Tentar uma vez mais
Tentar uma vez mais
Cândida Albernaz
Não gostava quando o cansaço que sentia vinha sem motivo algum. Era excessivo até mesmo abrir os olhos.
Ficar com as pálpebras abaixadas, escondendo o mundo de sua visão.
Desde menina lutava para manter-se acordada, participando de uma vida que lhe era imposta.
Inúmeras vezes pensou em desistir, mas então descobria um motivo, em seguida um novo motivo, e mais um, para que entendesse que ainda não chegara o momento de abandonar.
Brigou tanto consigo mesma que se tornou adulta mais forte do que jamais imaginara poderia ter sido.
* * *
Na poltrona do ônibus ouvia uma conversa aqui, o ronco de alguém que dormia pesado, o folhear de um jornal, o celular incômodo que insistia em tocar...
Havia três horas que saíra e ainda faltava um tanto igual para ser percorrido.
Tempo é o que sobrava em seus dias agora que as crianças cresceram, casaram e têm seu espaço no mundo. Decidiu visitar a irmã que se mudara há muito. Ela casou-se com um engenheiro que conheceu no período da faculdade. Viviam bem com os dois filhos que tiveram.
Sempre que a via, estava com um sorriso no rosto e com uma história boa para contar. Esse jeito da irmã tão diferente dela fazia com que sentisse paz quando estavam juntas.
* * *
De novo o tempo que sempre a incomodara. Ter que ocupar as horas, os minutos e principalmente os segundos, estes pareciam não ter fim. Buscava preenchê-los em muitos momentos com qualquer coisa que pudesse prender sua atenção. O que não era fácil, já que a ansiedade habituara-se a ter domínio sobre ela. Um exercício constante tentar subjugá-la.
Não conseguir adivinhar o próximo passo que seria dado por alguém que estava perto, provocava sensação que beirava o desespero. E a mente divagava e se julgava dona de verdades.
* * *
Também teve seus filhos, principal motivo de seguir adiante, e hoje três netos. Não acreditou que chegaria tão longe. Mentira, sabia que sim. Desde quando o garoto, o mais velho, abrira os olhos pela primeira vez e encontrara os seus. Soube naquele exato instante que precisava continuar. E nunca quis tanto algo.
Durante a infância e adolescência dos dois, não houve muito espaço para pensar em si mesma. Vivia todas as delícias e estranhezas de ser mãe. Todas as culpas e felicidades. Toda a sabedoria e medos de errar. Experimentava ser completa.
O marido tinha suas reuniões, viagens, futebol com os amigos, enfim, ocupado com vontades próprias, a qual em alguns dias a incluía. Permitiu que fosse assim. No início, tentou mostrar que o amava e necessitava estar com ele. Não parecia ver ou escutar. Desistiu e voltou toda sua energia para os filhos e suas exigências.
* * *
Quantas vezes se sentiu inundar por uma esperança que a assustava? De uma felicidade que temia acabar?
Dominar a angústia por não poder conhecer a mente alheia era um enorme esforço. Se não sabia o que o outro pensava, como se soltar e percorrer livremente os caminhos que queria?
Sabia possuir uma vontade de acarinhar, de sorrir e se dar sem tamanho. Por longo período não pôde exercer essa amplidão de emoções.
* * *
Quando o marido avisou que sairia de casa, respirou alívio. Teria um espaço só seu, sem aquele homem que se tornara um estranho. Não se tocavam mais e ela esquecera o que era dar e receber atenção.
Não foi fácil absorver liberdade após tantos anos.
Havia momentos de solidão quase palpável, mas vários de encontros, reencontros, começos e recomeços que provocavam gigante prazer.
* * *
Aproximava-se da rodoviária e podia ver a irmã com uma blusa vermelha e ainda com os cabelos pretos e curtos como sempre usara.
Riu sentindo leveza. O passageiro sentado a seu lado olhou-a. Sem pensar tapou a boca com a mão, acreditando esconder envergonhada o riso com som de tranquilidade.
Tinha muito o que falar e ouvir. Conhecera alguém. Quem sabe dessa vez valeria a pena? Não era o primeiro, talvez não fosse o último. Mas para quem tem tanto medo da vida, decidira novamente que se entregaria de forma completa. Para que se sentisse inteira.
Quando os olhos impuserem se manter fechados, procuraria, o que não sabe de onde vem, a força que constantemente a impulsionava adiante.
E acharia novos motivos para sorrir. Sorrir não. Era pouco. Para gargalhar. Do jeito que descobrira saber fazer.
17/09/12