Não mudaria de ideia
Não mudaria de ideia.
Cândida Albernaz
Tinha certeza de que insistiria. Mais uma vez. E mais uma e ainda outra. Não conhecera antes alguém tão persistente.
Algum tempo depois de se conhecerem, ela o convencera a morar juntos. No dia que enfim se decidiu, ele chegou com uma orquídea e determinou o lugar em que ficaria. Um cantinho da varanda, num pequeno vaso azul claro onde permaneceu por cinco meses. Quando esta não mais resistiu, foi trocada por uma nova orquídea branca e assim sucessivamente. Eram escolhidas para que todas parecessem a mesma.
Nunca perguntara a ela o que achava disso, mas agora que pensou, sentiu curiosidade. Não costumava se permitir ser curioso. Aliás, não se permitia muita coisa.
Letícia sempre reclamava não possuir leveza. Achava engraçado quando vinha com essas frases de literatura. Tinha que ter leveza Precisava absorver a vida com mais serenidade Devia procurar em si mesmo o que não encontrava no exterior. Bobagens de livros que ele jamais lera. Blábláblá.
Pés no chão era seu lema. Foi criado na pancada e exigido que enfrentasse a vida com a boca seca. Não tinha tempo para palavras bonitas. Era mundo enfiado garganta a dentro, rasgando as entranhas.
Quando criança apanhava por qualquer motivo. Se a nota na escola fosse menos do que a máxima. Se passasse cinco minutos da hora do banho. Se o seu cachorro sujasse algum lugar da casa. Se não estivesse acordado às seis horas para comprar o pão recém saído do forno e colocado na mesa onde ele, a mãe e o pai tomavam café. E se chorasse quando levava alguma surra, ele batia mais. Porque homem não chora. Isso é coisa de mulherzinha. A sensação que tinha era a de que se respirasse, apanhava.
Todas aquelas lições serviram para algo. Conseguira ser alguém na vida, como seu pai gostava de afirmar. Isso, quando ele ainda falava. Não que não pudesse mais, mas desde que sofrera o derrame e quase morrera, ficara com os movimentos restritos e com a fala comprometida. Um pouco enrolada como dizia sua mãe. Desde então se recusara a emitir qualquer som.
Às vezes ficava olhando aquele homem ainda de aspecto forte, que escolhera a solidão do calar. Sabia porque ele agia dessa forma. Jamais demonstrar fragilidade. Só admitia se fazer entender através dos olhos e dos gestos.
Tinha pena da mãe. Casada com um homem dominador, nem mesmo na velhice conseguiu um companheiro. Sozinha a vida inteira.
A via arrastando os pés quando andava pela casa e entendia que era o peso dos dias difíceis que carregava. As forças estavam indo embora.
Se havia uma pessoa que o fazia ser gentil, era a mãe. Nem mesmo Letícia, com quem vivia há alguns anos.
Ela agora inventou que queria filhos. Um absurdo achar que ia convencê-lo a ter um. Criança é sinônimo de problema, dizia, e ela respondia que criança é sinônimo de alegria. Não se imaginava alegre com alguém chorando, não o deixando dormir à noite, retorquindo sua fala. São peritas em criticar, responder, retrucar, dar problemas aos pais. Não passaria por isso.
E também não discutiria mais a respeito. Melhor que se separassem.
Saiu de casa há dez dias e enviou uma mensagem hoje avisando que pegaria suas coisas no final da tarde. Preferia que não se encontrassem, mas talvez fosse impossível, certamente ela estaria lá com lágrimas que não o convenceriam, rolando no rosto. Provavelmente em pé no meio da sala pensando impedir que entrasse no quarto para pegar suas roupas. Passaria rente àquela mulher morena de olhos negros, de corpo farto, porque era assim que gostava. Mulher com carnes para pegar. Sentiria falta, mas decidira. A não ser que ela desistisse daquela ideia que o irritava tanto. Não nascera para ser pai. Não nascera para ser filho também.
Sua mãe afirmava o contrário. Que ele sempre fora um bom filho procurando protegê-la. Não se via do mesmo jeito. Ela foi embora antes do pai, deixando para ele o ônus de cuidar daquele homem que nunca admirara ou por quem não nutria qualquer sentimento bom.
Também o pai já se fora e ele cumpriu seu dever de homem até o fim. E chega.
Filho, pai. Não entendia de verdade o significado dessas palavras e estava velho demais para começar a compreendê-las.
Hora de ir buscar o que era seu.
O apartamento estava escuro; abriu a porta e notou que Letícia não estava na sala. Nem mesmo no quarto. Ou na cozinha.
Foi retirando suas camisas do armário e dobrando uma a uma. Na segunda gaveta da cômoda estavam as cuecas, meias e algumas malhas. Deixou tudo separado sobre a cama. Olhou o relógio. Estava no apartamento há duas horas e nada de Letícia.
Resolveu colocar água na orquídea. Não era hábito seu.
Abriu a pequena adega que estava sobre a pia e retirou um malbec que compraram juntos no mês passado. Estranho beber sozinho ali dentro.
Sentou e colocou um dvd.
Dez horas. A garrafa estava quase vazia. Ela deve ter visto seu carro lá embaixo e não subiu. Não queria vê-lo.
Difícil que ele mudasse de opinião. Homem de uma só palavra.
Recostou a cabeça no sofá e imaginou sua mão pegando no cabelo preto e crespo com cheiro de recém lavado. Fechou os olhos e quase pode sentir a boca cheia na sua.
Não haveria problema se dormisse um pouco.
Não entendia porque ela não estava ali insistindo para que aceitasse o filho que desejava.
Talvez não fosse tão ruim. Um. Apenas um. E não adiantaria pedir por outro.
27/05/2013.