Só entre os dois
Só entre os dois
Cândida Albernaz
- Pai, dessa vez está indo por outra estrada, não é?
- Claro que não. Você não viu porque dormia.
- Passamos por aquela fazenda cheia de bois?
- Hã, hã.
- Eu não vi - os olhos encheram-se de água.
- Querida, eles também dormiam. Mas quando voltarmos prometo! que estarão lá.
Olhei pelo retrovisor e vi que minha menina havia esquecido o assunto. Seus olhos agora buscavam um pássaro branco que passou voando próximo à janela.
Minha mulher dormia com a cabeça pendendo cada hora para um lado. A boca entreaberta emitia um ruído baixo, parecido com um gargarejo. Quando acordasse, reclamaria do pescoço dolorido. Sorri.
Lembrei-me de quando era criança e do enorme carro que papai dirigia com orgulho. Eu e minhas irmãs íamos sentados no banco atrás disputando a janela, até que mamãe mandava que os três se calassem. Ela não era uma mulher com muita saúde, o coração vivia pregando susto. Papai tinha cuidados especiais e a tratava como se fosse uma criança. Minha avó, Naninha, dizia “você a mima demais, parece que é ela sua filha”.
Costumávamos viajar para o sítio de vovô, onde ela passava a maior parte do tempo dormindo enquanto meu pai saía com a gente para dar milho às galinhas, alimentar os outros bichos e ordenhar as vacas, o que fazia com que ríssemos muito, já que não era uma tarefa fácil e nos atrapalhávamos. O ponto alto ficava por conta do momento de montar os cavalos e disputar, meio devagar é verdade, quem chegava primeiro ao lugar combinado. Estes dias no sítio costumavam ser perfeitos, menos quando Naninha e nossa mãe discutiam. Ela exigia da filha uma disposição que esta dizia não ter. Até ir embora teve dúvidas de que a doença seria uma desculpa para não participar de nada ou se realmente a impedia.
Éramos dependentes de papai para quase tudo. Algumas vezes durante aqueles passeios, parávamos sob uma árvore e conversávamos. Ele então explicava que se mamãe não participava de nossas andanças e brincadeiras, era porque não aguentava.
Minha irmã certa vez perguntou por que ela nunca nos abraçava e ele falou: “não tenham dúvidas sobre o amor de sua mãe por vocês. E porque os ama imensamente, imagina que não devem se apegar tanto a ela e virem a sofrer. É um jeito torto de pensar, mas é como sabe fazer”.
Na época, não entendi aquela história de se apegar e sofrer, mas não perguntei mais nada.
Foi no sítio que nos abandonou. Estava muito fraca e a viagem havia se tornado um grande esforço. As confusões dela com a mãe, haviam deixado de acontecer há muito. As duas conversavam e por diversas vezes vi Naninha sair do quarto e ao fechar a porta, colocar a mão na boca para tentar impedir o choro, sem conseguir. As lágrimas corriam soltas. Saía dali assustado, mas logo esquecia o fato quando encontrava minhas irmãs tentando agarrar uma galinha que fugia batendo as asas e cacarejando em desespero.
Estávamos almoçando quando papai levantou-se e foi ver se nossa mãe queria comer. Ela não havia se alimentado desde que acordara. Todos ouvimos um chamado abafado e enquanto Naninha nos abraçava, vovô entrou no quarto e soltou um gemido alto, som que nunca esqueci.
Continuamos indo para aquele lugar, mas vovô e vovó pareciam ter envelhecido de repente.
Hoje sou eu quem cuida dos poucos animais que existem ali. Meus avós não vivem mais e meu pai costuma nos acompanhar nessas pequenas viagens.
Não contei a ninguém, mas pouco antes daquele almoço, entrei no quarto de mãe e vi que o rosto dela demonstrava dor. Quando ia sair, para não incomodá-la, ouvi a voz fraca chamando. Aproximei-me da cama e ela pediu que deitasse a seu lado. Disse que estava sujo, mas obedeci. Mamãe abraçou-me com uma força que achei não possuía.
Sem olhar para ela, aproveitei aquela chance que não lembrava ter acontecido antes e fechei os olhos ficando nós dois grudados por um longo tempo. Ainda hoje o cheiro dela, misturado ao dos medicamentos que usava me acompanham. Sorrio quando o sinto, porque aquele momento raro foi sua despedida. Só entre nós dois.