A casa sob o viaduto
A casa sob o viaduto
Aquela casa me traz lembranças que muitas vezes prefiro esquecer.
Quando passo no alto do viaduto dentro do carro, vejo-a já sem o telhado e com portas e janelas quebradas, mas com paredes em pé. As recordações vêm como avalanches mesmo depois de tanto tempo.
A parte que mais gostava era a cozinha onde sentava num banquinho e ficava olhando minha avó fazendo rabanada em calda. Minha boca ainda hoje se enche de água sentindo o gosto do pão com a calda de açúcar e a ameixa. Ela sempre tinha histórias para contar. E eu, sempre tempo para ouvir. Mais tarde já rapaz, era eu quem lhe contava histórias do dia a dia. Ela queria saber de tudo, parecia absorver o que falava com sofreguidão. Sempre soube que era seu neto predileto. Nunca tentou esconder isso dos outros, que aceitavam o fato como algo natural, de direito.
Depois que vovó se foi meu avô não durou muito. Costumava dizer que ela era sua luz e que não havia motivo para viver na escuridão.
A casa era grande. Nela morava nossa família e meus avós. Lembro de minhas irmãs quando crianças correndo no jardim enquanto as perseguia tentando tirar o laço de seus cabelos. Naquela época tudo era motivo de risos, nos sentíamos felizes.
Nunca percebemos nada errado, até o dia em que papai nos reuniu na sala com um olhar sério e colocando-nos um ao lado do outro, avisou que mamãe tinha ido embora.
As meninas começaram a chorar e vovó correu para abraçá-las. Saí andando e fui até a janela. Tentava olhar o mais distante que podia para ver se ela ainda estava lá. Não adiantava mais.
Levei muitos anos sem saber o motivo de nossa mãe ter nos abandonado. Papai não admitia que tocássemos no assunto. Só chorei uma vez e deve ter sido um mês depois, quando senti uma dor na barriga muito forte e meu pai disse que me virasse. Nesse dia senti uma saudade enorme dela. Escondido no quarto apertei o travesseiro no rosto para que ninguém escutasse os soluços. Foi só dessa vez. Na época tinha dez anos e era o mais velho dos três.
Meu pai não se casou de novo. Ele que já era sério ficou mais sério ainda. Quase não conversávamos. Ainda bem que tínhamos vovó e suas histórias. Algumas vezes nos contava baixinho algo sobre mamãe. Mas com o tempo, ela também parou de falar sobre isso.
Papai morreu quando fiz quarenta e cinco anos. Só estávamos eu, minhas irmãs e seus maridos no enterro.
Foi então que a vi outra vez.
Estava num canto embaixo de uma árvore e quando percebeu que a olhava, abaixou a cabeça fechando os olhos.
Esperei que todos fossem embora e me aproximei. Não tinha certeza de quem era, mas quando cheguei perto, ela me abraçou chorando chamando-me de "filho!”.
Tinha os cabelos brancos, ralos e as mãos trêmulas. Não falamos nada, caminhamos de braços dados até um banco onde nos sentamos. Sem que eu perguntasse, foi contando que largara meu pai (e a nós também, claro) por amor a outro homem. Um antigo namorado. Quando se casou não amava o marido. Fez por pirraça, para vingar-se desse homem que ficara noivo de outra. Mais tarde a procurou dizendo não ter se casado e nem tê-la esquecido.
Afirmou que levou alguns anos sem nos ver. Era jovem e disse não ter instinto materno como as outras. Fora morar em outro estado e só bem mais tarde procurou saber a nosso respeito. Sabia que não tinha desculpa, mas nos amava do seu jeito.
Eu a ouvia calado até que parou de falar. Então perguntei se precisava de algo. Olhou-me com o canto dos olhos, disse que estava doente e morando num asilo. O homem pelo qual largara a família havia morrido há um bom tempo.
Peguei-a novamente pelo braço e levei-a. Chamei minhas irmãs e elas conversaram bastante.
Não sei se a perdoei ou não. Trouxe-a para morar comigo e cuidei de sua velhice. Nunca consegui chamá-la de mãe outra vez.
A casa onde passei minha infância e juventude foi vendida.
Vinte anos depois ela está ainda ali, com aquele viaduto quase a cobrindo.
Algumas vezes sinto saudades. Outras, só quero esquecer.