Queria ver se ele estivesse em meu lugar
Queria ver se ele estivesse em meu lugar
Cândida Albernaz
O calor era intenso àquela hora do dia. Sentia o suor escorrer entre os seios, e nas axilas um leve cheiro fazia com que mantivesse os braços apertados ao longo do corpo para que não notassem. O filho em meu colo dormia e gemia de vez em quando. Enfim consegui que o médico nos atendesse. Na primeira vez que fui ao posto de saúde, ele não apareceu e tive que voltar para casa. Desta vez estava lá, e depois de algumas horas de espera, ao lado de outras mães, fui atendida. Não entendi muito bem o que o doutor disse, não sou boa para isso. De uma coisa tive certeza, meu filho jamais voltaria a escutar. Ele falou sobre uma gripe forte, febre alta e secreção no ouvido: muita. Não cuidou direito do seu filho!, foi o que disse. Em casa usei o que sabia para curar meu menino. Fiz de tudo para que algum médico o visse, mas nada. No posto sempre falta remédio e o doutor mesmo, nunca está lá. Tem uns garotos novos e dava para ler na cara deles que ainda não entendiam bem o que estavam fazendo. E esse médico agora veio dizendo que não cuidou direito do seu filho! Queria ver esse sujeito no meu lugar. Cinco filhos, uma casa de três cômodos e sem um homem ao meu lado, porque o marido, esse sumiu no mundo depois que deu para beber. Enchia a cara dia sim, dia também e quando começou a bater em mim e nas crianças, pedi que fosse embora. Ele foi. Já devia ter outra, o sem vergonha. Nunca mais apareceu. Melhor assim, porque um tapa ou outro ainda aguentava, mas nos filhos não. Não tive mais ninguém depois dele. Quem é que vai querer uma mulher com cinco filhos? Quando um encosta, sei bem no que está pensando e não quero isso para mim. Depois tem outra coisa: Tenho duas meninas e já ouvi muita história. Eles vão se chegando e quando a gente percebe, estão mexendo com nossas filhas. Se o pai, só porque bateu mandei embora, um qualquer que colocar a mão nas minhas garotas, sou capaz de matar. E aí como vai ser? Quem vai cuidar deles, se eu pegar cadeia? Não quero homem na minha vida, não. O doutor disse que meu filho é surdo faz tempo, por isso não falava. E eu bem que achei estranho, os irmãos falaram cedo e ele, nada. Coitadinho, nem escutava quando eu cantava para que dormisse. Ficava me olhando e tentava tocar minha boca. Enquanto eu movia os lábios, ele sorria. Demorava a dormir, o danado. Deve ser por isso que sempre gostou de colocar a mão na boca dos irmãos também. Esse médico vem dizer que não cuidei direito do meu filho! Isso não sai da minha cabeça. Se não fosse minha patroa que além do salário que me paga, manda sempre que eu leve o que sobra para os meninos, as coisas iam ser piores. É verdade que passei a fazer sempre um pouco mais do que precisava na casa dela. Afinal, dependo disso para ter o que levar para casa. É um acordo entre nós duas: ela sabe que exagero um pouco na quantidade e finge que não percebe. Eu agradeço não negando nunca qualquer coisa que me pede. Quando saio para trabalhar os maiores vão para a escola e esse aqui levo comigo, porque não incomoda ninguém. Fica no quartinho lá fora, bem quieto, brincando sozinho. Quantas vezes fiquei acordada a noite inteira cuidando de filho doente? E sem comer para sobrar para eles? E me humilhando, pedindo a ajuda de qualquer um quando precisávamos de alguma coisa? E esse médico me diz que não cuidei direito do meu filho!