Para o que é tá bom
candida 01/11/2012 21:25
Para o que é tá bom Cândida Albernaz   - Por que não me disse que estava ruim? - O que estava ruim? - Não se faça de boba - Não sei do está falando. - Saí de casa vestindo uma calça marrom, sapato preto e camisa azul clara. - Não notei - Como “não notei?”. Perguntei antes de sair se minha roupa estava boa. - E eu respondi? - Disse que estava ótima. - Talvez esteja ficando daltônica. - Daltônica nada. Deixou que fosse para a rua vestindo isso de propósito. - Eu? - Com quem mais estou falando? - Não sei, de uns tempos para cá, noto que algumas vezes fala sozinho. - Eu falo sozinho e você resmunga o tempo todo. - Deve ser a idade. - Enfim reconhece que está ficando velha! - Eu, não. Reconheço que você está avançado na idade e por isso pensa estar me ouvindo resmungar, quando na verdade estou cantando baixinho. - E por que motivo estaria cantando? Vive de cara feia. - É o seu reflexo que vê em mim. - Meu reflexo... Não vivo mal humorado! - Não, claro. Só quando me aproximo. Pelo menos, é quando posso identificar seu humor. - Você é engraçada, reclama de mim, mas nunca está disposta a sair, e se saio com amigos, fica assim. - Assim? - Arrumando discussão. - Não procuro discutir. Você foi quem chegou a casa apontando o dedo na minha direção. - Que dedo apontei? - Maneira de falar. - Fui ao encontro de meus amigos vestido como um palhaço e não quer que eu reclame. - Sua roupa foi você mesmo quem escolheu. - Mas podia ter me dito que não estava bom. Teria trocado. - E não ia adiantar nada. - Por que não adiantaria nada? - Você teria escolhido uma blusa laranja, ou roxa, ou qualquer outra que não combinasse. - Mas podia me ajudar. (- Pois sim. Para o que era estava bom). - O que você resmungou baixinho? Viu só? Não ouvi o que falou. - Falei que está crescidinho e já pode decidir o que vestir. - Isso significa que não vai mais opinar sobre o que vou usar. - Exatamente. - Quando quiser saber se o seu cabelo ficou bom com um novo corte, ou se o vestido que comprou “valoriza o meu corpo?”, não vou responder nada. - Estamos combinados. - Não entendo.  Resolveu mudar de uma hora para outra. - Mudei faz tempo. Se não percebeu... - O que quer dizer com isso? - Cansei de cuidar de você como se fosse uma criança. Leite quentinho quando senta à mesa, roupa separada na cama para quando vai sair, jornal dobrado sem mexer até que você leia. Never more. - Nunca mais coisa nenhuma. Não custa nada me fazer estes agrados. - Custa sim. Minha paciência. A propósito, a meia azul marinho com bordado em relevo que estava usando, também não combinava com o resto. Seus amigos não notaram?

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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