Voltamos ao ponto de partida
Voltamos ao ponto de partida
Cândida Albernaz
- Não vem que não tem.
- Como assim, minha gata?
- Ih... Quando me chama desse jeito é porque tem algum rolo.
- Que rolo que nada. Só quero que se arrume para sairmos.
- Você nem gosta de sair. Prefere ficar em casa vendo futebol. Agora então que tem um canal exclusivo para esse jogo...
- Preferia que gostasse de outros jogos? Ou outros vícios, talvez?
- Depende do vício.
- Não fale bobagem. Seu irmão foi internado mais uma vez. Bateu na mãe, na mulher, na empregada.
- Não mete minha família na nossa conversa. Ele é um pobre coitado que não consegue deixar as drogas.
- Um coitadinho que só não vendeu a mulher porque ela tem vontade própria. O resto que tinha em casa, “já era”.
- Já pedi para largar meu irmão em paz. Ou quer discutir sobre sua irmã que não sai sem uma garrafinha na bolsa? E olha o tamanho da bolsa dela!
- Não era para falar de seu irmão ou minha irmã. Você começou dizendo que preferia que eu tivesse algum vício.
- É verdade, mas o que pensei foi que você bem podia ter o hábito mais frequente de querer me levar para a cama.
- Agora mais essa. Está reclamando que não faço amorzinho com você o suficiente?
- Podia me procurar mais vezes.
- Vive cansada. Gosta de dormir cedo.
- Claro. Aviso que vou me deitar. Tomo um banho, fico cheirosa e você não aparece. Esse maldito jogo!
- Nunca falou que era isso o que queria. Sempre pensei que estivesse indo dormir mesmo.
- Faria alguma diferença?
- ...
- Se eu falasse o que queria, por acaso desligaria a televisão e viria na mesma hora?
- Por que tem que ser na mesma hora? Você não pode ver o jogo comigo e depois deitarmos juntos?
- Odeio futebol!
- Então pronto! A culpa não é minha, não sabe ser companheira e agora reclama.
- Cuido de nossa casa, procuro fazer com que suas roupas estejam impecáveis, quando chega a casa reclamando do trabalho ouço bem quieta até que desabafe tudo, deixo o jornal em cima da poltrona onde gosta de sentar para ler todas as manhãs e não sou companheira?
- Olha só...
- Tem razão, o que sou mesmo é sua empregada. A partir de agora as coisas vão mudar.
- Não é bem assim.
- Não, é pior.
- Ah, é? Quer reclamar? E todas as vezes que chego com um determinado doce que sei que adora e nem olha, me mandando colocar em cima da pia?
- Um doce...
- E quando seu irmão ficou internado e paguei a clínica? Acha que fiz por ele? Um sujeito que não reconhece nada que se faz? Sabe muito bem que ninguém tinha como pagar. Fiz por você.
- E te agradeci.
- Eu sei, e não estaria falando nisso se você não estivesse vindo com mesquinharias.
- Desculpe.
- Desculpe também.
- Por que foi mesmo que começamos a discutir?
- Te convidei para sair.
- E me chamou de minha gata.
- Sabe que dia é hoje?
- Hoje é... Nosso aniversário de casamento! Como posso ter esquecido?
- Vinte anos.
- Meu amor, o tempo passa rápido.
- Viu, minha gata. Sempre te chamei assim.
- Mas parou há alguns anos.
- Pois vou recomeçar. Minha gata, vai se arrumar porque hoje vou fazer todas as suas vontades.
- Todas?
- Resolvi que vou fazer tudo o que quiser.
- Está dizendo com isso que é uma obrigação e que não quer o que quero?
- Como assim?
- Se diz que quer me satisfazer, não é o que quer também?
- Ah, não. De novo. Não vamos recomeçar.