E o tempo leva com ele
candida 30/08/2012 00:51
E o tempo leva com ele. Cândida Albernaz Queria sentar e descansar. Ansiava fugir para algum lugar onde o nada fosse a única coisa que poderia fazer. Riu de si mesma. Não havia tal lugar e se houvesse, seria cansativo. O nada remete a ninguém e ninguém lembra a solidão. Nunca foi boa nisso. Estar sozinha, fazendo companhia a si mesma. Necessitava de gente como do ar. Amigos costumavam dizer que se temia a solidão era porque não se sentia feliz. Bobagem. Era feliz do seu jeito. Com pequenos momentos maravilhosos, que somados ao longo de um dia, lhe bastavam. Os pensamentos eram seu maior problema. Estes costumavam galopar enquanto, com seus passos curtos, tentava controlá-los. Se estivesse ansiosa ou triste, os danados ocupavam todo o espaço em sua mente deixando-a ainda mais ansiosa. E triste. Em dias assim, qualquer sorriso à sua frente era recebido como o maior dos tesouros. Olhou a escada e ficou imaginando se teria coragem de subir. Já o fizera outras vezes, mas agora tudo havia mudado. Não se recordava daquele vaso com um arvoredo ao lado da entrada. Mais modificações devem ter sido feitas. Passara muito tempo. Lembrou-se que os visitara há quase um ano. Era dia dos pais e estavam felizes porque ela estaria com eles. A mãe preparou o almoço e a sobremesa que mais gostava: pudim de leite condensado. Não havia quem fizesse melhor. Quando colocou o primeiro pedaço na boca, sentiu o gosto de infância. Lembrou das árvores na chácara, das galinhas soltas entrando na cozinha, do balanço de madeira preso nos galhos fortes onde o irmão mais velho a empurrava para-lá-e-para-cá. - Com força! Mais forte! No alto! E os dois riam até que a mãe gritava que parassem, porque poderiam cair. Nunca caíram e nunca paravam. Época boa sem preocupação. Ou perdas. Hoje, o sobrinho e a cunhada moram ali com eles. O irmão se fora muito cedo. Um daqueles caroços que surgem do nada e em pouco tempo domina todo o corpo. Não puderam fazer muita coisa. Quando veio visitá-lo não acreditou ser a mesma pessoa que vira na última vez. Magro, quase sem cabelo, falava devagar e movia-se muito pouco. A única coisa que não mudara: seu sorriso. Quando a viu, mostrou os dentes, abrindo quase toda a boca. Abraçou-o sem apertar demais. Teve medo de machucá-lo. Conversaram, recordaram, e ele falou com orgulho do filho que estava completando dez anos. Apenas murmurou: pena não poder ver meu garoto crescer. Em seguida virou-se novamente com um riso largo e pediu que falasse dela. Queria saber tudo e era melhor que contasse antes que papai chegasse da rua. Não o viu mais depois desse dia. Subiu os degraus de dois em dois como sempre fizera. Abriu a porta do quarto. A mãe, sentada ao lado da cama, segurava a mão do marido enquanto prestava atenção na imagem que aparecia na tela. Ficou observando-os até que a notaram. A mãe levantou-se rápido e a abraçou forte. Aspirou o cheiro que vinha dela. O mesmo. Uma mistura do perfume que sempre usara e um aroma doce vindo de alguma coisa que preparara na cozinha. Gostava e sentia falta daquele cheiro. O pai abriu os braços para que encostasse a cabeça no seu peito. Ouviu um coração que já apresentava cansaço. Avisou que ficaria por três dias e os dois se entreolharam demonstrando alegria. Também ela estava feliz por estar naquela casa. Precisava se sentir acarinhada, mesmo que fosse por eles, que necessitavam ainda mais de carinho. A mãe desceu para aprontar o lanche e ela ficou ouvindo as histórias antigas e já contadas tantas vezes pelo pai. Comentavam sobre cada uma delas como se nunca as houvesse escutado. Ele sorria por sua presença. Ela sorria porque por alguns momentos seus pensamentos a deixaram em paz. Mais tarde, talvez a dominassem outra vez. Mas agora era uma daquelas pequenas felicidades que acontecem ao longo do dia. E não deixaria que acabasse logo. 27/08/2012.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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