Só entre os dois
candida 17/04/2014 21:49
Só entre os dois Cândida Albernaz   - Pai, dessa vez está indo por outra estrada, não é? - Claro que não. Você não viu porque dormia. - Passamos por aquela fazenda cheia de bois? - Hã, hã. - Eu não vi - os olhos encheram-se de água. - Querida, eles também dormiam. Mas quando voltarmos prometo! que estarão lá. Olhei pelo retrovisor e vi que minha menina havia esquecido o assunto. Seus olhos agora buscavam um pássaro branco que passou voando próximo à janela. Minha mulher dormia com a cabeça pendendo cada hora para um lado. A boca entreaberta emitia um ruído baixo, parecido com um gargarejo. Quando acordasse, reclamaria do pescoço dolorido. Sorri. Lembrei-me de quando era criança e do enorme carro que papai dirigia com orgulho. Eu e minhas irmãs íamos sentados no banco atrás  disputando a janela, até que mamãe mandava que os três se calassem. Ela não era uma mulher com muita saúde, o coração vivia pregando susto. Papai tinha cuidados especiais e a tratava como se fosse uma criança. Minha avó, Naninha, dizia “você a mima demais, parece que é ela sua filha”. Costumávamos viajar para o sítio de vovô, onde ela passava a maior parte do tempo dormindo enquanto meu pai saía com a gente para dar milho às galinhas, alimentar os outros bichos e ordenhar as vacas, o que fazia com que ríssemos muito, já que não era uma tarefa fácil e nos atrapalhávamos. O ponto alto ficava por conta do momento de montar os cavalos e disputar, meio devagar é verdade, quem chegava primeiro ao lugar combinado. Estes dias no sítio costumavam ser perfeitos, menos quando Naninha e nossa mãe discutiam. Ela exigia da filha uma disposição que esta dizia não ter. Até ir embora teve dúvidas de que a doença seria uma desculpa para não participar de nada ou se realmente a impedia. Éramos dependentes de papai para quase tudo. Algumas vezes durante aqueles passeios, parávamos sob uma árvore e conversávamos. Ele então explicava que se mamãe não participava de nossas andanças e brincadeiras, era porque não aguentava. Minha irmã certa vez perguntou por que ela nunca nos abraçava e ele falou: “não tenham dúvidas sobre o amor de sua mãe por vocês. E porque os ama imensamente, imagina que não devem se apegar tanto a ela e virem a sofrer. É um jeito torto de pensar, mas é como sabe fazer”. Na época, não entendi aquela história de se apegar e sofrer, mas não perguntei mais nada. Foi no sítio que nos abandonou. Estava muito fraca e a viagem havia se tornado um grande esforço. As confusões dela com a mãe, haviam deixado de acontecer há muito. As duas conversavam e por diversas vezes vi Naninha sair do quarto e ao fechar a porta, colocar a mão na boca para tentar impedir o choro, sem conseguir. As lágrimas corriam soltas. Saía dali assustado, mas logo esquecia o fato quando encontrava minhas irmãs tentando agarrar uma galinha que fugia batendo as asas e cacarejando em desespero. Estávamos almoçando quando papai levantou-se e foi ver se nossa mãe queria comer. Ela não havia se alimentado desde que acordara. Todos ouvimos um chamado abafado e enquanto Naninha nos abraçava, vovô entrou no quarto e soltou um gemido alto, som que nunca esqueci. Continuamos indo para aquele lugar, mas vovô e vovó pareciam ter envelhecido de repente. Hoje sou eu quem cuida dos poucos animais que existem ali. Meus avós não vivem mais e meu pai costuma nos acompanhar nessas pequenas viagens. Não contei a ninguém, mas pouco antes daquele almoço, entrei no quarto de mãe e vi que o rosto dela demonstrava dor. Quando ia sair, para não incomodá-la, ouvi a voz fraca chamando. Aproximei-me da cama e ela pediu que deitasse a seu lado. Disse que estava sujo, mas obedeci. Mamãe abraçou-me com uma força que achei não possuía. Sem olhar para ela, aproveitei aquela chance que não lembrava ter acontecido antes e fechei os olhos ficando nós dois grudados por um longo tempo. Ainda hoje o cheiro dela, misturado ao dos medicamentos que usava me acompanham. Sorrio quando o sinto, porque aquele momento raro foi sua despedida. Só entre nós dois.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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