Voltamos ao ponto de partida
candida 27/06/2013 15:07
Voltamos ao ponto de partida Cândida Albernaz - Não vem que não tem. - Como assim, minha gata? - Ih... Quando me chama desse jeito é porque tem algum rolo. - Que rolo que nada. Só quero que se arrume para sairmos. - Você nem gosta de sair. Prefere ficar em casa vendo futebol. Agora então que tem um canal exclusivo para esse jogo... - Preferia que gostasse de outros jogos? Ou outros vícios, talvez? - Depende do vício. - Não fale bobagem. Seu irmão foi internado mais uma vez. Bateu na mãe, na mulher, na empregada. - Não mete minha família na nossa conversa. Ele é um pobre coitado que não consegue deixar as drogas. - Um coitadinho que só não vendeu a mulher porque ela tem vontade própria. O resto que tinha em casa, “já era”. - Já pedi para largar meu irmão em paz. Ou quer discutir sobre sua irmã que não sai sem uma garrafinha na bolsa? E olha o tamanho da bolsa dela! - Não era para falar de seu irmão ou minha irmã. Você começou dizendo que preferia que eu tivesse algum vício. - É verdade, mas o que pensei foi que você bem podia ter o hábito mais frequente de querer me levar para a cama. - Agora mais essa. Está reclamando que não faço amorzinho com você o suficiente? - Podia me procurar mais vezes. - Vive cansada. Gosta de dormir cedo. - Claro. Aviso que vou me deitar. Tomo um banho, fico cheirosa e você não aparece. Esse maldito jogo! - Nunca falou que era isso o que queria. Sempre pensei que estivesse indo dormir mesmo. - Faria alguma diferença? - ... - Se eu falasse o que queria, por acaso desligaria a televisão e viria na mesma hora? - Por que tem que ser na mesma hora? Você não pode ver o jogo comigo e depois deitarmos juntos? - Odeio futebol! - Então pronto! A culpa não é minha, não sabe ser companheira e agora reclama. - Cuido de nossa casa, procuro fazer com que suas roupas estejam impecáveis, quando chega a casa reclamando do trabalho ouço bem quieta até que desabafe tudo, deixo o jornal em cima da poltrona onde gosta de sentar para ler todas as manhãs e não sou companheira? - Olha só... - Tem razão, o que sou mesmo é sua empregada. A partir de agora as coisas vão mudar. - Não é bem assim. - Não, é pior. - Ah, é? Quer reclamar? E todas as vezes que chego com um determinado doce que sei que adora e nem olha, me mandando colocar em cima da pia? - Um doce... - E quando seu irmão ficou internado e paguei a clínica? Acha que fiz por ele? Um sujeito que não reconhece nada que se faz? Sabe muito bem que ninguém tinha como pagar. Fiz por você. - E te agradeci. - Eu sei, e não estaria falando nisso se você não estivesse vindo com mesquinharias. - Desculpe. - Desculpe também. - Por que foi mesmo que começamos a discutir? - Te convidei para sair. - E me chamou de minha gata. - Sabe que dia é hoje? - Hoje é... Nosso aniversário de casamento! Como posso ter esquecido? - Vinte anos. - Meu amor, o tempo passa rápido. - Viu, minha gata. Sempre te chamei assim. - Mas parou há alguns anos. - Pois vou recomeçar. Minha gata, vai se arrumar porque hoje vou fazer todas as suas vontades. - Todas? - Resolvi que vou fazer tudo o que quiser. - Está dizendo com isso que é uma obrigação e que não quer o que quero? - Como assim? - Se diz que quer me satisfazer, não é o que quer também? - Ah, não. De novo. Não vamos recomeçar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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