Deixa acontecer
candida 20/06/2013 10:56
Deixa acontecer Cãndida Albernaz Cabelos negros, olhos cor de mel, o ar petulante de quem ainda é jovem e pensa que o mundo se move por ele. A pequena exigência de ocupar o lugar ao seu lado como se fosse um direito dele estar ali. Não em qualquer outra cadeira desocupada durante o lanche no refeitório. Isso provocava nela um sorriso que só sairia de seus lábios depois que o sono chegasse. Essa demonstração de pequeno macho que assume postura de comando, mesmo que numa quase brincadeira, a atraía. Não importava qualquer diferença que possuíssem. Eram homem e mulher, domínio e submissão por puro prazer. Meias palavras, meios olhares, toques rápidos entre mãos e ombros, acendiam nela uma sensação a que se obrigara a desistir por algum tempo. Não precisava concretizar, não por enquanto. E se começasse a doer, como já fizera tantas outras vezes, fugiria. A não ser que ele a puxasse para si com os mesmos gestos e olhos exigentes com que a tratava no hospital. Era residente, em breve seria substituído por outro que não teria a mesma pele morena, o cheiro de suor masculino no final do dia, e o ar de garoto-homem-moleque que o acompanhava. Ela chegara cedo, como sempre. Não gostava de atrasos. Estacionou, ficando ainda dentro do carro por um tempo esperando que terminasse a música que ouvia. A medicina era sua paixão. Não vivera sempre na cidade. Viera do interior de Minas onde os pais, pessoas humildes, continuavam a morar. Quatro irmãos e apenas ela saíra da terra em busca de estudos. Uma prima de sua mãe trabalhava em casa de família e precisavam de babá. Trocou o trabalho por escola e alguns poucos trocados. Sempre fora inteligente e com a ajuda dos patrões e uma bolsa de estudo conseguiu concluir a faculdade. Devia muito a essa família. Hoje estava casada, com um filho crescido e um marido nem sempre presente “se fico longe tanto tempo é por vocês. Para que tenham conforto. Se trabalho tanto é para vocês”. A ladainha com a qual até hoje não se acostumara, era repetida com maior frequência do que gostaria de ouvir. A ausência do marido no crescimento do único filho que possuíam ou na relação dos dois, também era maior do que pretendera ter para si. Aquele homem não mais tão jovem e completamente absorvido com seus próprios desejos não a satisfazia. Não pensaria mais nisso. Não agora. O serviço estava intenso. Solicitavam-na a todo o momento. Hoje era seu dia na emergência e não parava de chegar pacientes precisando de ajuda. Não havia tempo de pensar em seus problemas. Ali, tudo era de proporção muito maior. Ao terminar, já noite, exausta, mal se despediu dos colegas e foi para o estacionamento. Ao lado do carro, parado e olhando-a fixamente, ele resolveu: abra a porta, vou com você. Nem cogitou dizer não. Sentou-se ao volante, retirando alguns livros que estavam ocupando o banco do carona para que ele se acomodasse. Ligou o rádio como sempre fazia e virou-se para ele. Não pense em nada. Guio você. Aproximou seu rosto e a beijou. Um beijo sem pressa alguma. Vamos. Se fosse preciso ela se adaptaria à sua ausência mais tarde, da mesma forma que se acostumava com sua presença.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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