Era ela ou eu
Era ela ou eu
Cândida Albernaz
Saí cedo como sempre, mas hoje estou me sentindo cansado. Ontem à noite enquanto comia a canjiquinha que mãe preparou, fiquei matutando sobre o que ia fazer. Ela parecia que estava adivinhando. Me encheu de perguntas sobre meus amigos, sobre quando eu ia voltar a estudar, quem não estuda não tem futuro, sobre o trabalho na obra da creche de dona Lurdes. Foi mãe quem arrumou. Falou com a patroa que eu estava precisando de emprego. Até posso imaginar:
- Tenho que arranjar alguma coisa para o meu filho fazer. Sabe como é dona Ana, rapaz de dezesseis anos tem que ter o tempo ocupado, senão...
Pois é, o problema é esse senão. Na obra conheci o Jurandir, ajudante de pedreiro, cheio de história para contar. Foi ele quem me deu a idéia.
Tenho uns amigos que não são fáceis, arrombam um carro aqui, levam uma carteira ali, mas não passam disso.
Até já participei de alguns desses servicinhos com eles, mas nada violento.
O Jurandir, não. Esse contou que já matou dois e assalta armado. Cumpriu pena por uns tempos, mas não se emendou. Só diz que se for para ser preso de novo, prefere morrer. Falou que lá dentro é uma merda e que a gente se arrepende de ter nascido.
Nunca me meti com arma. Não digo para ninguém, mas tenho medo.
Minha mãe conta que meu pai, que não conheci, morreu com um tiro nas costas. Numa briga de bar, ele bateu num sujeito porque tinha mexido com ela. Arrebentou com a cara do outro e o expulsou dali. O covarde voltou meia hora depois e antes que pudessem avisar a meu pai, disparou um tiro nas costas dele. Ainda foi para o hospital com vida, mas lá acabou morrendo. Os médicos disseram que se vivesse ficaria aleijado. Acho que foi melhor assim.
Minha mãe casou de novo e teve mais dois filhos. Não morro de amores pelo marido dela, sujeito grosso, mal-educado, que só fala gritando. Se eu não morasse com eles, já tinha enfiado a mão na minha mãe. Mas como não é besta nem nada, fica na dele porque se encostar um dedo nela, como ele vivo. O tipo tem a metade da minha altura. Só a mãe mesmo para ficar com um nanico desses. Mas se gosta, eu respeito.
Combinei de encontrar com Jurandir depois do serviço. Vamos acertar tudo. Ele me garantiu que é seguro e eu tô cansado dessa vida que levo. Preciso de uma grana extra.
* * *
Abri a porta com facilidade, está tudo escuro e tô rezando para não tropeçar em nada. Conheço a casa porque já estive aqui duas vezes. Soube que ela guarda as jóias numa mesinha dentro de uma gaveta com fundo falso. Sei bem onde é, porque quando ela viajou há alguns meses atrás vim com mãe e enquanto ela fazia a limpeza da casa, eu aproveitava para conhecer a área. Nunca se sabe quando se vai precisar de um extra.
Jurandir está comigo. Se der tudo certo, vai ser rápido. Dona Ana está dormindo, porque costuma deitar cedo. Ela só não pode me ver, me conhece.
Entrei no quarto bem devagar. Que mulher para roncar! Nem se mexeu. Abri a gaveta e peguei as jóias. Parecia ter menos do que eu me lembrava.
Quando desci, Jurandir estava pegando o dvd: sempre quis ter um.
Abri a porta na mesma hora em que a luz acendeu. Olhei para dona Ana e ela olhou para mim. Me reconheceu, percebi. Jurandir correu até a escada e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, enfiou a faca na barriga da dona, tirou e enfiou de novo. Ela não desgrudou os olhos de mim. Não queria isso, mas ainda bem que ele estava ali, eu não teria coragem e acabaria preso.
Ela ainda se mexia quando ele deu a terceira facada. Fiquei com pena de dona Ana, mas era ela ou eu.
Tenho que ser rápido e colocar a chave da casa na bolsa de mãe, antes que ela acorde.
Da próxima vez serei mais cuidadoso.