Para todo o sempre
Para todo o sempre
Cândida Albernaz
Quando a gente se conheceu estava na cara que não ia dar certo. Todos os amigos comentaram e tentaram me fazer desistir. Eu mesma alegava que era só uma brincadeira enquanto não tinha nada melhor. Claudinha nos apresentou “um amigo que acabou de chegar de Paris, viveu lá por seis anos trabalhando no hospital de maior renome, blá-blá-blá-blá”. A única coisa que realmente me interessou em tudo o que disse e não escutei, foram seus olhos de um negro profundo que não descolavam dos meus. Pediu meu telefone e apesar de ter certeza que não ia ligar, dois dias depois, quando atendi uma chamada, era você me convidando para o cinema. Chegou com uma camisa de tecido e manga longa enquanto eu caminhava ao seu lado com minha sandália rasteira e bolsa de lona verde. O filme foi ótimo e pude assisti-lo inteiro já que nem por uma vez você tentou me tocar.
Saímos para jantar e sugeri um restaurante “onde preparam uma ótima comida tailandesa”. Não questionou, mas mal tocou na comida. Em compensação, parecia engolir cada palavra do que eu dizia.
No domingo apareceu sem avisar, coisa incomum em você, como vim a descobrir mais tarde, para me convidar para irmos até o Museu Nacional de Belas Arte. Eu de biquine, pronta para a praia que havia combinado com o pessoal. Troquei a roupa e passei o domingo ouvindo sobre telas e os lugares onde me levaria para conhecer.
Passava os dias e algumas noites também no hospital em que trabalhava desde que voltou ao Brasil, e eu na pequena livraria que herdei de meu pai.
Você gostava da noite quando podia, é claro, e eu do dia. Você ouvia música clássica e eu mpb. Sabia escolher um vinho enquanto minha bebida predileta era suco de abacaxi com clorofila.
Cada encontro nosso se transformava na descoberta do outro e de prazeres ainda não experimentados. Porque fazíamos questão de conhecer o sabor do nosso gosto.
Quando notamos, dois anos haviam passado e você, num jantar especial, em um restaurante de comida asiática, que não aprendeu a gostar, me pediu em casamento. Sem medo algum aceitei.
Pedro, nome escolhido por mim, chegou numa noite em que você estava de plantão. Pedi ajuda a Claudinha, que havia sido nossa madrinha de casamento, que me levasse ao hospital. Na sala de cirurgia, onde demonstrava toda a minha força num parto normal, você entrou e segurou minhas mãos. Conseguiu que algum colega o substituísse.
Cinco anos depois, Layla, nome escolhido por você, e Pedro brincavam na praia enquanto nós dois babávamos por eles na areia. À tarde iríamos todos juntos ao Museu do Índio.
* * *
Você dorme enquanto passo os dedos em seus cabelos brancos. Adoro o contraste deles com seus olhos. Não opera mais, porque o tremor das mãos não deixa. Quando a memória foge um pouco, sento ao seu lado e folheio álbuns com as fotos de nossa vida. Vez ou outra percebo um movimento diferente em seus olhos e um repuxar dos lábios como se um sorriso fosse sair dali. Então sei que estamos juntos de novo. Aperto sua mão com força, que quase foge da minha. Vira-se e me observa. Beijo seus lábios rapidamente e você puxa a minha cabeça para seu ombro, enquanto tenta enlaçar minha cintura.
Nossa neta Manuela, entra no quarto e percebendo sua lucidez, fala sobre o que está aprendendo na faculdade de medicina. Então você se torna o rapaz recém chegado de Paris que me fitava com olhos negros e vivos, até que num repente, as pálpebras baixam e a voz se cala. Sabemos que é hora de deixá-lo descansar. Manuela me ajuda a acomodá-lo entre as cobertas e cada uma de nós beija seu rosto.
Talvez mais tarde, ou amanhã, ou ainda depois, possamos retomar a conversa. Temos paciência.
Ainda olho você antes de fechar a porta do quarto e penso que nossos amigos estavam errados. Nunca nada deu tão certo quanto nós dois juntos.