Frases nem tão soltas VI
21/01/2017 | 18h49
Frases nem tão soltas VI Cândida Albernaz Vivo um dia após o outro porque se tento fazer diferente, me atropelo. Ou sou atropelada. * Caminho com os pés levemente pousados no chão, se piso forte, o peso que carrego no peito certamente me fará afundar. * Hoje as palavras estão assim, saltando a minha frente; sem que eu consiga pegar nenhuma delas para colocar no papel. * Alguns sonhos quero que permaneçam sonhos. Permitindo que se transformem em realidade, ficam independentes e os perco no mundo. * Uns fazem poesia com imagens, eu tento fazer o mesmo com palavras. * Não venha me falar o que não quero ouvir. Explicação demais cansa. * Muitas vezes peço que meus pensamentos se calem, mas parecem fazer questão de fingir não ouvir. * Não gosto de dúvidas. Qualquer dúvida em minha mente transforma-se em um gigantesco dragão que faz meu peito queimar. * Em alguns momentos bate uma ventania interna quebrando o sentir em pequenas partes e fazendo cacos voarem sem rumo espalhando pedaços que não se colam mais. * E quando nos olhamos somos únicos. Sem medo não desviamos esse olhar. * Hoje estou entardecer. * Quero que me balance bem forte, para que eu possa ir tão alto que toque as nuvens. Preciso ter certeza de que são feitas de algodão. * A maioria de nós conhece ou conheceu o mais ou menos. Não vale a pena. Ou é tudo, ou é nada. * Às vezes a única coisa que consigo sentir é cansaço na alma. Ah! E gastura do mundo. * Só preciso chorar minha solidão. Uma solidão muitas vezes inventada. Mas se a invento, creio nela. * Encoste minha cabeça em seu peito, me afague os cabelos, faça com que seus braços me apertem o corpo. Quero me sentir em casa. * Estou aprendendo a lidar com meus medos. Faço isto desde que me entendo. A impressão que tenho é de que nunca conseguirei. * Sabe por qual porta quero passar? Na que me concede a liberdade de seguir em frente. * Traz-me calor, porque tenho fome de viver. 24/07/2013  
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Tenho pena
21/01/2017 | 18h49
Em casa cortaram a luz. O imprestável do meu marido não pagou a conta. Dei o dinheiro na mão dele. Bebeu todo, é claro. As crianças sozinhas sentadas na varanda porque ele saiu com uns amigos “pra resolver uns probleminhas”. Ainda bem que você passou por aqui. Tô ficando cansada dessa vida. Trabalho feito uma condenada e não vejo resultado. Esse que mora comigo, está desempregado há seis meses. Seis. E eu sustentando a casa e os vícios dele. Não venha repetir que a escolha foi minha, que fui avisada, que já bebia quando nos conhecemos e era mulherengo. Mas como eu podia resistir àqueles olhos verdes e àquele corpo, que minha nossa senhora!, coisa mais perfeita. Morriam de inveja, fala a verdade. Todas! Quando engravidei da Julinha e ele casou comigo, deixou muita mulher chorando pela redondeza. Inclusive você. Pensa que não sei? E não se faça de boba porque foi ele mesmo quem contou. No dia do nosso casamento você foi atrás pedindo para não casar, porque gostava dele e faria o que quisesse. Riu de você, não foi? Minha madrinha! Escolhi você para madrinha e quando veio me abraçar, chorava tanto, pensei que fosse por mim, por amizade. Que nada! Estava era se roendo por dentro porque foi desprezada. Posso falar uma coisa? Hoje até agradeceria se ele tivesse ficado com você. Porque aquele lá se transformou em um traste. Presta para nada não. Nem na cama posso contar com ele. Bebe tanto e tem tanta mulher que chega à casa: nada! E a barriga? O inchaço embaixo dos olhos? Serve não, amiga. Você ainda quer? Pode levar que não estou aguentando mais. Não me olhe com essa carinha de espanto. Tô brincando. Passado é passado e sei que você me respeita. Vou dizer uma coisa, qualquer dia boto ele para fora. Já dormiu na varanda, no chão da sala, e na casa de algumas vagabundas que encontrou pela rua. Sabe por que ainda não fiz isso? Tenho pena. Pena de quê? Sei lá, coisa de mulher, de instinto maternal... Por falar nisso, com a mãe que teve, só podia ficar desse jeito. Aquela não cuidava dos filhos, botava homem na frente do marido, e dizem que batia nele. Homem forte daquele... Difícil acreditar. Mas o povo fala. Obrigada por você ficar com as crianças enquanto eu não chegava. Tudo escuro e os dois sozinhos. Nem bom pai ele é. Não vai agora não, estou sem sono. Fica mais um pouco, estou precisando mesmo que alguém me escute. E aquele sujeito com quem você estava saindo? Colocou para correr? Fez bem amiga. Depois que me contou que ele meteu a mão em você, era o que devia ter feito. Porque homem é bicho folgado. A gente perdoa e eles pensam que somos bobas e fazem tudo de novo. Não vê o meu caso? Decidi que ele está com os dias contados. Cansei de verdade. Você vai ver só. Não me olhe desse jeito. Estou esperando ele arrumar um emprego, porque não tenho coragem de botar o pai de meus filhos na rua, sem ter nem para comer. Tá rindo de mim? Tenho compaixão, sabe o que é isso? Acho que está na hora de você ir, porque vamos acabar brigando. Olha só quem está chegando! Nossa, quase enfiou a cara no portão. Vai, vai logo que tenho que colocar ele embaixo do chuveiro. Na minha cama fedendo desse jeito é que não vai dormir. É, vou dar comida a ele sim. Quer que deixe morrer de fome? E pare de rir. Vai ser a última vez...
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Era ela ou eu
21/01/2017 | 18h49
  Era ela ou eu Cândida Albernaz   Saí cedo como sempre, mas hoje estou me sentindo cansado. Ontem à noite enquanto comia a canjiquinha que mãe preparou, fiquei matutando sobre o que ia fazer. Ela parecia que estava adivinhando. Me encheu de perguntas sobre meus amigos, sobre quando eu ia voltar a estudar, quem não estuda não tem futuro, sobre o trabalho na obra da creche de dona Lurdes. Foi mãe quem arrumou. Falou com a patroa que eu estava precisando de emprego. Até posso imaginar: - Tenho que arranjar alguma coisa para o meu filho fazer. Sabe como é dona Ana, rapaz de dezesseis anos tem que ter o tempo ocupado, senão... Pois é, o problema é esse senão. Na obra conheci o Jurandir, ajudante de pedreiro, cheio de história para contar. Foi ele quem me deu a idéia. Tenho uns amigos que não são fáceis, arrombam um carro aqui, levam uma carteira ali, mas não passam disso. Até já participei de alguns desses servicinhos com eles, mas nada violento. O Jurandir, não. Esse contou que já matou dois e assalta armado. Cumpriu pena por uns tempos, mas não se emendou. Só diz que se for para ser preso de novo, prefere morrer. Falou que lá dentro é uma merda e que a gente se arrepende de ter nascido. Nunca me meti com arma. Não digo para ninguém, mas tenho medo. Minha mãe conta que meu pai, que não conheci, morreu com um tiro nas costas. Numa briga de bar, ele bateu num sujeito porque tinha mexido com ela. Arrebentou com a cara do outro e o expulsou dali. O covarde voltou meia hora depois e antes que pudessem avisar a meu pai, disparou um tiro nas costas dele. Ainda foi para o hospital com vida, mas lá acabou morrendo. Os médicos disseram que se vivesse ficaria aleijado. Acho que foi melhor assim. Minha mãe casou de novo e teve mais dois filhos. Não morro de amores pelo marido dela, sujeito grosso, mal-educado, que só fala gritando. Se eu não morasse com eles, já tinha enfiado a mão na minha mãe. Mas como não é besta nem nada, fica na dele porque se encostar um dedo nela, como ele vivo. O tipo tem a metade da minha altura. Só a mãe mesmo para ficar com um nanico desses. Mas se gosta, eu respeito. Combinei de encontrar com Jurandir depois do serviço. Vamos acertar tudo. Ele me garantiu que é seguro e eu tô cansado dessa vida que levo. Preciso de uma grana extra.   *                          *                          * Abri a porta com facilidade, está tudo escuro e tô rezando para não tropeçar em nada. Conheço a casa porque já estive aqui duas vezes. Soube que ela guarda as jóias numa mesinha dentro de uma gaveta com fundo falso. Sei bem onde é, porque quando ela viajou há alguns meses atrás vim com mãe e enquanto ela fazia a limpeza da casa, eu aproveitava para conhecer a área. Nunca se sabe quando se vai precisar de um extra. Jurandir está comigo. Se der tudo certo, vai ser rápido. Dona Ana está dormindo, porque costuma deitar cedo. Ela só não pode me ver, me conhece. Entrei no quarto bem devagar. Que mulher para roncar! Nem se mexeu. Abri a gaveta e peguei as jóias. Parecia ter menos do que eu me lembrava. Quando desci, Jurandir estava pegando o dvd: sempre quis ter um. Abri a porta na mesma hora em que a luz acendeu. Olhei para dona Ana e ela olhou para mim. Me reconheceu, percebi. Jurandir correu até a escada e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, enfiou a faca na barriga da dona, tirou e enfiou de novo. Ela não desgrudou os olhos de mim. Não queria isso, mas ainda bem que ele estava ali, eu não teria coragem e acabaria preso. Ela ainda se mexia quando ele deu a terceira facada. Fiquei com pena de dona Ana, mas era ela ou eu. Tenho que ser rápido e colocar a chave da casa na bolsa de mãe, antes que ela acorde. Da próxima vez serei mais cuidadoso.
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Conversê de quem já se foi
21/01/2017 | 18h49
Conversê de quem já se foi Cândida Albernaz Sou defunto sim, e enquanto defunto for, faço minhas exigências, porque não estou aqui para satisfazer vontades depois de morto. Aliás, não sei o que este camarada está fazendo neste lugar. Nunca gostei dele. Sujeito folgado me deve (devia!) uma grana. Agora que fui dessa para melhor, o que ainda estou duvidando que seja, acredita que vai entregar o dinheiro para Marivalda, minha mulher? Vai nada. Olha só como se encosta. Está pensando que porque estou morto, não vejo o que faz. Acaba de roçar a mão na bunda da minha senhora. Se aproveitando que a sala está cheia. Velório prestigiado, esse meu. Também, sempre fui amigo dos amigos e possuo (possuia!) um monte deles. Olha só o Joseyr ali tentando disfarçar uma lágrima que acabei de ver escorrendo no rosto. Ele tem (tinha!) uma queda por essa pessoa que vos fala. Um cara delicado, sensível, meu amigo de fé. Faz (fazia!) qualquer coisa por mim. Macho feito um danado quando era para defender a amizade. E bate bem. O povo se deixa enganar com aquele jeitão um pouco feminino. Provoca para ver do que ele é capaz. Ih! O filho da mãe acabou de passar a mão no cabelo da Marivalda e parou no pescoço fazendo carinho com as pontas dos dedos. Olha que me levanto daqui e quebro aquele nariz de turco safado. Vejam quem está no canto tentando ficar despercebida. Sabia que não deixaria de vir. Gamada por mim. Modéstia a parte, vou deixar saudades em umas e outras. Tenho uma conversa boa, e a pegada então... Melhor permitir que elas mesmas falem. Sou homem, mas não sou desses que gosta de se vangloriar. Segredo é a alma do negócio. E depois, tem a Marivalda, se desconfia de algo, me larga (largava!) na hora. Mulher brava que só ela. Mesmo assim, dei minhas escapadas porque não sou de ferro. De qualquer forma, é preferível que essa aí vá embora logo. Já pensou se alguém percebe o chororô? Vai, anda logo, não quero fazer minha mulher sofrer de desgosto. Poderiam colocar um pouco de música. Desanimado isso aqui. Serviria também para distrair durante minha passagem. Nem quero pensar nessa gente toda que não verei mais. E as peladas de sábado? O churrasco nos domingos? Ei! Para com isso, porque quem está ficando com vontade de chorar sou eu. Morto chora? Já imaginou a cara deles se de repente começo a chorar? Saem todos correndo. Todos não. O Virgílio fica. Esse adora mexer com os mortos. Diz que conversa, recebe conselhos e até dica para o jogo do bicho. Ganhou duas vezes. O pessoal aqui da área bota a maior fé no que ele diz. Marivalda é bem capaz de pedir a ele para falar comigo. Será que isso dá certo? Agora vou poder saber se ele fala a verdade ou inventa essa conversação toda com os espíritos. Tomara que seja à vera. Olha o moleque roçando o quadril na Marivalda. Ela está quietinha. Será que está gostando? Cara, preciso levantar daqui e dar um soco nesse abusado. Droga! Logo agora vieram com a tampa do caixão. Mas deixa estar que esse aí vou pegar é de madrugada. Ficará tão assustado que vai sujar as calças. Agora fico quietinho, porque todo mundo já foi embora. Pior é que está batendo uma saudade da Marivalda... Espero que ela não demore muita para pedir ajuda ao Virgílio. 30/06/13
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Voltamos ao ponto de partida
21/01/2017 | 18h49
Voltamos ao ponto de partida Cândida Albernaz - Não vem que não tem. - Como assim, minha gata? - Ih... Quando me chama desse jeito é porque tem algum rolo. - Que rolo que nada. Só quero que se arrume para sairmos. - Você nem gosta de sair. Prefere ficar em casa vendo futebol. Agora então que tem um canal exclusivo para esse jogo... - Preferia que gostasse de outros jogos? Ou outros vícios, talvez? - Depende do vício. - Não fale bobagem. Seu irmão foi internado mais uma vez. Bateu na mãe, na mulher, na empregada. - Não mete minha família na nossa conversa. Ele é um pobre coitado que não consegue deixar as drogas. - Um coitadinho que só não vendeu a mulher porque ela tem vontade própria. O resto que tinha em casa, “já era”. - Já pedi para largar meu irmão em paz. Ou quer discutir sobre sua irmã que não sai sem uma garrafinha na bolsa? E olha o tamanho da bolsa dela! - Não era para falar de seu irmão ou minha irmã. Você começou dizendo que preferia que eu tivesse algum vício. - É verdade, mas o que pensei foi que você bem podia ter o hábito mais frequente de querer me levar para a cama. - Agora mais essa. Está reclamando que não faço amorzinho com você o suficiente? - Podia me procurar mais vezes. - Vive cansada. Gosta de dormir cedo. - Claro. Aviso que vou me deitar. Tomo um banho, fico cheirosa e você não aparece. Esse maldito jogo! - Nunca falou que era isso o que queria. Sempre pensei que estivesse indo dormir mesmo. - Faria alguma diferença? - ... - Se eu falasse o que queria, por acaso desligaria a televisão e viria na mesma hora? - Por que tem que ser na mesma hora? Você não pode ver o jogo comigo e depois deitarmos juntos? - Odeio futebol! - Então pronto! A culpa não é minha, não sabe ser companheira e agora reclama. - Cuido de nossa casa, procuro fazer com que suas roupas estejam impecáveis, quando chega a casa reclamando do trabalho ouço bem quieta até que desabafe tudo, deixo o jornal em cima da poltrona onde gosta de sentar para ler todas as manhãs e não sou companheira? - Olha só... - Tem razão, o que sou mesmo é sua empregada. A partir de agora as coisas vão mudar. - Não é bem assim. - Não, é pior. - Ah, é? Quer reclamar? E todas as vezes que chego com um determinado doce que sei que adora e nem olha, me mandando colocar em cima da pia? - Um doce... - E quando seu irmão ficou internado e paguei a clínica? Acha que fiz por ele? Um sujeito que não reconhece nada que se faz? Sabe muito bem que ninguém tinha como pagar. Fiz por você. - E te agradeci. - Eu sei, e não estaria falando nisso se você não estivesse vindo com mesquinharias. - Desculpe. - Desculpe também. - Por que foi mesmo que começamos a discutir? - Te convidei para sair. - E me chamou de minha gata. - Sabe que dia é hoje? - Hoje é... Nosso aniversário de casamento! Como posso ter esquecido? - Vinte anos. - Meu amor, o tempo passa rápido. - Viu, minha gata. Sempre te chamei assim. - Mas parou há alguns anos. - Pois vou recomeçar. Minha gata, vai se arrumar porque hoje vou fazer todas as suas vontades. - Todas? - Resolvi que vou fazer tudo o que quiser. - Está dizendo com isso que é uma obrigação e que não quer o que quero? - Como assim? - Se diz que quer me satisfazer, não é o que quer também? - Ah, não. De novo. Não vamos recomeçar.
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Deixa acontecer
21/01/2017 | 18h49
Deixa acontecer Cãndida Albernaz Cabelos negros, olhos cor de mel, o ar petulante de quem ainda é jovem e pensa que o mundo se move por ele. A pequena exigência de ocupar o lugar ao seu lado como se fosse um direito dele estar ali. Não em qualquer outra cadeira desocupada durante o lanche no refeitório. Isso provocava nela um sorriso que só sairia de seus lábios depois que o sono chegasse. Essa demonstração de pequeno macho que assume postura de comando, mesmo que numa quase brincadeira, a atraía. Não importava qualquer diferença que possuíssem. Eram homem e mulher, domínio e submissão por puro prazer. Meias palavras, meios olhares, toques rápidos entre mãos e ombros, acendiam nela uma sensação a que se obrigara a desistir por algum tempo. Não precisava concretizar, não por enquanto. E se começasse a doer, como já fizera tantas outras vezes, fugiria. A não ser que ele a puxasse para si com os mesmos gestos e olhos exigentes com que a tratava no hospital. Era residente, em breve seria substituído por outro que não teria a mesma pele morena, o cheiro de suor masculino no final do dia, e o ar de garoto-homem-moleque que o acompanhava. Ela chegara cedo, como sempre. Não gostava de atrasos. Estacionou, ficando ainda dentro do carro por um tempo esperando que terminasse a música que ouvia. A medicina era sua paixão. Não vivera sempre na cidade. Viera do interior de Minas onde os pais, pessoas humildes, continuavam a morar. Quatro irmãos e apenas ela saíra da terra em busca de estudos. Uma prima de sua mãe trabalhava em casa de família e precisavam de babá. Trocou o trabalho por escola e alguns poucos trocados. Sempre fora inteligente e com a ajuda dos patrões e uma bolsa de estudo conseguiu concluir a faculdade. Devia muito a essa família. Hoje estava casada, com um filho crescido e um marido nem sempre presente “se fico longe tanto tempo é por vocês. Para que tenham conforto. Se trabalho tanto é para vocês”. A ladainha com a qual até hoje não se acostumara, era repetida com maior frequência do que gostaria de ouvir. A ausência do marido no crescimento do único filho que possuíam ou na relação dos dois, também era maior do que pretendera ter para si. Aquele homem não mais tão jovem e completamente absorvido com seus próprios desejos não a satisfazia. Não pensaria mais nisso. Não agora. O serviço estava intenso. Solicitavam-na a todo o momento. Hoje era seu dia na emergência e não parava de chegar pacientes precisando de ajuda. Não havia tempo de pensar em seus problemas. Ali, tudo era de proporção muito maior. Ao terminar, já noite, exausta, mal se despediu dos colegas e foi para o estacionamento. Ao lado do carro, parado e olhando-a fixamente, ele resolveu: abra a porta, vou com você. Nem cogitou dizer não. Sentou-se ao volante, retirando alguns livros que estavam ocupando o banco do carona para que ele se acomodasse. Ligou o rádio como sempre fazia e virou-se para ele. Não pense em nada. Guio você. Aproximou seu rosto e a beijou. Um beijo sem pressa alguma. Vamos. Se fosse preciso ela se adaptaria à sua ausência mais tarde, da mesma forma que se acostumava com sua presença.
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Frases nem tão soltas V
21/01/2017 | 18h49
Frases nem tão soltas V Cândida Albernaz Preciso me buscar, para que estando sozinha não sinta a solidão. * Quero vôos esporádicos, e quando estiver lá em cima, cuidarei para que não quebre as asas e assim caia uma queda sem fim. * É quando me calo que tento dizer tudo o que quero. Ouça através dos meus olhos. * Não faço outra coisa senão viver cada dia de todos os dias. Sem deixar nada passar. Porque é preciso. Porque eu preciso. * Anseio por serenidade como quem precisa de ar. * Viu-me passar e não falou? Sem problemas, às vezes também estou assim; cansada de quem cansou de mim. * Para que tão sensível? Isso dói. * É doloroso se permitir ficar em pedaços. Cada vez que tentamos colar os cacos, algo mesmo que pequeno fica pelo caminho. * E se não somos um pouco loucos, não sentimos com intensidade. * O que machuca é esperar o que não vem. O que machuca é esperar de quem não tem. * Algumas vezes precisamos de um abraço forte para que o frio da alma se vá. Algumas vezes nem mesmo um abraço forte aquece esse gelo da alma. * Não gosto de me rasgar. Nunca soube costurar. * Não sei esconder o que sinto. Implodo se tentar. * Se não conseguimos correr riscos, nos paralisamos num mundo interno que não nos deixa viver. O medo de sofrer já é sofrer. * Algumas pessoas sopram apenas para ter a oportunidade de morder de novo. * Muitas vezes é na agressividade que escondo do outro o que mais me assusta e deixa exposta. * Quanto mais forte parecer, mais frágil estarei me sentindo. * Onde te encontro senão em mim? *
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Terra dividida
21/01/2017 | 18h49
Terra Dividida Cândida Albernaz - Ô cara, vê se me erra. Deu pra ficar atrás de mim... - Você sabe o motivo. - Sei, e não quero falar sobre esse assunto. - Isso ainda vai acabar mal. - Vai acabar mal pra eles, que já tô de saco cheio. Virou as costas para o outro e saiu andando a resmungar. Desceu a ladeira até a lanchonete, que ainda estava fechada. Perdeu a hora por causa da conversa com o amigo, que o pegara na saída de casa. Costumava abrir bem cedo, pois tinha fregueses que gostavam de tomar o cafezinho em pé, no balcão. O pão, que esquentava na chapa na hora, comprara no caminho. Levantou a porta de aço, enquanto cumprimentava Maria, sua ajudante, que estava esperando. - Atrasou hoje, seu Jamil. Não respondeu, apenas acenou com a cabeça e sorriu. Tinha fama de brincalhão, gostava de rir com os fregueses e contar piadas também. Alguns chegavam, escolhiam “pão com manteiga e queijo minas, por favor” e liam o jornal que já traziam embaixo do braço, outros queriam “um cafezinho, estou com pressa” e tomavam o mais rápido que podiam, soprando o líquido quente para que não queimassem a boca. E tinha aqueles que sempre pediam que contasse uma piada nova. Atendia a todos da mesma forma, com um sorriso de fora a fora. Hoje estava diferente, não queria conversa. O amigo tirara sua vontade de rir. Sabia que tinha que resolver esse assunto logo. Era uma pendenga que vinha de anos. Sua família e a do Jacinto, diziam serem donos do mesmo terreno. Na verdade, o primeiro a chegar ali, fora seu pai, que comprou a área do finado Antunes. Depois de uns meses, o pai do Jacinto quis se chegar também, dizendo que o filho do falecido, tinha vendido para ele. Havia ainda uma história de inventário, herança e papéis falsos. Não era letrado e não entendia muito do assunto, mas o pai já morrera por causa disso e não ia entregar nada de mão beijada. Procurou um advogado para cuidar do caso e tentou explicar qual era a situação. Por mais que o doutor falasse, não conseguia entender direito. Só sabia que não ia abrir mão daquele espaço. Fora do pai, era dele e depois deixaria para o filho. Quem sabe ele conseguiria tirar proveito do lugar, porque até agora, só deu aborrecimento ter aquele pedaço de terra. Quando o pai de Jamil apareceu morto, todo mundo sabia quem havia matado e o porquê. Ninguém tinha como provar. Enquanto sua mãe velava o corpo dele com alguns dos seus irmãos, são oito ao todo, o mais velho foi à casa do Jacinto, arrastou o pai dele para fora e quase decepou o pescoço do homem com uma foice. Enquanto o velho estrebuchava jogado no chão, saiu correndo tentando fugir. Não foi longe. A polícia o pegou no meio do mato, ainda com a roupa suja de sangue. Está preso até hoje. O mais novo do Jacinto, que está com dezessete anos, jurou vingança pelo avô e só está esperando o tal sair da cadeia. Às vezes pensa em desistir, que já tem muito sangue nessa terra, mas os irmãos não querem. Soube que Jacinto andou ameaçando um deles. Não gosta de briga, mas também não gosta de ameaça. Outro dia ficou sabendo que seu filho se estranhou com o lado de lá. Não queria que chegasse neles, mas parece que não tem jeito. O menino o ajuda na lanchonete todas as tardes, porque pela manhã, estuda. Já iam fechar, quando viu Jacinto chegando com os dois moleques filhos dele. - Foi esse aí que tentou te pegar na covardia? - Esse mesmo, pai. – o mais alto dos garotos respondia enquanto se encolhia atrás de Jacinto. - O que está havendo? Acho melhor saírem daqui porque já passou da hora de fechar. Olhou para o filho que encarava os outros três com desafio. - Não quero briga. Aqui é meu local de trabalho. Vá embora Jacinto e ensine seus filhos a se defenderem sozinhos. - Como é que é? - Isso mesmo. Só falta a mamãe deles estar aqui também. - Seu filho que é um covarde. Juntou com mais dois pra pegar o meu. - Mentira. Esse palhaço aí foi quem chamou um amigo pra vir atrás de mim. Acabei com eles. – o filho de Jamil sorria enquanto falava, debochando do outro. A reação de Jacinto foi rápida. A faca que trazia na cintura girou no ar e acertou o peito do garoto. Jamil olhou o filho, que de olhos arregalados tombou no chão. Ajoelhou-se e enquanto tentava segurar a cabeça do rapaz, não percebeu que Jacinto atrás dele preparava-se para acertá-lo. Moveu-se na hora e a faca afundou no seu ombro. Virou o corpo e retirando-a, foi para cima de Jacinto cravando em sua barriga. Puxou e enfiou de novo. Os meninos correram para chamar alguém. Voltou-se para seu filho e pegou-o no colo. Tinha que salvá-lo. Cambaleando pediu ajuda. Não era homem de briga e nem queria ficar remoendo aquele assunto do terreno, mas não tinha mais jeito. Não podia voltar atrás.
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Não mudaria de ideia
21/01/2017 | 18h49
Não mudaria de ideia. Cândida Albernaz Tinha certeza de que insistiria. Mais uma vez. E mais uma e ainda outra. Não conhecera antes alguém tão persistente. Algum tempo depois de se conhecerem, ela o convencera a morar juntos.  No dia que enfim se decidiu, ele chegou com uma orquídea e determinou o lugar em que ficaria. Um cantinho da varanda, num pequeno vaso azul claro onde permaneceu por cinco meses. Quando esta não mais resistiu, foi trocada por uma nova orquídea branca e assim sucessivamente. Eram escolhidas para que todas parecessem a mesma. Nunca perguntara a ela o que achava disso, mas agora que pensou, sentiu curiosidade. Não costumava se permitir ser curioso. Aliás, não se permitia muita coisa. Letícia sempre reclamava não possuir leveza. Achava engraçado quando vinha com essas frases de literatura. Tinha que ter leveza Precisava absorver a vida com mais serenidade Devia procurar em si mesmo o que não encontrava no exterior. Bobagens de livros que ele jamais lera. Blábláblá. Pés no chão era seu lema. Foi criado na pancada e exigido que enfrentasse a vida com a boca seca. Não tinha tempo para palavras bonitas. Era mundo enfiado garganta a dentro, rasgando as entranhas. Quando criança apanhava por qualquer motivo. Se a nota na escola fosse menos do que a máxima. Se passasse cinco minutos da hora do banho. Se o seu cachorro sujasse algum lugar da casa. Se não estivesse acordado às seis horas para comprar o pão recém saído do forno e colocado na mesa onde ele, a mãe e o pai tomavam café. E se chorasse quando levava alguma surra, ele batia mais. Porque homem não chora. Isso é coisa de mulherzinha. A sensação que tinha era a de que se respirasse, apanhava. Todas aquelas lições serviram para algo. Conseguira ser alguém na vida, como seu pai gostava de afirmar. Isso, quando ele ainda falava. Não que não pudesse mais, mas desde que sofrera o derrame e quase morrera, ficara com os movimentos restritos e com a fala comprometida. Um pouco enrolada como dizia sua mãe. Desde então se recusara a emitir qualquer som. Às vezes ficava olhando aquele homem ainda de aspecto forte, que escolhera a solidão do calar. Sabia porque ele agia dessa forma. Jamais demonstrar fragilidade. Só admitia se fazer entender através dos olhos e dos gestos. Tinha pena da mãe. Casada com um homem dominador, nem mesmo na velhice conseguiu um companheiro. Sozinha a vida inteira. A via arrastando os pés quando andava pela casa e entendia que era o peso dos dias difíceis que carregava. As forças estavam indo embora. Se havia uma pessoa que o fazia ser gentil, era a mãe. Nem mesmo Letícia, com quem vivia há alguns anos. Ela agora inventou que queria filhos. Um absurdo achar que ia convencê-lo a ter um. Criança é sinônimo de problema, dizia, e ela respondia que criança é sinônimo de alegria. Não se imaginava alegre com alguém chorando, não o deixando dormir à noite, retorquindo sua fala. São peritas em criticar, responder, retrucar, dar problemas aos pais. Não passaria por isso. E também não discutiria mais a respeito. Melhor que se separassem. Saiu de casa há dez dias e enviou uma mensagem hoje avisando que pegaria suas coisas no final da tarde. Preferia que não se encontrassem, mas talvez fosse impossível, certamente ela estaria lá com lágrimas que não o convenceriam, rolando no rosto. Provavelmente em pé no meio da sala pensando impedir que entrasse no quarto para pegar suas roupas. Passaria rente àquela mulher morena de olhos negros, de corpo farto, porque era assim que gostava. Mulher com carnes para pegar. Sentiria falta, mas decidira. A não ser que ela desistisse daquela ideia que o irritava tanto. Não nascera para ser pai. Não nascera para ser filho também. Sua mãe afirmava o contrário. Que ele sempre fora um bom filho procurando protegê-la. Não se via do mesmo jeito. Ela foi embora antes do pai, deixando para ele o ônus de cuidar daquele homem que nunca admirara ou por quem não nutria qualquer sentimento bom. Também o pai já se fora e ele cumpriu seu dever de homem até o fim. E chega. Filho, pai. Não entendia de verdade o significado dessas palavras e estava velho demais para começar a compreendê-las. Hora de ir buscar o que era seu. O apartamento estava escuro; abriu a porta e notou que Letícia não estava na sala. Nem mesmo no quarto. Ou na cozinha. Foi retirando suas camisas do armário e dobrando uma a uma. Na segunda gaveta da cômoda estavam as cuecas, meias e algumas malhas. Deixou tudo separado sobre a cama. Olhou o relógio. Estava no apartamento há duas horas e nada de Letícia. Resolveu colocar água na orquídea. Não era hábito seu. Abriu a pequena adega que estava sobre a pia e retirou um malbec que compraram juntos no mês passado. Estranho beber sozinho ali dentro. Sentou e colocou um dvd. Dez horas. A garrafa estava quase vazia. Ela deve ter visto seu carro lá embaixo e não subiu. Não queria vê-lo. Difícil que ele mudasse de opinião. Homem de uma só palavra. Recostou a cabeça no sofá e imaginou sua mão pegando no cabelo preto e crespo com cheiro de recém lavado. Fechou os olhos e quase pode sentir a boca cheia na sua. Não haveria problema se dormisse um pouco. Não entendia porque ela não estava ali insistindo para que aceitasse o filho que desejava. Talvez não fosse tão ruim. Um. Apenas um. E não adiantaria pedir por outro. 27/05/2013.
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Frases nem tão soltas IV
21/01/2017 | 18h49
Frases nem tão soltas IV Cândida Albernaz Tenho urgência em ser feliz. E é então que me perco. * Com olhos abertos tento ver o que me rodeia sem medo de quedas, já que agora possuo as asas que sempre desenhei na alma. * Quando conhecemos bem o outro, aprendemos a escutar seu silêncio. * Costumamos agir como se fôssemos eternos e não percebemos que o amanhã pode ser nunca mais. * Não se deve ter tanto medo. Nada é pior do que escolher a solidão por medo. * Escrevo, escrevo, escrevo. Penso muito mais do que escrevo. Escrever cansa. Pensar me deixa exausta. * Não sou boa, não sou má. Sou. * Devíamos ser seduzidos todos os dias. Sempre um pouquinho que é para não gastar tudo de uma só vez. * Nunca pense que eu sou forte, qualquer sopro de criança me joga longe. * O melhor e o pior da vida: ela passa. * Estamos sempre entre a fome de viver e o medo da vida. * Minha mãe costumava dizer que o que penso aparece descrito na minha testa. Talvez por isso seja tão franca. Não tenho escolha. * Algumas pessoas pensam que vivem, mas apenas sobrevivem. Viver é enfrentar. * Em minha casa tem que ter cor e alegria. Porque eu preciso. Ah! E tem que ter paz. Muita paz. Para que eu consiga respirar. * Não consigo entender pessoas que não enxergam minha ansiedade e agem como se o tempo não passasse. * Quero não temer a solidão. Consegui isso um dia, mas se perdeu nos medos que a vida me provocou. * Porque só é necessário sentir ao redor do corpo, braços que abraçam com força. * Menos que tudo é muito pouco. 21/05/2013
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Candida Albernaz

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