Frases nem tão soltas X
21/01/2017 | 18h50
Frases nem tão soltas X       Cândida Albernaz Então eu sorri com os olhos, mas você só conseguiu ver meus lábios lacrados. * Sabe o que me agrada nas flores? Seu colorido e fragilidade. Ou efemeridade. * Em alguns dias retiro minhas asas para que os pés não percam o costume de pisar o chão e saibam enfrentar a dor quando ela chega. * E no ontem usei saia de seda rosa e rodada, que parecia lamber o chão com o movimento do andar, luvas de renda pérola cobrindo o cotovelo e dancei valsas no salão. Ainda acreditava na inocência do sentir e me deixei levar. Não percebi a capa negra que cobria alguns rostos. * A vida me leva por caminhos que penso ter escolhido, mas na verdade a decisão é dela, me guiando em passos que jamais imaginei percorrer. * Só sei sentir à flor da pele. Preciso de escudos que me protejam. Nem sempre há tempo de vesti-los. Então me parto em mil. * Ontem pensei contar carneirinhos para dormir, mas desisti e pedi que me seguissem caso precise aquecer meus sonhos quando o sono chegar. * Às vezes cansada e se cansada estiver posso talvez criar asas e me por a voar. Voarei tão longe que pensará que fui apenas um sonho. Ou pesadelo. * Porque ontem fui criança, ver borboletas me faziam sorrir. Porque hoje sou mulher, ver borboletas me fazem sorrir. * Que o amor para sempre cure. E que por isso dure. * O amanhecer trouxe luzes de um dia de recomeço, de acreditar, de entender que é necessário força para enfrentar. Que tristeza tem dia para acabar, de saber que amigos são para nos dar apoio e que muitos trazem abraço no olhar. Que às vezes o reiniciar mostra que era exatamente o que se precisava para se entender ainda mais forte. * Fujo de quem se diz muito bonzinho. Ninguém é. * E como a pedra diante da luz, posso ser opaca ou brilhar para quase todo o sempre. * Quando uma mulher se entrega a um homem, não é apenas seu corpo que ela está oferecendo. Pequena parte de sua alma está indo junto. * Em alguns dias sinto-me tão frágil que penso vou sumir como poeira. * Não quero me conhecer totalmente. É entediante o conhecimento total, sem possibilidade de descobertas. Surpreendo-me comigo muitas vezes. * Não havendo coragem para ser, finjo que me invento. * Não se deve deixar portas entreabertas, em cada fresta pode passar restos de vida que não interessam mais. 06/05/2014
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Gota a gota
21/01/2017 | 18h50
Gota a gota Cândida Albernaz   "Enquanto dormimos/ a dor que se dissipa/ cai gota a gota sobre nosso coração..." – Ésquilo *                                       *                                 * Pensei que poderia seguir em frente, mas não foi o que aconteceu. Não sei perdoar e não quero. O que fizemos acompanha meu sono e tudo o que vivo. O pior é que não sinto que a culpa seja só sua. O pior é que a sinto muitas vezes como só minha. Infelizmente não vou dar paz a você, pois a dor que carrego é um peso muito grande. Quase não durmo porque no meio do sono meus olhos se abrem e como se fosse dia, se recusam a fechar. São horas e horas pensando, imaginando o que poderia ter sido feito diferente. Se não tivéssemos discutido, se não gritássemos tanto, se o tapa que dei fosse evitado, se não houvesse me traído, se. Pudesse eu voltar atrás. Fingiria que não o vi com Cláudia numa esquina qualquer, sem ter medo que alguém os descobrisse, e o beijo que deram. E os braços dela em seu pescoço e o corpo colado no outro e todo o resto que mesmo não vendo eu enxerguei. Há um ano, quando ela se separou e voltou para nossa cidade com a filha, tentei ajudá-la. Consegui uma vaga para a menina no mesmo colégio de Felipe e cada dia uma de nós levava ou pegava os dois. Pedi que arranjasse algum trabalho para ela. Por coincidência, você precisava admitir um novo funcionário que ajudasse sua secretária. Cinco meses depois, ela saiu de férias enquanto Cláudia a substituía. "Inteligente e esperta, aprende rápido", você me explicou. Não imaginava o quanto. Não percebi de imediato, as mudanças eram sutis. Um olhar aqui, uma carona ali, trabalho até mais tarde por muitas vezes. Tentei afastá-la, mas através de nosso filho se entranhou em nossas vidas como uma planta que se alimenta de outra, tirando dali o sangue para sua sobrevivência. Felipe e a nova amiguinha se adoravam e achava tia Cláudia perfeita. Enquanto eu era a chata que educava, a outra permitia tudo sem que eu soubesse, acobertando minhas negativas. Nós dois tivemos várias discussões e Felipe presenciou a maioria delas. Mas naquele dia, quando nos agredimos de forma mais violenta, ele não suportou. Gritou pedindo que parássemos dizendo que eu mentia. Saiu correndo e o segundo de indecisão que tive olhando para você, foi o suficiente para que não chegasse até ele e evitasse o acidente. Minha reação foi de apatia e incredulidade, mas a cada dia em que a saudade aumenta, o meu ódio por você e aquela mulher me cega. O pior, o que não posso carregar é o que sinto por mim. Ela não tem mais o emprego, exigência minha, a filha ouviu tudo o que não devia e nossa cidade pequena não a acolhe mais como antes. Você permanece preso a mim por um sentimento repulsivo de desprezo que faço questão de demonstrar. Nossa autopunição é continuarmos juntos. Eu vou seguindo em frente com cada gota de ódio engolida dia a dia. Não acredito que possa ser diferente. Não mereço que seja diferente. Nem mesmo quando penso em nosso filho, em seu sorriso, deixo de sentir angústia. Talvez um dia, mas ainda não quero.
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Só entre os dois
21/01/2017 | 18h50
Só entre os dois Cândida Albernaz   - Pai, dessa vez está indo por outra estrada, não é? - Claro que não. Você não viu porque dormia. - Passamos por aquela fazenda cheia de bois? - Hã, hã. - Eu não vi - os olhos encheram-se de água. - Querida, eles também dormiam. Mas quando voltarmos prometo! que estarão lá. Olhei pelo retrovisor e vi que minha menina havia esquecido o assunto. Seus olhos agora buscavam um pássaro branco que passou voando próximo à janela. Minha mulher dormia com a cabeça pendendo cada hora para um lado. A boca entreaberta emitia um ruído baixo, parecido com um gargarejo. Quando acordasse, reclamaria do pescoço dolorido. Sorri. Lembrei-me de quando era criança e do enorme carro que papai dirigia com orgulho. Eu e minhas irmãs íamos sentados no banco atrás  disputando a janela, até que mamãe mandava que os três se calassem. Ela não era uma mulher com muita saúde, o coração vivia pregando susto. Papai tinha cuidados especiais e a tratava como se fosse uma criança. Minha avó, Naninha, dizia “você a mima demais, parece que é ela sua filha”. Costumávamos viajar para o sítio de vovô, onde ela passava a maior parte do tempo dormindo enquanto meu pai saía com a gente para dar milho às galinhas, alimentar os outros bichos e ordenhar as vacas, o que fazia com que ríssemos muito, já que não era uma tarefa fácil e nos atrapalhávamos. O ponto alto ficava por conta do momento de montar os cavalos e disputar, meio devagar é verdade, quem chegava primeiro ao lugar combinado. Estes dias no sítio costumavam ser perfeitos, menos quando Naninha e nossa mãe discutiam. Ela exigia da filha uma disposição que esta dizia não ter. Até ir embora teve dúvidas de que a doença seria uma desculpa para não participar de nada ou se realmente a impedia. Éramos dependentes de papai para quase tudo. Algumas vezes durante aqueles passeios, parávamos sob uma árvore e conversávamos. Ele então explicava que se mamãe não participava de nossas andanças e brincadeiras, era porque não aguentava. Minha irmã certa vez perguntou por que ela nunca nos abraçava e ele falou: “não tenham dúvidas sobre o amor de sua mãe por vocês. E porque os ama imensamente, imagina que não devem se apegar tanto a ela e virem a sofrer. É um jeito torto de pensar, mas é como sabe fazer”. Na época, não entendi aquela história de se apegar e sofrer, mas não perguntei mais nada. Foi no sítio que nos abandonou. Estava muito fraca e a viagem havia se tornado um grande esforço. As confusões dela com a mãe, haviam deixado de acontecer há muito. As duas conversavam e por diversas vezes vi Naninha sair do quarto e ao fechar a porta, colocar a mão na boca para tentar impedir o choro, sem conseguir. As lágrimas corriam soltas. Saía dali assustado, mas logo esquecia o fato quando encontrava minhas irmãs tentando agarrar uma galinha que fugia batendo as asas e cacarejando em desespero. Estávamos almoçando quando papai levantou-se e foi ver se nossa mãe queria comer. Ela não havia se alimentado desde que acordara. Todos ouvimos um chamado abafado e enquanto Naninha nos abraçava, vovô entrou no quarto e soltou um gemido alto, som que nunca esqueci. Continuamos indo para aquele lugar, mas vovô e vovó pareciam ter envelhecido de repente. Hoje sou eu quem cuida dos poucos animais que existem ali. Meus avós não vivem mais e meu pai costuma nos acompanhar nessas pequenas viagens. Não contei a ninguém, mas pouco antes daquele almoço, entrei no quarto de mãe e vi que o rosto dela demonstrava dor. Quando ia sair, para não incomodá-la, ouvi a voz fraca chamando. Aproximei-me da cama e ela pediu que deitasse a seu lado. Disse que estava sujo, mas obedeci. Mamãe abraçou-me com uma força que achei não possuía. Sem olhar para ela, aproveitei aquela chance que não lembrava ter acontecido antes e fechei os olhos ficando nós dois grudados por um longo tempo. Ainda hoje o cheiro dela, misturado ao dos medicamentos que usava me acompanham. Sorrio quando o sinto, porque aquele momento raro foi sua despedida. Só entre nós dois.
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Agora sabia
21/01/2017 | 18h50
Agora sabia Cândida Albernaz Assustou-se quando ouviu a batida na janela do carro. Era um garoto; parecia ter uns dez anos. Pedia que ela abaixasse o vidro. Olhou o sinal e viu que ainda estava vermelho. - Por favor, me dê qualquer coisa. Pegou a bolsa no banco ao lado, retirou uma nota de pouco valor e entregou ao menino. Este abriu os lábios com um riso de dentes pretos e foi para o carro atrás do seu. Não deve ter conseguido nada porque ouviu um palavrão. Aumentou o volume do rádio. Acabara a parte comercial “... minha alma está armada e apontada para a cara do sossego...” esse trecho fez com que franzisse a testa. Falsa paz, apenas o suportar para seguir adiante. Após cada vendaval agia como se não fosse com ela. Só um filme irritante e triste, ao qual assistia da confortável poltrona que desenhara na mente. Então fingia não ter acontecido e plantava um sorriso nos lábios. Era evidente que isso não durava muito. O trabalho exigia que Carlos viajasse. Talvez por isso ainda permanecessem juntos. Aqueles dias eram seus. Com sua música, seu silêncio, seu tempo de não pensar, seu fingir de ser feliz. Nunca encostara a mão nela. Não precisava. O que ele falava, cortava mais fundo que uma lâmina. E desse corte provocado brotava o sangue que apenas ela via. Para estancar todo aquele vermelho escorrendo pelo corpo, somente a sensação de anestesiada que se obrigava a experimentar. Imaginara inúmeras vezes colocar uma fita adesiva na boca de Carlos quando iniciassem os gritos. Que reação teria? Pensa que acabaria chorando e caindo ajoelhado sem o poder da arma que sempre usava e o tornava tão forte. Como ele conseguia encontrar no vocabulário da vida, as palavras que mais feriam? Que capacidade era essa de ser daninho? Recordou todas as vezes em que essa mesma boca usou carinho e sussurro. E ainda usava quando se permitia. Ou quando ela, esperança que era, aceitava ouvir porque precisava sentir. O sinal fechou de novo. Olhou à volta e notou que passara ali há pouco. Dirigia a esmo. O mesmo garoto estava na sua janela pedindo dinheiro. Não pareceu se lembrar quando recebeu a moeda. Ela se percebeu esboçar um sorriso meio torto, é verdade, mas já era alguma coisa. Relaxava. Talvez fosse hora de voltar. Saíra na noite anterior depois de um monólogo formatado em discussão. Parou em um pequeno hotel, mas não dormiu muito. A primeira vez que reagia desse modo. Quando chegasse à casa ele teria ido. Bendito trabalho que exigia sua ausência por tantos dias. No início isso a deixava triste; a saudade costumava doer. Mas isso foi lá atrás. Passou. Abriu a porta e viu que dessa vez só as palavras não bastaram. Parece não ter suportado a não presença dela para escutar todo o vômito de insultos e humilhações. Havia uma cadeira quebrada, os copos e a louça que estavam sobre a mesa de jantar transformaram-se em estilhaços no chão. Sorriu novamente. Estava ficando boa nisso: rir de si mesma. Não limparia aquela sujeira. Durante toda a noite pensou sem saber que atitude tomar. Agora sabia. Pegou uma caixa e as malas que estavam em cima do armário.
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Entrevista para o blog Viva Feliz
21/01/2017 | 18h50
Poesia no seu dia ! – Candida Albernaz Nazareth Queiroz, Posted in Bem Estar, Sem categoria Matéria por: Bruna Tinoco.   Hoje o blog vai inspirar e levar poesia ao dia de vocês! Iremos conhecer um pouco mais sobre a colunista Cândida Albernaz, que me encantou com suas frases e contos! Quando descobriu que escrever poderia ser pra você o oficio e o deleite de trabalhar com a arte? Escrevo desde os quinze anos, mas na época eram poesias e algumas crônicas. Comecei a escrever contos há onze anos e na Folha da Manhã tenho uma coluna semanal (toda quinta feira) desde 08 de dezembro de 2005. Ver um texto meu publicado pela primeira vez me emocionou e realizou e a cada quinta feira quando isso volta a suceder, é como se nunca tivesse acontecido antes. Para mim é um prazer viver tantas vidas no papel.   Conta pra gente! Quais são as suas fontes de inspiração? Inspiro-me no dia a dia, numa frase ouvida aqui, numa expressão de face observada ali, numa história contada por outro, na minha funcionária que está comigo há mais de vinte anos e tem uma vida rica em acontecimentos. Outro dia estive no cemitério e li alguns nomes nos túmulos. Vários deles, diferentes ou fortes, me deram ideias para novas histórias.   Sobre o que mais gosta de escrever? O cotidiano da mulher em geral me interessa muito; sua crença no amor, a capacidade de se multiplicar em mil, o sofrimento de ser alvo de violência e abusos, a sobrevivência num mundo ainda machista… Também e principalmente naqueles que sofrem por não ter a mesma condição financeira de muitos e vivem e riem e dão o próprio sangue para continuar. Enfim no que está ao lado de cada um e por não vivermos aquilo muitas vezes deixamos passar.   Qual o sentimento, quando há o retorno de alguém que leu algo seu, e se identificou? Se você consegue que o leitor se identifique de alguma forma, você se realiza. Não foi em vão.  
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Isca
21/01/2017 | 18h50
Isca Cândida Albernaz Ele foi chegando de mansinho sem fazer ruído algum. Sobressaltou-se quando notou que não estava sozinha. Tão concentrada em pensamentos não percebeu que a noite começara a criar sombras à sua volta. Apesar do arrepio na pele, sorriu para ele. Não tinha certeza se o que experimentava era medo daquele desconhecido ou consolo pelo mesmo ter feito com que parasse de pensar. Ele não retribuiu o sorriso. Apenas acomodou-se no mesmo banco ao seu lado; na ponta dele. A pequena praça estava praticamente vazia. Havia uma ou outra pessoa se dirigindo para a saída. Podia ter se levantado e caminhado para bem longe daquele homem, mas permaneceu ali, fitando o chão e afastando com os pés as folhas que se misturavam à terra. Sentiu a areia entre os dedos que a sandália não escondia e não se incomodou. Unhas pintadas de um branco quase transparente. Não gostava de chamar atenção. Gestos comedidos e o andar calmo, como se o mundo pudesse esperar por ela. O rosto possuía traços delicados, com uma boca pequena e rosada, a pele clara de quem nunca se havia permitido sol no corpo. Os olhos, estes sim eram grandes, negros, curiosos e não havia como escondê-los. Observou que o desconhecido a encarava, mas mantinha-se tranquila. Pensou em puxar assunto, mas ele estava tão sério que não se sentiu à vontade. Sabia que se arriscava. Ou não sabia? Escurecera um pouco mais. Acenderam algumas lâmpadas aqui e ali. Preferia ter permanecido apenas com a luz do céu, onde a lua cheia clareava a noite. Costumava ouvir histórias contadas por sua avó sobre a lua que mexe com os homens, seduz as mulheres, esconde vampiros e descobre lobisomens que sob o manto da mesma, cometem crimes assustadores. Riu pensando que amedrontador na verdade era o que se passava no interior de cada um. Quem pode saber o que o outro traz dentro de si? Fechou os olhos e levantando a cabeça aspirou o ar que agora se tornara frio. Esqueceu-se por instante de que tinha companhia. Afagou a bolsa coberta de pelos que tinha no colo como se fosse a cabeça de uma criança. Pensou ir embora, mas já não tinha forças para fazê-lo. Não era ela quem decidia. Uma pequena dor de cabeça havia iniciado enquanto ouvia vozes tomarem decisões que não eram suas. Abriu os olhos e viu o rosto do homem que agora se postara à sua frente. - Deseja alguma coisa? – a voz que não reconhecia saiu de sua boca. - Estamos sozinhos e sabemos o que queremos. Venha comigo. Levantou-se e o seguiu. Parecia conhecer bem a praça. Dirigiram-se para um quase escondido portão por onde passaram se agachando em meio à folhagem que o cobria parcialmente. Ela também conhecia aquele lugar. - Tire sua roupa. Ela riu. - Do que está rindo? - Tire você a sua. Então ele riu também. - É assim que você gosta? Nu, grudou o corpo no dela e lambeu seu rosto. - É a sua vez. Retirando as mãos das costas, fez um movimento como se fosse abraçá-lo. - Você é esquisita. – falava sorrindo. O estilete entrou e saiu de seu pescoço numa rapidez impressionante. - O que é isso? Levou a mão à nuca que retornou coberta de sangue. - Sua louca... Uma nova pontada no estômago. Com raiva tentou segurá-la. Não houve tempo. A arma voltara para seu pescoço de onde o sangue brotava com força. Ela observou que ele cambaleava e depois de alguns passos, caiu. Pegou uma garrafinha de água de dentro da bolsa e lavou as mãos. Foi até ele e puxou com força a lâmina que ainda permanecia presa ao corpo. Lavou e guardou. Experimentou uma sensação de alívio. Ele não podia saber que não era ela a isca. Retornou pelo mesmo caminho por onde entraram. A calma a invadia. Era preciso sair dali enquanto se sentia assim. Não demoraria para a outra voltar.
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A gente não nasceu para isso
21/01/2017 | 18h50
A gente não nasceu para isso Cândida Albernaz Atrasei dona Marta, mas não foi culpa minha. Lembra que eu falei com a senhora sobre a Zildinha? Pois é, quando cheguei a casa ela estava lá me esperando com a cara toda quebrada. O desgraçado do marido sentou a mão nela outra vez. Aliás, a mão, o cotovelo, os pés, porque chutou um bocado e ainda bateu com a cabeça da pobre na parede. E sei dos detalhes, não porque ela se lembre, mas porque o filho de dez anos assistiu a cena. Esse garoto já viu cada coisa... Lá fui eu ao pronto-socorro. Foi medicada e quando quiseram saber como ela havia se machucado tanto, nem tive tempo de abrir a boca. “Foi um carro que me atropelou e fugiu”. Olhei para a cara dela com ódio. Não aprende, não adianta. Vai para casa e quando estiver com as cicatrizes fechando, leva nova surra. Dá para entender uma coisa dessas? Não, nem precisa responder dona Marta, que eu sei que a senhora concorda comigo. Então ela apanha, fica um tempão com o corpo doído e não coloca o sujeito em cana? Já avisei que não ajudo mais. É meu cunhado, mas queria que fosse preso. Não se faz o que ele fez com ela nem com um bicho, quanto mais na mulher que deu um filho para ele. Precisa ver como cuida da família. Não tem hora nem cansaço para ela. Desculpe dona Marta, eu desabafar assim, mais foi por esse motivo que cheguei tarde hoje, quase não dormi. Quando saímos do hospital já era uma hora da manhã. Insisti para que ficasse comigo, mas não quis. Falou que ele ia estar arrependido e não a machucaria. Ela conhece bem as manhas do filho da mãe que tem em casa. Desculpe pelo palavrão. Eu é que não conheço mais a Zildinha. Era uma mulher tão bonita e de opinião. Agora tá um trapo que dá até pena de olhar. Estou falando demais, não é? A senhora nem pôde falar sobre o que quer para o almoço. Que é isso? Tá chorando? Não fique assim. Eu sei, não está acostumada com esses assuntos, mas é que onde moro acontece cada uma... Só com tempo para contar. A senhora vive longe desse mundo e é melhor assim, que a gente não nasceu para assistir essas coisas. Dona Marta não chore que fico sem graça por ter falado tanto. Ainda bem que seu marido já foi para o trabalho. Podia até ficar zangado comigo por fazer a mulher dele chorar. Que é isso dona Marta? Só agora estou reparando como seu olho está inchado... E essa mancha roxa no braço? Dona Marta a senhora...
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Frases nem tão soltas IX
21/01/2017 | 18h50
Frases nem tão soltas IX Um piscar de olhos e sentia-se bem novamente. Queria colocar para fora o que ardia. Às vezes era assim, pequena-pequena como um grão de areia fina, em outras se reconhecia gigante não cabendo no curto espaço que era o mundo. * Há gestos que parecem pequenos abraços. * Pode ser um pouco, quase nada, pode ser apenas a delicadeza de um sorriso. Pode ser que se ganhe o dia quando vemos no outro, em qualquer outro, carinho no olhar. * E nem pense em me encontrar onde não quero que me ache. Estarei tão dentro de mim que me tornarei invisível. * Algumas vezes coloco a máscara do sou forte para esconder a insegurança escancarada no rosto e na alma. * Como um balanço de rede os pensamentos vêm e vão. Fogem e procuram. Não se acham. * Com os olhos falo o que penso, o que quero, o que não deveria. Com os olhos enxergo o mundo com as cores da minha cartela. * Refresco a língua, a boca, a alma. Quero o doce da vida e se em algum momento ela amargar, eu a reinvento. * Porque o que carrego dentro de mim é só meu. * Muitas vezes o problema não é como o outro fala, mas a forma como você escuta o que ele diz. *   Quero colocar os pés na grama e deixar que o cheiro de mato se misture ao meu. E quando estender a manta embaixo de uma árvore trarei um pouco da infância sentindo o vento da tarde no corpo. Vou querer banana cozida, broa de milho, pão de sal quentinho com muita manteiga e minha mãe servindo a todos com conselhos na ponta da língua e compreensão para entender e confortar o que parecia não ter solução. * Preciso me buscar para que estando sozinha não me sinta só. * E com as tintas da imaginação, porque esta não tem limite, Deus coloriu o mundo. * Não sei chegar de mansinho com meus sentimentos. Se forem bons ou ruins, eles caem no colo do outro como uma bigorna. * Venha assim, através de mim me mostrar caminhos que não vivi. * Sem o sonho somos apenas a metade do que poderíamos ser. 18/03/2014
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O que é bonito é para mostrar
21/01/2017 | 18h50
O que é bonito é para mostrar Cândida Albernaz   - Viu aquela onda? - Não vi onda nenhuma. - Está de mau humor? - Estou ótima. E quero continuar. - Ih... já percebi que acordou azeda. - Não acordei. Fiquei assim agora. - Agora? Por quê? - Vai continuar olhando a onda? - Como assim? Não posso? - Se você estivesse interessado em onda, tudo bem. - O que quer dizer? - Está achando que sou cega? - Começou! - A garota de biquíni enfiado na bunda estaria em frente das malditas ondas? - Que garota, que biquíni, que nada! - O mar nunca te encantou tanto! - Não vim à praia para brigar. - Tenho certeza que não. Veio olhar para qualquer mulherzinha que ande diante de você. - Está exagerando. Só tenho olhos para o meu amorzinho. - Estou vendo. - Vamos comprar uma cervejinha e relaxar. - Está bem. Não quero me aborrecer mesmo. - Nossa! - Eu ouvi. - O quê? - O seu “nossa!” para a morena que passou. - Saiu sem querer. - Sem querer vai ser quando eu começar a virar o meu pescoço e olhar os garotões, esses que não têm a mesma barriguinha sensual que você. - Você não faria isso com o seu maridinho. - Não? - Estou só brincando. E depois, o que é bonito é para olhar. - E eu não sou bonita? - Claro que é meu amor. Mas é só minha! - Sempre me pediu para que usasse maiô e eu, depois de muito blábláblá e de outras tantas discussões, continuei com o biquíni. Apesar de grande demais para o meu gosto. - Você é uma mulher direita, não fica se exi... - De novo? - ...bindo por aí. - Você está falando comigo e olhando a morena outra vez. - ... - Sabe de uma coisa? Você tem razão. A morena é linda, o biquíni dela é mínimo e o que é bonito deve ser olhado. E mostrado. - ... - Ei! Aonde você vai? - Dar um mergulho. - Espera aí! O que você está fazendo? - Fazendo desse duas peças comportado, um fio dental. O que está achando? Gosta? - Não seja ridícula. Não quero mulher minha exposta para qualquer um. - Não se preocupe querido. Me e-xi-bo! somente para você, mas se outros olham... - Não gosto que você... - Amor, se quiser eu mesma vou comprar a nossa cervejinha. Você tem razão, devemos relaxar. Venha, vamos nadar um pouco.    
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Não me meto desde que
21/01/2017 | 18h50
Não me meto desde que Cândida Albernaz Ontem lá em casa foi uma confusão: ninguém se entendia. Tudo culpa de Zé Antônio, o dono do armazém da esquina. Foi se engraçar para o lado de Cinira, o xodó de papai. Somos quatro irmãos e ela, a mais nova. Tem catorze anos e Zé Antônio, vai para mais de quarenta. Papai reclamando: -Só o que faltava esse tipo vir pra cima da menina. Não se enxerga. Quebro ao meio esse safado. Eu olhava para Cinira parada no canto da sala e a cara dela não era tão inocente assim. Qualquer dia desses o pai vai se aborrecer de verdade, porque ela vai arranjar um problema sério. Divirto-me com as confusões de casa, e não dou muita opinião. Não gosto que se metam na minha vida e não me meto na de ninguém. Desde que comecei a botar dinheiro em casa, o pai parou de invocar comigo. Perguntou onde estava trabalhando. -Na oficina do Pedrão. Perguntou o que fazia lá. -Pintura. -Pinta carros? Mas não tem tanto carro assim pra pintar. -O senhor é que pensa. Entendo de motor também. -Desde quando? -Desde sempre. Aprendi na curiosidade. Pedrão está satisfeito com meu serviço. Nunca mais falamos sobre meu trabalho. Quando cheguei a casa com uma televisão nova que dei a  mamãe, ela olhou esquisito. Mas me beijou e agradeceu. Dona Marisa nunca foi boba e não se enganava nem comigo nem com Cinira. Dava lá os seus conselhos, rezava por nós e entregava a Deus quando via que não adiantava falar. Os outros dois irmãos, Célio e Celma, ainda muito crianças, só se preocupavam em brincar. Dona Marisa era magra e miúda enquanto meu pai um homem alto e gordo. Os dois, um ao lado do outro, eram meio engraçados. Não pareciam combinar. A verdade é que ela é quem mandava e ele com aquele tamanhão todo mal entendia o que acontecia à sua volta. Outro dia vi mãe conversando com a filha sobre Edmundo, um chapa meu lá da oficina que não valia nada.  Quando ouvi o nome, entrei na conversa das duas e falei que não queria Cinira de papo com ele. Ela quis saber por que, já que era meu amigo. -Não é amigo, trabalha comigo e não presta. -Se trabalha com você... -Ele gosta mesmo é de emprenhar umas e outras por aí. Muitas vezes, pega as idiotas à força. -Comigo é diferente, porque não sou boba. A discussão continuou e quase dei uns tapas nela para calar a boca. À noite ouvi dona Marisa chorando baixinho. Eu sempre digo que ela vê longe.   *                                 *                                             *   Chegou um carro novo essa noite, Pedrão pediu pressa na limpeza e na pintura. Vi que o banco estava sujo de sangue: não é da minha conta. Limpei tudo e pintei. Levei a madrugada nesse serviço. De manhã entreguei pronto para Pedrão e dei uma última olhada dentro dele. Vi alguma coisa brilhando num canto da mala do carro. Era uma medalhinha dourada, dessas de Nossa Senhora, igual a minha e dos meus irmãos. Dona Marisa deu uma a cada um de nós, que era para dar proteção. Guardei no bolso da calça: não falei nada com ninguém. Quem trouxe o carro para a oficina foi Edmundo, que esse é o serviço dele: meter um carretão. O nosso é modificar o dito cujo. Mamãe estava no portão quando cheguei. Já passava das dez horas da manhã. -Viu Cinira? -Não, mãe. Trabalhei a noite toda. -Ela não voltou pra casa desde ontem. Coloquei a mão no bolso e a medalhinha parecia de fogo. Não falei nada e voltei à oficina. -Cadê Edmundo? -Deixou o carro aqui e disse que tinha umas coisas pra resolver. Fui até a casa dele e não bati na porta. Com um chute, consegui entrar. -Onde está ela? -Ela quem? Tô dormindo e você invade a minha casa desse jeito. -Vi o carro sujo de sangue e achei a medalha no porta malas. O que fez com Cinira? Enquanto falava fui enfiando a faca que trazia, no braço dele. -Se não responder rápido, acabo com você aos poucos. Passei a lâmina no rosto de Edmundo, de onde escorreu um fio de sangue. -Dá um tempo, cara. Não sei se ainda tá lá. Deixei na curva do quilômetro sete, você sabe onde é. Só coloquei na mala do carro pra que ficasse quieta. Não tive culpa, foi ela quem me procurou e se não queria me dar, não devia ter ido atrás de mim. Sei do que essas vadias gostam. -Cale a boca seu filho da puta. Enterrei a faca na barriga dele uma, duas, três,...   *                                             *                                             * Na estrada de chão vi a minha irmã deitada embaixo de uma árvore. Estava suja de sangue e terra. Não me olhou. Peguei seu corpo leve no colo e fui caminhando por dentro do mato, que era para ninguém ver. Com a cabeça no meu ombro, sentia as lágrimas molharem minha blusa. Uma criança minha irmã.  
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Candida Albernaz

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