Terra dividida
candida 06/06/2013 14:10
Terra Dividida Cândida Albernaz - Ô cara, vê se me erra. Deu pra ficar atrás de mim... - Você sabe o motivo. - Sei, e não quero falar sobre esse assunto. - Isso ainda vai acabar mal. - Vai acabar mal pra eles, que já tô de saco cheio. Virou as costas para o outro e saiu andando a resmungar. Desceu a ladeira até a lanchonete, que ainda estava fechada. Perdeu a hora por causa da conversa com o amigo, que o pegara na saída de casa. Costumava abrir bem cedo, pois tinha fregueses que gostavam de tomar o cafezinho em pé, no balcão. O pão, que esquentava na chapa na hora, comprara no caminho. Levantou a porta de aço, enquanto cumprimentava Maria, sua ajudante, que estava esperando. - Atrasou hoje, seu Jamil. Não respondeu, apenas acenou com a cabeça e sorriu. Tinha fama de brincalhão, gostava de rir com os fregueses e contar piadas também. Alguns chegavam, escolhiam “pão com manteiga e queijo minas, por favor” e liam o jornal que já traziam embaixo do braço, outros queriam “um cafezinho, estou com pressa” e tomavam o mais rápido que podiam, soprando o líquido quente para que não queimassem a boca. E tinha aqueles que sempre pediam que contasse uma piada nova. Atendia a todos da mesma forma, com um sorriso de fora a fora. Hoje estava diferente, não queria conversa. O amigo tirara sua vontade de rir. Sabia que tinha que resolver esse assunto logo. Era uma pendenga que vinha de anos. Sua família e a do Jacinto, diziam serem donos do mesmo terreno. Na verdade, o primeiro a chegar ali, fora seu pai, que comprou a área do finado Antunes. Depois de uns meses, o pai do Jacinto quis se chegar também, dizendo que o filho do falecido, tinha vendido para ele. Havia ainda uma história de inventário, herança e papéis falsos. Não era letrado e não entendia muito do assunto, mas o pai já morrera por causa disso e não ia entregar nada de mão beijada. Procurou um advogado para cuidar do caso e tentou explicar qual era a situação. Por mais que o doutor falasse, não conseguia entender direito. Só sabia que não ia abrir mão daquele espaço. Fora do pai, era dele e depois deixaria para o filho. Quem sabe ele conseguiria tirar proveito do lugar, porque até agora, só deu aborrecimento ter aquele pedaço de terra. Quando o pai de Jamil apareceu morto, todo mundo sabia quem havia matado e o porquê. Ninguém tinha como provar. Enquanto sua mãe velava o corpo dele com alguns dos seus irmãos, são oito ao todo, o mais velho foi à casa do Jacinto, arrastou o pai dele para fora e quase decepou o pescoço do homem com uma foice. Enquanto o velho estrebuchava jogado no chão, saiu correndo tentando fugir. Não foi longe. A polícia o pegou no meio do mato, ainda com a roupa suja de sangue. Está preso até hoje. O mais novo do Jacinto, que está com dezessete anos, jurou vingança pelo avô e só está esperando o tal sair da cadeia. Às vezes pensa em desistir, que já tem muito sangue nessa terra, mas os irmãos não querem. Soube que Jacinto andou ameaçando um deles. Não gosta de briga, mas também não gosta de ameaça. Outro dia ficou sabendo que seu filho se estranhou com o lado de lá. Não queria que chegasse neles, mas parece que não tem jeito. O menino o ajuda na lanchonete todas as tardes, porque pela manhã, estuda. Já iam fechar, quando viu Jacinto chegando com os dois moleques filhos dele. - Foi esse aí que tentou te pegar na covardia? - Esse mesmo, pai. – o mais alto dos garotos respondia enquanto se encolhia atrás de Jacinto. - O que está havendo? Acho melhor saírem daqui porque já passou da hora de fechar. Olhou para o filho que encarava os outros três com desafio. - Não quero briga. Aqui é meu local de trabalho. Vá embora Jacinto e ensine seus filhos a se defenderem sozinhos. - Como é que é? - Isso mesmo. Só falta a mamãe deles estar aqui também. - Seu filho que é um covarde. Juntou com mais dois pra pegar o meu. - Mentira. Esse palhaço aí foi quem chamou um amigo pra vir atrás de mim. Acabei com eles. – o filho de Jamil sorria enquanto falava, debochando do outro. A reação de Jacinto foi rápida. A faca que trazia na cintura girou no ar e acertou o peito do garoto. Jamil olhou o filho, que de olhos arregalados tombou no chão. Ajoelhou-se e enquanto tentava segurar a cabeça do rapaz, não percebeu que Jacinto atrás dele preparava-se para acertá-lo. Moveu-se na hora e a faca afundou no seu ombro. Virou o corpo e retirando-a, foi para cima de Jacinto cravando em sua barriga. Puxou e enfiou de novo. Os meninos correram para chamar alguém. Voltou-se para seu filho e pegou-o no colo. Tinha que salvá-lo. Cambaleando pediu ajuda. Não era homem de briga e nem queria ficar remoendo aquele assunto do terreno, mas não tinha mais jeito. Não podia voltar atrás.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS