E o tempo leva com ele
E o tempo leva com ele.
Cândida
Albernaz
Queria sentar e descansar. Ansiava fugir para
algum lugar onde o nada fosse a única coisa que poderia fazer. Riu de si mesma.
Não havia tal lugar e se houvesse, seria cansativo. O nada remete a ninguém e
ninguém lembra a solidão. Nunca foi boa nisso. Estar sozinha, fazendo companhia
a si mesma. Necessitava de gente como do ar. Amigos costumavam dizer que se
temia a solidão era porque não se sentia feliz. Bobagem. Era feliz do seu
jeito. Com pequenos momentos maravilhosos, que somados ao longo de um dia, lhe
bastavam.
Os pensamentos eram seu maior problema. Estes
costumavam galopar enquanto, com seus passos curtos, tentava controlá-los.
Se estivesse ansiosa ou triste, os danados
ocupavam todo o espaço em sua mente deixando-a ainda mais ansiosa. E triste. Em
dias assim, qualquer sorriso à sua frente era recebido como o maior dos
tesouros.
Olhou a escada e ficou imaginando se teria
coragem de subir. Já o fizera outras vezes, mas agora tudo havia mudado.
Não se recordava daquele vaso com um arvoredo
ao lado da entrada. Mais modificações devem ter sido feitas. Passara muito
tempo.
Lembrou-se que os visitara há quase um ano.
Era dia dos pais e estavam felizes porque ela estaria com eles. A mãe preparou
o almoço e a sobremesa que mais gostava: pudim de leite condensado. Não havia
quem fizesse melhor. Quando colocou o primeiro pedaço na boca, sentiu o gosto
de infância. Lembrou das árvores na chácara, das galinhas soltas entrando na
cozinha, do balanço de madeira preso nos galhos fortes onde o irmão mais velho
a empurrava para-lá-e-para-cá.
- Com força! Mais forte! No alto!
E os dois riam até que a mãe gritava que
parassem, porque poderiam cair. Nunca caíram e nunca paravam.
Época boa sem preocupação. Ou perdas.
Hoje, o sobrinho e a cunhada moram ali com
eles. O irmão se fora muito cedo. Um daqueles caroços que surgem do nada e em
pouco tempo domina todo o corpo. Não puderam fazer muita coisa.
Quando veio visitá-lo não acreditou ser a
mesma pessoa que vira na última vez. Magro, quase sem cabelo, falava devagar e
movia-se muito pouco. A única coisa que não mudara: seu sorriso. Quando a viu,
mostrou os dentes, abrindo quase toda a boca. Abraçou-o sem apertar demais.
Teve medo de machucá-lo. Conversaram, recordaram, e ele falou com orgulho do filho
que estava completando dez anos.
Apenas murmurou: pena não poder ver meu
garoto crescer. Em seguida virou-se novamente com um riso largo e pediu que
falasse dela. Queria saber tudo e era melhor que contasse antes que papai
chegasse da rua.
Não o viu mais depois desse dia.
Subiu os degraus de dois em dois como sempre
fizera.
Abriu a porta do quarto. A mãe, sentada ao
lado da cama, segurava a mão do marido enquanto prestava atenção na imagem que
aparecia na tela. Ficou observando-os até que a notaram. A mãe levantou-se
rápido e a abraçou forte. Aspirou o cheiro que vinha dela. O mesmo. Uma mistura
do perfume que sempre usara e um aroma doce vindo de alguma coisa que preparara
na cozinha. Gostava e sentia falta daquele cheiro. O pai abriu os braços para
que encostasse a cabeça no seu peito. Ouviu um coração que já apresentava
cansaço.
Avisou que ficaria por três dias e os dois se
entreolharam demonstrando alegria. Também ela estava feliz por estar naquela
casa.
Precisava se sentir acarinhada, mesmo que fosse
por eles, que necessitavam ainda mais de carinho.
A mãe desceu para aprontar o lanche e ela
ficou ouvindo as histórias antigas e já contadas tantas vezes pelo pai.
Comentavam sobre cada uma delas como se nunca as houvesse escutado. Ele sorria
por sua presença. Ela sorria porque por alguns momentos seus pensamentos a
deixaram em paz. Mais
tarde, talvez a dominassem outra vez. Mas agora era uma daquelas pequenas
felicidades que acontecem ao longo do dia. E não deixaria que acabasse logo.
27/08/2012.