A casa sob o viaduto
candida 03/10/2012 23:04
A casa sob o viaduto     Aquela casa me traz lembranças que muitas vezes prefiro esquecer. Quando passo no alto do viaduto dentro do carro, vejo-a já sem o telhado e com portas e janelas quebradas, mas com paredes em pé. As recordações vêm como avalanches mesmo depois de tanto tempo. A parte que mais gostava era a cozinha onde sentava num banquinho e ficava olhando minha avó fazendo rabanada em calda. Minha boca ainda hoje se enche de água sentindo o gosto do pão com a calda de açúcar e a ameixa. Ela sempre tinha histórias para contar. E eu, sempre tempo para ouvir. Mais tarde já rapaz, era eu quem lhe contava histórias do dia a dia. Ela queria saber de tudo, parecia absorver o que falava com sofreguidão. Sempre soube que era seu neto predileto. Nunca tentou esconder isso dos outros, que aceitavam o fato como algo natural, de direito. Depois que vovó se foi meu avô não durou muito. Costumava dizer que ela era sua luz e que não havia motivo para viver na escuridão. A casa era grande. Nela morava nossa família e meus avós. Lembro de minhas irmãs quando crianças correndo no jardim enquanto as perseguia tentando tirar o laço de seus cabelos. Naquela época tudo era motivo de risos, nos sentíamos felizes. Nunca percebemos nada errado, até o dia em que papai nos reuniu na sala com um olhar sério e colocando-nos um ao lado do outro, avisou que mamãe tinha ido embora. As meninas começaram a chorar e vovó correu para abraçá-las. Saí andando e fui até a janela. Tentava olhar o mais distante que podia para ver se ela ainda estava lá. Não adiantava mais. Levei muitos anos sem saber o motivo de nossa mãe ter nos abandonado. Papai não admitia que tocássemos no assunto. Só chorei uma vez e deve ter sido um mês depois, quando senti uma dor na barriga muito forte e meu pai disse que me virasse. Nesse dia senti uma saudade enorme dela. Escondido no quarto apertei o travesseiro no rosto para que ninguém escutasse os soluços. Foi só dessa vez. Na época tinha dez anos e era o mais velho dos três. Meu pai não se casou de novo. Ele que já era sério ficou mais sério ainda. Quase não conversávamos. Ainda bem que tínhamos vovó e suas histórias. Algumas vezes nos contava baixinho algo sobre mamãe. Mas com o tempo, ela também parou de falar sobre isso. Papai morreu quando fiz quarenta e cinco anos. Só estávamos eu, minhas irmãs e seus maridos no enterro. Foi então que a vi outra vez. Estava num canto embaixo de uma árvore e quando percebeu que a olhava, abaixou a cabeça fechando os olhos. Esperei que todos fossem embora e me aproximei. Não tinha certeza de quem era, mas quando cheguei perto, ela me abraçou chorando chamando-me de "filho!”. Tinha os cabelos brancos, ralos e as mãos trêmulas. Não falamos nada, caminhamos de braços dados até um banco onde nos sentamos. Sem que eu perguntasse, foi contando que largara meu pai (e a nós também, claro) por amor a outro homem. Um antigo namorado. Quando se casou não amava o marido. Fez por pirraça, para vingar-se desse homem que ficara noivo de outra. Mais tarde a procurou dizendo não ter se casado e nem tê-la esquecido. Afirmou que levou alguns anos sem nos ver. Era jovem e disse não ter instinto materno como as outras. Fora morar em outro estado e só bem mais tarde procurou saber a nosso respeito. Sabia que não tinha desculpa, mas nos amava do seu jeito. Eu a ouvia calado até que parou de falar. Então perguntei se precisava de algo. Olhou-me com o canto dos olhos, disse que estava doente e morando num asilo. O homem pelo qual largara a família havia morrido há um bom tempo. Peguei-a novamente pelo braço e levei-a. Chamei minhas irmãs e elas conversaram bastante. Não sei se a perdoei ou não. Trouxe-a para morar comigo e cuidei de sua velhice. Nunca consegui chamá-la de mãe outra vez. A casa onde passei minha infância e juventude foi vendida. Vinte anos depois ela está ainda ali, com aquele viaduto quase a cobrindo. Algumas vezes sinto saudades. Outras, só quero esquecer.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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