Para o que é tá bom
Para o que é tá bom
Cândida Albernaz
- Por que não me disse que estava ruim?
- O que estava ruim?
- Não se faça de boba
- Não sei do está falando.
- Saí de casa vestindo uma calça marrom, sapato preto e camisa azul clara.
- Não notei
- Como “não notei?”. Perguntei antes de sair se minha roupa estava boa.
- E eu respondi?
- Disse que estava ótima.
- Talvez esteja ficando daltônica.
- Daltônica nada. Deixou que fosse para a rua vestindo isso de propósito.
- Eu?
- Com quem mais estou falando?
- Não sei, de uns tempos para cá, noto que algumas vezes fala sozinho.
- Eu falo sozinho e você resmunga o tempo todo.
- Deve ser a idade.
- Enfim reconhece que está ficando velha!
- Eu, não. Reconheço que você está avançado na idade e por isso pensa estar me ouvindo resmungar, quando na verdade estou cantando baixinho.
- E por que motivo estaria cantando? Vive de cara feia.
- É o seu reflexo que vê em mim.
- Meu reflexo... Não vivo mal humorado!
- Não, claro. Só quando me aproximo. Pelo menos, é quando posso identificar seu humor.
- Você é engraçada, reclama de mim, mas nunca está disposta a sair, e se saio com amigos, fica assim.
- Assim?
- Arrumando discussão.
- Não procuro discutir. Você foi quem chegou a casa apontando o dedo na minha direção.
- Que dedo apontei?
- Maneira de falar.
- Fui ao encontro de meus amigos vestido como um palhaço e não quer que eu reclame.
- Sua roupa foi você mesmo quem escolheu.
- Mas podia ter me dito que não estava bom. Teria trocado.
- E não ia adiantar nada.
- Por que não adiantaria nada?
- Você teria escolhido uma blusa laranja, ou roxa, ou qualquer outra que não combinasse.
- Mas podia me ajudar.
(- Pois sim. Para o que era estava bom).
- O que você resmungou baixinho? Viu só? Não ouvi o que falou.
- Falei que está crescidinho e já pode decidir o que vestir.
- Isso significa que não vai mais opinar sobre o que vou usar.
- Exatamente.
- Quando quiser saber se o seu cabelo ficou bom com um novo corte, ou se o vestido que comprou “valoriza o meu corpo?”, não vou responder nada.
- Estamos combinados.
- Não entendo. Resolveu mudar de uma hora para outra.
- Mudei faz tempo. Se não percebeu...
- O que quer dizer com isso?
- Cansei de cuidar de você como se fosse uma criança. Leite quentinho quando senta à mesa, roupa separada na cama para quando vai sair, jornal dobrado sem mexer até que você leia. Never more.
- Nunca mais coisa nenhuma. Não custa nada me fazer estes agrados.
- Custa sim. Minha paciência. A propósito, a meia azul marinho com bordado em relevo que estava usando, também não combinava com o resto. Seus amigos não notaram?