Tentar uma vez mais
candida 20/09/2012 14:47
  Tentar uma vez mais Cândida Albernaz Não gostava quando o cansaço que sentia vinha sem motivo algum. Era excessivo até mesmo abrir os olhos. Ficar com as pálpebras abaixadas, escondendo o mundo de sua visão. Desde menina lutava para manter-se acordada, participando de uma vida que lhe era imposta. Inúmeras vezes pensou em desistir, mas então descobria um motivo, em seguida um novo motivo, e mais um, para que entendesse que ainda não chegara o momento de abandonar. Brigou tanto consigo mesma que se tornou adulta mais forte do que jamais imaginara poderia ter sido. *                                             *                                 * Na poltrona do ônibus ouvia uma conversa aqui, o ronco de alguém que dormia pesado, o folhear de um jornal, o celular incômodo que insistia em tocar... Havia três horas que saíra e ainda faltava um tanto igual para ser percorrido. Tempo é o que sobrava em seus dias agora que as crianças cresceram, casaram e têm seu espaço no mundo. Decidiu visitar a irmã que se mudara há muito. Ela casou-se com um engenheiro que conheceu no período da faculdade. Viviam bem com os dois filhos que tiveram. Sempre que a via, estava com um sorriso no rosto e com uma história boa para contar. Esse jeito da irmã tão diferente dela fazia com que sentisse paz quando estavam juntas. *                            *                                 * De novo o tempo que sempre a incomodara. Ter que ocupar as horas, os minutos e principalmente os segundos, estes pareciam não ter fim. Buscava preenchê-los em muitos momentos com qualquer coisa que pudesse prender sua atenção. O que não era fácil, já que a ansiedade habituara-se a ter domínio sobre ela. Um exercício constante tentar subjugá-la. Não conseguir adivinhar o próximo passo que seria dado por alguém que estava perto, provocava sensação que beirava o desespero. E a mente divagava e se julgava dona de verdades. *                           *                                 * Também teve seus filhos, principal motivo de seguir adiante, e hoje três netos. Não acreditou que chegaria tão longe. Mentira, sabia que sim. Desde quando o garoto, o mais velho, abrira os olhos pela primeira vez e encontrara os seus. Soube naquele exato instante que precisava continuar. E nunca quis tanto algo. Durante a infância e adolescência dos dois, não houve muito espaço para pensar em si mesma. Vivia todas as delícias e estranhezas de ser mãe. Todas as culpas e felicidades. Toda a sabedoria e medos de errar. Experimentava ser completa. O marido tinha suas reuniões, viagens, futebol com os amigos, enfim, ocupado com vontades próprias, a qual em alguns dias a incluía. Permitiu que fosse assim. No início, tentou mostrar que o amava e necessitava estar com ele. Não parecia ver ou escutar. Desistiu e voltou toda sua energia para os filhos e suas exigências. *                                 *                                  * Quantas vezes se sentiu inundar por uma esperança que a assustava? De uma felicidade que temia acabar? Dominar a angústia por não poder conhecer a mente alheia era um enorme esforço. Se não sabia o que o outro pensava, como se soltar e percorrer livremente os caminhos que queria? Sabia possuir uma vontade de acarinhar, de sorrir e se dar sem tamanho. Por longo período não pôde exercer essa amplidão de emoções. *                                 *                                 * Quando o marido avisou que sairia de casa, respirou alívio. Teria um espaço só seu, sem aquele homem que se tornara um estranho. Não se tocavam mais e ela esquecera o que era dar e receber atenção. Não foi fácil absorver liberdade após tantos anos. Havia momentos de solidão quase palpável, mas vários de encontros, reencontros, começos e recomeços que provocavam gigante prazer. *                           *                                 * Aproximava-se da rodoviária e podia ver a irmã com uma blusa vermelha e ainda com os cabelos pretos e curtos como sempre usara. Riu sentindo leveza. O passageiro sentado a seu lado olhou-a. Sem pensar tapou a boca com a mão, acreditando esconder envergonhada o riso com som de tranquilidade. Tinha muito o que falar e ouvir. Conhecera alguém. Quem sabe dessa vez valeria a pena? Não era o primeiro, talvez não fosse o último. Mas para quem tem tanto medo da vida, decidira novamente que se entregaria de forma completa. Para que se sentisse inteira. Quando os olhos impuserem se manter fechados, procuraria, o que não sabe de onde vem, a força que constantemente a impulsionava adiante. E acharia novos motivos para sorrir. Sorrir não. Era pouco. Para gargalhar. Do jeito que descobrira saber fazer. 17/09/12

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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