Festa de aniversário
Festa de aniversário
Cândida Albernaz
Gosto de olhar Janaína enquanto dorme. Ela me leva para longe de tudo o que me preocupa.
Na cama de casal dormimos eu, ela e o pai. A casa de três cômodos, construída no quintal de minha sogra é bem cuidada porque sou caprichosa. Se tem uma coisa de que faço questão, é limpeza. O piso, Maurício meu marido, colocou no mês passado. Antes era terra e ficava impossível manter tudo sem poeira. Estou feliz porque arranjei emprego. Mais uma vez consegui na lavoura. Não é lá grande coisa, mas ajuda. Acordo às quatro horas e faço a comida que deixo pronta antes de sair. Só volto no final da tarde e é então que me distraio com as brincadeiras de minha filha.
Não sou letrada e nunca tive medo de serviço. Maurício é pedreiro, mas nem sempre tem trabalho, de vez em quando faz uns biscates aqui e ali. Conseguiu vaga numa obra e juntando o salário dele com o meu, a vida fica mais leve.
O que incomoda é quando a mãe dele vem aqui em casa, e isso é todo dia. Vive querendo ensinar como educar Janaína. Diz que não tenho experiência, sou nova ainda e que seria bom que seguisse seus conselhos. Tento fingir que não escuto, mas às vezes fica difícil. Principalmente quando além de ela brigar com minha filha, aperta seu braço deixando a marca das unhas. Não gosto e avisei que não repetisse. Filha minha eu educo e ninguém bota a mão. Ficou ofendida e foi reclamar com Maurício porque gritei com ela. Esse negócio de sogra entrando na casa da gente toda hora, não pode acabar bem. Pareço quietinha, mas não sou. Já preveni Maurício, se sua mãe encostar a mão em Janaína mais uma vez, eu é que vou sentar a mão nela. Ele não ficou satisfeito com o que falei e quis discutir, mas não mudei de idéia.
Quando nos casamos, a mãe dele vivia dizendo que a Soninha sim, é que é mulher pro meu filho. Fina, professora, sabe se vestir e falar, não é como umas e outras que trabalham na lavoura e não terminam os estudos. Quase deixei que ela soubesse que a fina da Soninha costumava dar para todo mundo e o filho dela ia ser corno. Fiquei quieta, porque Maurício falou que ia dar um jeito na mãe.
Ela até deu sossego por um tempo, quando soube que ia ser avó. Mas foi a neta nascer e a mulher começar a se meter em tudo.
Droga! Até quando penso nela me atrapalha. Quase deixo a canjiquinha queimar.
Olho Janaína mais uma vez antes de sair. Os dois têm o sono pesado. É muito cedo ainda. Daqui a pouco a irmã dele chega para ficar com a sobrinha e Maurício sai. Queria ter mais tempo para ela. A danadinha está rindo dormindo, deve ser algum sonho bom.
Fecho a porta, passo pela casa da sogra, que graças a Deus ainda não acordou. O portão está emperrado e demoro a abrir. Vou andar rápido, pois não posso perder o dia. Esse dinheiro me faria muita falta. Detesto essas botinas que sou obrigada a usar, apertam os dedos.
O caminhão que vai levar a gente não chegou. Ontem ele deu problema no freio, quase caímos na ribanceira. Espero que tenham feito o conserto.
Minha menina faz três anos amanhã. Combinei tudo com a cunhada. Recebo hoje e vou comprar o que precisa para fazer um bolinho. Pipoca vai ter porque ela adora e pirulito também. Só a gente e as crianças da vizinha. Vai valer a pena o sacrifício, será a primeira vez que vamos comemorar.
Nossa, para que buzinar desse jeito? Acha que a gente é surda?
Se der, compro umas bolas também.
Que gritos são esses? Olho para trás e a sensação que tenho é de que aquele caminhão cresce à minha frente se tornando gigante e eu cada vez menor.
Será que Janaína acordou?