Conversê de quem já se foi
Conversê de quem já se foi
Cândida Albernaz
Sou defunto sim, e enquanto defunto for, faço minhas exigências, porque não estou aqui para satisfazer vontades depois de morto.
Aliás, não sei o que este camarada está fazendo neste lugar. Nunca gostei dele. Sujeito folgado me deve (devia!) uma grana. Agora que fui dessa para melhor, o que ainda estou duvidando que seja, acredita que vai entregar o dinheiro para Marivalda, minha mulher? Vai nada. Olha só como se encosta. Está pensando que porque estou morto, não vejo o que faz. Acaba de roçar a mão na bunda da minha senhora. Se aproveitando que a sala está cheia.
Velório prestigiado, esse meu. Também, sempre fui amigo dos amigos e possuo (possuia!) um monte deles. Olha só o Joseyr ali tentando disfarçar uma lágrima que acabei de ver escorrendo no rosto. Ele tem (tinha!) uma queda por essa pessoa que vos fala. Um cara delicado, sensível, meu amigo de fé. Faz (fazia!) qualquer coisa por mim. Macho feito um danado quando era para defender a amizade. E bate bem. O povo se deixa enganar com aquele jeitão um pouco feminino. Provoca para ver do que ele é capaz.
Ih! O filho da mãe acabou de passar a mão no cabelo da Marivalda e parou no pescoço fazendo carinho com as pontas dos dedos. Olha que me levanto daqui e quebro aquele nariz de turco safado.
Vejam quem está no canto tentando ficar despercebida. Sabia que não deixaria de vir. Gamada por mim. Modéstia a parte, vou deixar saudades em umas e outras. Tenho uma conversa boa, e a pegada então... Melhor permitir que elas mesmas falem. Sou homem, mas não sou desses que gosta de se vangloriar. Segredo é a alma do negócio. E depois, tem a Marivalda, se desconfia de algo, me larga (largava!) na hora. Mulher brava que só ela. Mesmo assim, dei minhas escapadas porque não sou de ferro. De qualquer forma, é preferível que essa aí vá embora logo. Já pensou se alguém percebe o chororô? Vai, anda logo, não quero fazer minha mulher sofrer de desgosto.
Poderiam colocar um pouco de música. Desanimado isso aqui. Serviria também para distrair durante minha passagem. Nem quero pensar nessa gente toda que não verei mais. E as peladas de sábado? O churrasco nos domingos? Ei! Para com isso, porque quem está ficando com vontade de chorar sou eu. Morto chora? Já imaginou a cara deles se de repente começo a chorar? Saem todos correndo. Todos não. O Virgílio fica. Esse adora mexer com os mortos. Diz que conversa, recebe conselhos e até dica para o jogo do bicho. Ganhou duas vezes. O pessoal aqui da área bota a maior fé no que ele diz.
Marivalda é bem capaz de pedir a ele para falar comigo. Será que isso dá certo? Agora vou poder saber se ele fala a verdade ou inventa essa conversação toda com os espíritos. Tomara que seja à vera.
Olha o moleque roçando o quadril na Marivalda. Ela está quietinha. Será que está gostando? Cara, preciso levantar daqui e dar um soco nesse abusado.
Droga! Logo agora vieram com a tampa do caixão. Mas deixa estar que esse aí vou pegar é de madrugada. Ficará tão assustado que vai sujar as calças.
Agora fico quietinho, porque todo mundo já foi embora.
Pior é que está batendo uma saudade da Marivalda...
Espero que ela não demore muita para pedir ajuda ao Virgílio.
30/06/13