Não gosto de migalhas
candida 01/11/2012 21:11
Não gosto de migalhas. Cândida Albernaz Parado ao lado da bomba de gasolina, tremia de frio. O boné, o uniforme vermelho e o sapato furado, estavam encharcados. Aqui todos me conhecem. A chuva caía forte e prometia não estiar tão cedo. O guarda-chuva preto fechado, não conseguiu proteger-me. O frentista com pena ofereceu-me um café quente que ao beber, parecia o melhor que já havia experimentado. Saí de casa com água no portão que quase cobria a calçada. Arrumei o serviço há pouco e não posso me dar ao luxo de faltar. Estive desempregado por quase dois anos. Já não acreditava em mim mesmo, quando um vizinho conseguiu a entrevista para emprego de vigia de uma casa de tintas. Trabalho diurno. Estava longe de ser jovem. Os sessenta anos pesavam como se fossem cem. Desde garoto, sempre trabalhei muito. Mal sei ler, mas os filhos, fiz questão que aprendessem. Hoje são homens com suas próprias famílias e não moram mais na mesma cidade que eu. Necessidades da vida. No outro dia, a mulher leu para mim uma carta do Eliélton: dizia que a Dalva, nossa nora, esperava o terceiro filho. Ele trabalha numa firma de construção há três anos e prometia que qualquer dia desses mandava o dinheiro das passagens para que eu e a mulher fôssemos conhecer os netos. Cinco anos não vejo Eliélton. Quando jovem trabalhei como pintor, ajudante de pedreiro, vigia de casas e até jardineiro. De todos, foi o serviço que mais gostei. Mexer com a terra e as flores fazia com que sentisse paz. Minha mulher trabalhou durante muito tempo como faxineira de um hospital da cidade. Faz dois anos se aposentou e o que ganhava ficou reduzido. Hoje faz faxina em casa de família. Uma santa, a Denilda. Nos piores momentos da vida, sofria calada e só fazia rezar. Quando perdemos nosso caçula ainda jovem - pressão alta, o médico disse - ela chorou muito. Ouvi quando fazia uma oração entregando o filho a Deus e dizendo aceitar a parte que lhe cabia na vida. Chorei também, escondido, que nunca fui de mostrar sentimento. Nem tanto por nosso filho, mas por ela. O café quente não resolveu muito. Bato o queixo com força e o corpo treme sem me obedecer, porque não quero parecer frágil. Uma mulher parou o carro ao meu lado e me ofereceu uma toalha. Teve pena de mim. Aceitei.  Não estou em condição de negar, mas detesto quando me oferecem migalhas. Não posso pegar uma gripe, nem coisa pior. Preciso continuar trabalhando, porque dessa forma sou homem. Estive doente no mês passado: pneumonia. Não quero arriscar acontecer de novo. A chuva não passa. Coloquei a toalha em volta dos ombros, o que me esquentou um pouco. Vou arregaçar a calça e continuar meu caminho. A água já está acima do tornozelo, e parece que vai aumentar. Enfio o boné na cabeça com mais força e abro o guarda-chuva. O vento quase o leva. Vou andando devagar, não consigo o contrário. As costas doem e a tosse constante recomeça. O chefe vai entender meu atraso, espero. Ele é um pouco intolerante, mas não é cego e está vendo o temporal. Agora está perto, consigo ver a fachada do prédio. Que frio estou sentindo. Até a toalha em que me enrolei está molhada. Pronto, é só atravessar a rua, falta pouco. Lá dentro vou conseguir algo seco para vestir. Tenho certeza que vão arranjar. A garota que serve o café, de vez em quando me leva um. Vai fazer isso hoje também. A visão está turva e percebo as pernas fracas. Cheguei. Antes de abrir a porta de vidro, sinto tonteira. Meu corpo cai fazendo um barulho oco. Ouço vozes: ajude aqui, o seu Elias está passando mal.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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