa mãe ter nos abandonado. Papai não admitia que tocássemos no assunto. Só chorei uma vez e deve ter sido um mês depois, quando senti uma dor na barriga muito forte e meu pai disse que me virasse. Nesse dia senti uma saudade enorme dela. Escondido no quarto apertei o travesseiro no rosto para que ninguém escutasse os soluços. Foi só dessa vez. Na época tinha dez anos e era o mais velho dos três.
Meu pai não se casou de novo. Ele que já era sério ficou mais sério ainda. Quase não conversávamos. Ainda bem que tínhamos vovó e suas histórias. Algumas vezes nos contava baixinho algo sobre mamãe. Mas com o tempo, ela também parou de falar sobre isso.
Papai morreu quando fiz quarenta e cinco anos. Só estávamos eu, minhas irmãs e seus maridos no enterro.
Foi então que a vi outra vez.
Estava num canto embaixo de uma árvore e quando percebeu que a olhava, abaixou a cabeça fechando os olhos.
Esperei que todos fossem embora e me aproximei. Não tinha certeza de quem era, mas quando cheguei perto, ela me abraçou chorando chamando-me de "filho!”.
Tinha os cabelos brancos, ralos e as mãos trêmulas. Não falamos nada, caminhamos de braços dados até um banco onde nos sentamos. Sem que eu perguntasse, foi contando que largara meu pai (e a nós também, claro) por amor a outro homem. Um antigo namorado. Quando se casou não amava o marido. Fez por pirraça, para vingar-se desse homem que ficara noivo de outra. Mais tarde a procurou dizendo não ter se casado e nem tê-la esquecido.
Afirmou que levou alguns anos sem nos ver. Era jovem e disse não ter instinto materno como as outras. Fora morar em outro estado e só bem mais tarde procurou saber a nosso respeito. Sabia que não tinha desculpa, mas nos amava do seu jeito.
Eu a ouvia calado até que parou de falar. Então perguntei se precisava de algo. Olhou-me com o canto dos olhos, disse que estava doente e morando num asilo. O homem pelo qual largara a família havia morrido há um bom tempo.
Peguei-a novamente pelo braço e levei-a. Chamei minhas irmãs e elas conversaram bastante.
Não sei se a perdoei ou não. Trouxe-a para morar comigo e cuidei de sua velhice. Nunca consegui chamá-la de mãe outra vez.
A casa onde passei minha infância e juventude foi vendida.
Vinte anos depois ela está ainda ali, com aquele viaduto quase a cobrindo.
Algumas vezes sinto saudades. Outras, só quero esquecer.
Festa de aniversário
21/01/2017 | 18h48
Festa de aniversário
Cândida Albernaz
Gosto de olhar Janaína enquanto dorme. Ela me leva para longe de tudo o que me preocupa.
Na cama de casal dormimos eu, ela e o pai. A casa de três cômodos, construída no quintal de minha sogra é bem cuidada porque sou caprichosa. Se tem uma coisa de que faço questão, é limpeza. O piso, Maurício meu marido, colocou no mês passado. Antes era terra e ficava impossível manter tudo sem poeira. Estou feliz porque arranjei emprego. Mais uma vez consegui na lavoura. Não é lá grande coisa, mas ajuda. Acordo às quatro horas e faço a comida que deixo pronta antes de sair. Só volto no final da tarde e é então que me distraio com as brincadeiras de minha filha.
Não sou letrada e nunca tive medo de serviço. Maurício é pedreiro, mas nem sempre tem trabalho, de vez em quando faz uns biscates aqui e ali. Conseguiu vaga numa obra e juntando o salário dele com o meu, a vida fica mais leve.
O que incomoda é quando a mãe dele vem aqui em casa, e isso é todo dia. Vive querendo ensinar como educar Janaína. Diz que não tenho experiência, sou nova ainda e que seria bom que seguisse seus conselhos. Tento fingir que não escuto, mas às vezes fica difícil. Principalmente quando além de ela brigar com minha filha, aperta seu braço deixando a marca das unhas. Não gosto e avisei que não repetisse. Filha minha eu educo e ninguém bota a mão. Ficou ofendida e foi reclamar com Maurício porque gritei com ela. Esse negócio de sogra entrando na casa da gente toda hora, não pode acabar bem. Pareço quietinha, mas não sou. Já preveni Maurício, se sua mãe encostar a mão em Janaína mais uma vez, eu é que vou sentar a mão nela. Ele não ficou satisfeito com o que falei e quis discutir, mas não mudei de idéia.
Quando nos casamos, a mãe dele vivia dizendo que a Soninha sim, é que é mulher pro meu filho. Fina, professora, sabe se vestir e falar, não é como umas e outras que trabalham na lavoura e não terminam os estudos. Quase deixei que ela soubesse que a fina da Soninha costumava dar para todo mundo e o filho dela ia ser corno. Fiquei quieta, porque Maurício falou que ia dar um jeito na mãe.
Ela até deu sossego por um tempo, quando soube que ia ser avó. Mas foi a neta nascer e a mulher começar a se meter em tudo.
Droga! Até quando penso nela me atrapalha. Quase deixo a canjiquinha queimar.
Olho Janaína mais uma vez antes de sair. Os dois têm o sono pesado. É muito cedo ainda. Daqui a pouco a irmã dele chega para ficar com a sobrinha e Maurício sai. Queria ter mais tempo para ela. A danadinha está rindo dormindo, deve ser algum sonho bom.
Fecho a porta, passo pela casa da sogra, que graças a Deus ainda não acordou. O portão está emperrado e demoro a abrir. Vou andar rápido, pois não posso perder o dia. Esse dinheiro me faria muita falta. Detesto essas botinas que sou obrigada a usar, apertam os dedos.
O caminhão que vai levar a gente não chegou. Ontem ele deu problema no freio, quase caímos na ribanceira. Espero que tenham feito o conserto.
Minha menina faz três anos amanhã. Combinei tudo com a cunhada. Recebo hoje e vou comprar o que precisa para fazer um bolinho. Pipoca vai ter porque ela adora e pirulito também. Só a gente e as crianças da vizinha. Vai valer a pena o sacrifício, será a primeira vez que vamos comemorar.
Nossa, para que buzinar desse jeito? Acha que a gente é surda?
Se der, compro umas bolas também.
Que gritos são esses? Olho para trás e a sensação que tenho é de que aquele caminhão cresce à minha frente se tornando gigante e eu cada vez menor.
Será que Janaína acordou?
Tentar uma vez mais
21/01/2017 | 18h48
Tentar uma vez mais
Cândida Albernaz
Não gostava quando o cansaço que sentia vinha sem motivo algum. Era excessivo até mesmo abrir os olhos.
Ficar com as pálpebras abaixadas, escondendo o mundo de sua visão.
Desde menina lutava para manter-se acordada, participando de uma vida que lhe era imposta.
Inúmeras vezes pensou em desistir, mas então descobria um motivo, em seguida um novo motivo, e mais um, para que entendesse que ainda não chegara o momento de abandonar.
Brigou tanto consigo mesma que se tornou adulta mais forte do que jamais imaginara poderia ter sido.
* * *
Na poltrona do ônibus ouvia uma conversa aqui, o ronco de alguém que dormia pesado, o folhear de um jornal, o celular incômodo que insistia em tocar...
Havia três horas que saíra e ainda faltava um tanto igual para ser percorrido.
Tempo é o que sobrava em seus dias agora que as crianças cresceram, casaram e têm seu espaço no mundo. Decidiu visitar a irmã que se mudara há muito. Ela casou-se com um engenheiro que conheceu no período da faculdade. Viviam bem com os dois filhos que tiveram.
Sempre que a via, estava com um sorriso no rosto e com uma história boa para contar. Esse jeito da irmã tão diferente dela fazia com que sentisse paz quando estavam juntas.
* * *
De novo o tempo que sempre a incomodara. Ter que ocupar as horas, os minutos e principalmente os segundos, estes pareciam não ter fim. Buscava preenchê-los em muitos momentos com qualquer coisa que pudesse prender sua atenção. O que não era fácil, já que a ansiedade habituara-se a ter domínio sobre ela. Um exercício constante tentar subjugá-la.
Não conseguir adivinhar o próximo passo que seria dado por alguém que estava perto, provocava sensação que beirava o desespero. E a mente divagava e se julgava dona de verdades.
* * *
Também teve seus filhos, principal motivo de seguir adiante, e hoje três netos. Não acreditou que chegaria tão longe. Mentira, sabia que sim. Desde quando o garoto, o mais velho, abrira os olhos pela primeira vez e encontrara os seus. Soube naquele exato instante que precisava continuar. E nunca quis tanto algo.
Durante a infância e adolescência dos dois, não houve muito espaço para pensar em si mesma. Vivia todas as delícias e estranhezas de ser mãe. Todas as culpas e felicidades. Toda a sabedoria e medos de errar. Experimentava ser completa.
O marido tinha suas reuniões, viagens, futebol com os amigos, enfim, ocupado com vontades próprias, a qual em alguns dias a incluía. Permitiu que fosse assim. No início, tentou mostrar que o amava e necessitava estar com ele. Não parecia ver ou escutar. Desistiu e voltou toda sua energia para os filhos e suas exigências.
* * *
Quantas vezes se sentiu inundar por uma esperança que a assustava? De uma felicidade que temia acabar?
Dominar a angústia por não poder conhecer a mente alheia era um enorme esforço. Se não sabia o que o outro pensava, como se soltar e percorrer livremente os caminhos que queria?
Sabia possuir uma vontade de acarinhar, de sorrir e se dar sem tamanho. Por longo período não pôde exercer essa amplidão de emoções.
* * *
Quando o marido avisou que sairia de casa, respirou alívio. Teria um espaço só seu, sem aquele homem que se tornara um estranho. Não se tocavam mais e ela esquecera o que era dar e receber atenção.
Não foi fácil absorver liberdade após tantos anos.
Havia momentos de solidão quase palpável, mas vários de encontros, reencontros, começos e recomeços que provocavam gigante prazer.
* * *
Aproximava-se da rodoviária e podia ver a irmã com uma blusa vermelha e ainda com os cabelos pretos e curtos como sempre usara.
Riu sentindo leveza. O passageiro sentado a seu lado olhou-a. Sem pensar tapou a boca com a mão, acreditando esconder envergonhada o riso com som de tranquilidade.
Tinha muito o que falar e ouvir. Conhecera alguém. Quem sabe dessa vez valeria a pena? Não era o primeiro, talvez não fosse o último. Mas para quem tem tanto medo da vida, decidira novamente que se entregaria de forma completa. Para que se sentisse inteira.
Quando os olhos impuserem se manter fechados, procuraria, o que não sabe de onde vem, a força que constantemente a impulsionava adiante.
E acharia novos motivos para sorrir. Sorrir não. Era pouco. Para gargalhar. Do jeito que descobrira saber fazer.
17/09/12
Sem necessidade
21/01/2017 | 18h48
Sem necessidade
Cândida Albernaz
Com esse muro alto na frente, acho que não tenho escolha. Acabou.
Quando acordei naquela manhã, senti a cabeça estourando de dor. Não é normal. Nunca sinto nada. Mãe costuma dizer que tenho saúde de ferro, graças a Deus. Queria mesmo agora era ser todo de ferro. Estaria protegido.
Cheguei à casa na noite anterior com um presente para mamãe. Ela queria trocar a televisão por uma maior, e foi o que fiz. Sorria de ponta a ponta da boca. Gosto de ver mãe feliz. Sofrida, já chorou muito nessa vida.
Quando o pai morava aqui, era um inferno. Bebia todos os fins de semana nos bares com amigos. Às vezes só aparecia em casa dois dias depois de ter dito: daqui a pouco venho almoçar. Ela se acostumara ou apenas aceitava o sumiço dele. Falta de opção, acredito.
O problema era quando chegava. Bêbado, fedendo, xingando e provocando a mulher até meter a mão na cara dela. E fazia isso com vontade. Assisti várias vezes.
Se havia tempo, ela me puxava pelo braço e me enfiava dentro do quarto fechando a porta. Não sem antes avisar que estava proibido de sair dali. Então voltava para onde estava o marido e se sujeitava à surra e aos carinhos grosseiros. A única vez em que tentou se esconder indo para os fundos da casa, papai arrombou a porta de onde eu estava e bateu tanto que precisei ser levado para um hospital.
Fizeram um acordo sem precisar falar. Ela se entregava e ele me deixava em paz.
Não fiquei criança a vida toda e com quinze anos dei uma coça naquele velho e o coloquei para fora de casa. Tentou voltar, mas o ameacei com uma faca, mostrando a ele que não faria diferença alguma aquela arma na minha mão ou dentro do bucho dele. Não era burro e viu que não brincava. Sumiu da área.
Mamãe e eu não discutimos sobre isso, mas percebi que seu rosto estava mais descansado. Ficou até mais jovem.
Tomou a decisão de trabalhar, o que antes não era permitido. Cozinhando, numa casa de família. Tem um tempero que sinto água na boca só em imaginar.
Também precisei me virar e falei com ela que havia arranjado um emprego em que faria entregas. No dia em que cheguei com a moto, estranhou, mas expliquei que o patrão financiou para mim e pagaria aos poucos. Necessitava dela para ser mais rápido.
Fui ajeitando a casa aos poucos. Troquei o fogão, comprei uma cama com um colchão macio e falei que a partir de agora não precisaria dormir no colchonete fino estendido no chão frio.
Com o salário que recebeu me comprou roupas. Disse que não queria nada, o dinheiro era para gastar com ela mesma e com comida.
Se tem alguém que respeito nesse mundo, são as mães. Minha avó morreu cedo. Tenho boas lembranças dela. Brincava comigo e sempre tinha alguma bala escondida dentro da roupa para me dar. O vô deu um tiro nela. Foi preso, adoeceu na cadeia e morreu por lá.
Não gosto de homem que encosta a mão em mulher.
Mamãe ontem parecia tão feliz na hora em que dei a televisão para ela... E hoje essa situação. Ainda bem que não chegou do serviço.
Os homens descobriram que participei do assalto. Aqueles manés foram pegos e me deduraram.
Não adianta correr mais. Não sei escalar muro alto e liso. Acho que ninguém. Melhor me entregar.
Parei, levantei os braços e virei para a porta.
Pô, sem necessidade esse soco. Estão vendo que não estou armado. Covardia chutar desse jeito. Na cara. Tudo puto porque demoraram a botar a mão em mim.
Tomara que a mãe hoje se atrase. Precisa ver isso não.
11-09-12
E o tempo leva com ele
21/01/2017 | 18h48
E o tempo leva com ele.
Cândida
Albernaz
Queria sentar e descansar. Ansiava fugir para
algum lugar onde o nada fosse a única coisa que poderia fazer. Riu de si mesma.
Não havia tal lugar e se houvesse, seria cansativo. O nada remete a ninguém e
ninguém lembra a solidão. Nunca foi boa nisso. Estar sozinha, fazendo companhia
a si mesma. Necessitava de gente como do ar. Amigos costumavam dizer que se
temia a solidão era porque não se sentia feliz. Bobagem. Era feliz do seu
jeito. Com pequenos momentos maravilhosos, que somados ao longo de um dia, lhe
bastavam.
Os pensamentos eram seu maior problema. Estes
costumavam galopar enquanto, com seus passos curtos, tentava controlá-los.
Se estivesse ansiosa ou triste, os danados
ocupavam todo o espaço em sua mente deixando-a ainda mais ansiosa. E triste. Em
dias assim, qualquer sorriso à sua frente era recebido como o maior dos
tesouros.
Olhou a escada e ficou imaginando se teria
coragem de subir. Já o fizera outras vezes, mas agora tudo havia mudado.
Não se recordava daquele vaso com um arvoredo
ao lado da entrada. Mais modificações devem ter sido feitas. Passara muito
tempo.
Lembrou-se que os visitara há quase um ano.
Era dia dos pais e estavam felizes porque ela estaria com eles. A mãe preparou
o almoço e a sobremesa que mais gostava: pudim de leite condensado. Não havia
quem fizesse melhor. Quando colocou o primeiro pedaço na boca, sentiu o gosto
de infância. Lembrou das árvores na chácara, das galinhas soltas entrando na
cozinha, do balanço de madeira preso nos galhos fortes onde o irmão mais velho
a empurrava para-lá-e-para-cá.
- Com força! Mais forte! No alto!
E os dois riam até que a mãe gritava que
parassem, porque poderiam cair. Nunca caíram e nunca paravam.
Época boa sem preocupação. Ou perdas.
Hoje, o sobrinho e a cunhada moram ali com
eles. O irmão se fora muito cedo. Um daqueles caroços que surgem do nada e em
pouco tempo domina todo o corpo. Não puderam fazer muita coisa.
Quando veio visitá-lo não acreditou ser a
mesma pessoa que vira na última vez. Magro, quase sem cabelo, falava devagar e
movia-se muito pouco. A única coisa que não mudara: seu sorriso. Quando a viu,
mostrou os dentes, abrindo quase toda a boca. Abraçou-o sem apertar demais.
Teve medo de machucá-lo. Conversaram, recordaram, e ele falou com orgulho do filho
que estava completando dez anos.
Apenas murmurou: pena não poder ver meu
garoto crescer. Em seguida virou-se novamente com um riso largo e pediu que
falasse dela. Queria saber tudo e era melhor que contasse antes que papai
chegasse da rua.
Não o viu mais depois desse dia.
Subiu os degraus de dois em dois como sempre
fizera.
Abriu a porta do quarto. A mãe, sentada ao
lado da cama, segurava a mão do marido enquanto prestava atenção na imagem que
aparecia na tela. Ficou observando-os até que a notaram. A mãe levantou-se
rápido e a abraçou forte. Aspirou o cheiro que vinha dela. O mesmo. Uma mistura
do perfume que sempre usara e um aroma doce vindo de alguma coisa que preparara
na cozinha. Gostava e sentia falta daquele cheiro. O pai abriu os braços para
que encostasse a cabeça no seu peito. Ouviu um coração que já apresentava
cansaço.
Avisou que ficaria por três dias e os dois se
entreolharam demonstrando alegria. Também ela estava feliz por estar naquela
casa.
Precisava se sentir acarinhada, mesmo que fosse
por eles, que necessitavam ainda mais de carinho.
A mãe desceu para aprontar o lanche e ela
ficou ouvindo as histórias antigas e já contadas tantas vezes pelo pai.
Comentavam sobre cada uma delas como se nunca as houvesse escutado. Ele sorria
por sua presença. Ela sorria porque por alguns momentos seus pensamentos a
deixaram em paz. Mais
tarde, talvez a dominassem outra vez. Mas agora era uma daquelas pequenas
felicidades que acontecem ao longo do dia. E não deixaria que acabasse logo.
27/08/2012.
Queria ver se ele estivesse em meu lugar
21/01/2017 | 18h48
Queria ver se ele estivesse em meu lugar
Cândida Albernaz
O calor era intenso àquela hora do dia. Sentia o suor escorrer entre os seios, e nas axilas um leve cheiro fazia com que mantivesse os braços apertados ao longo do corpo para que não notassem. O filho em meu colo dormia e gemia de vez em quando. Enfim consegui que o médico nos atendesse. Na primeira vez que fui ao posto de saúde, ele não apareceu e tive que voltar para casa. Desta vez estava lá, e depois de algumas horas de espera, ao lado de outras mães, fui atendida. Não entendi muito bem o que o doutor disse, não sou boa para isso. De uma coisa tive certeza, meu filho jamais voltaria a escutar. Ele falou sobre uma gripe forte, febre alta e secreção no ouvido: muita. Não cuidou direito do seu filho!, foi o que disse. Em casa usei o que sabia para curar meu menino. Fiz de tudo para que algum médico o visse, mas nada. No posto sempre falta remédio e o doutor mesmo, nunca está lá. Tem uns garotos novos e dava para ler na cara deles que ainda não entendiam bem o que estavam fazendo. E esse médico agora veio dizendo que não cuidou direito do seu filho! Queria ver esse sujeito no meu lugar. Cinco filhos, uma casa de três cômodos e sem um homem ao meu lado, porque o marido, esse sumiu no mundo depois que deu para beber. Enchia a cara dia sim, dia também e quando começou a bater em mim e nas crianças, pedi que fosse embora. Ele foi. Já devia ter outra, o sem vergonha. Nunca mais apareceu. Melhor assim, porque um tapa ou outro ainda aguentava, mas nos filhos não. Não tive mais ninguém depois dele. Quem é que vai querer uma mulher com cinco filhos? Quando um encosta, sei bem no que está pensando e não quero isso para mim. Depois tem outra coisa: Tenho duas meninas e já ouvi muita história. Eles vão se chegando e quando a gente percebe, estão mexendo com nossas filhas. Se o pai, só porque bateu mandei embora, um qualquer que colocar a mão nas minhas garotas, sou capaz de matar. E aí como vai ser? Quem vai cuidar deles, se eu pegar cadeia? Não quero homem na minha vida, não. O doutor disse que meu filho é surdo faz tempo, por isso não falava. E eu bem que achei estranho, os irmãos falaram cedo e ele, nada. Coitadinho, nem escutava quando eu cantava para que dormisse. Ficava me olhando e tentava tocar minha boca. Enquanto eu movia os lábios, ele sorria. Demorava a dormir, o danado. Deve ser por isso que sempre gostou de colocar a mão na boca dos irmãos também. Esse médico vem dizer que não cuidei direito do meu filho! Isso não sai da minha cabeça. Se não fosse minha patroa que além do salário que me paga, manda sempre que eu leve o que sobra para os meninos, as coisas iam ser piores. É verdade que passei a fazer sempre um pouco mais do que precisava na casa dela. Afinal, dependo disso para ter o que levar para casa. É um acordo entre nós duas: ela sabe que exagero um pouco na quantidade e finge que não percebe. Eu agradeço não negando nunca qualquer coisa que me pede. Quando saio para trabalhar os maiores vão para a escola e esse aqui levo comigo, porque não incomoda ninguém. Fica no quartinho lá fora, bem quieto, brincando sozinho. Quantas vezes fiquei acordada a noite inteira cuidando de filho doente? E sem comer para sobrar para eles? E me humilhando, pedindo a ajuda de qualquer um quando precisávamos de alguma coisa? E esse médico me diz que não cuidei direito do meu filho!
Sobre o autor
Candida Albernaz
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