Gota a gota
candida 24/04/2014 11:23
Gota a gota Cândida Albernaz   "Enquanto dormimos/ a dor que se dissipa/ cai gota a gota sobre nosso coração..." – Ésquilo *                                       *                                 * Pensei que poderia seguir em frente, mas não foi o que aconteceu. Não sei perdoar e não quero. O que fizemos acompanha meu sono e tudo o que vivo. O pior é que não sinto que a culpa seja só sua. O pior é que a sinto muitas vezes como só minha. Infelizmente não vou dar paz a você, pois a dor que carrego é um peso muito grande. Quase não durmo porque no meio do sono meus olhos se abrem e como se fosse dia, se recusam a fechar. São horas e horas pensando, imaginando o que poderia ter sido feito diferente. Se não tivéssemos discutido, se não gritássemos tanto, se o tapa que dei fosse evitado, se não houvesse me traído, se. Pudesse eu voltar atrás. Fingiria que não o vi com Cláudia numa esquina qualquer, sem ter medo que alguém os descobrisse, e o beijo que deram. E os braços dela em seu pescoço e o corpo colado no outro e todo o resto que mesmo não vendo eu enxerguei. Há um ano, quando ela se separou e voltou para nossa cidade com a filha, tentei ajudá-la. Consegui uma vaga para a menina no mesmo colégio de Felipe e cada dia uma de nós levava ou pegava os dois. Pedi que arranjasse algum trabalho para ela. Por coincidência, você precisava admitir um novo funcionário que ajudasse sua secretária. Cinco meses depois, ela saiu de férias enquanto Cláudia a substituía. "Inteligente e esperta, aprende rápido", você me explicou. Não imaginava o quanto. Não percebi de imediato, as mudanças eram sutis. Um olhar aqui, uma carona ali, trabalho até mais tarde por muitas vezes. Tentei afastá-la, mas através de nosso filho se entranhou em nossas vidas como uma planta que se alimenta de outra, tirando dali o sangue para sua sobrevivência. Felipe e a nova amiguinha se adoravam e achava tia Cláudia perfeita. Enquanto eu era a chata que educava, a outra permitia tudo sem que eu soubesse, acobertando minhas negativas. Nós dois tivemos várias discussões e Felipe presenciou a maioria delas. Mas naquele dia, quando nos agredimos de forma mais violenta, ele não suportou. Gritou pedindo que parássemos dizendo que eu mentia. Saiu correndo e o segundo de indecisão que tive olhando para você, foi o suficiente para que não chegasse até ele e evitasse o acidente. Minha reação foi de apatia e incredulidade, mas a cada dia em que a saudade aumenta, o meu ódio por você e aquela mulher me cega. O pior, o que não posso carregar é o que sinto por mim. Ela não tem mais o emprego, exigência minha, a filha ouviu tudo o que não devia e nossa cidade pequena não a acolhe mais como antes. Você permanece preso a mim por um sentimento repulsivo de desprezo que faço questão de demonstrar. Nossa autopunição é continuarmos juntos. Eu vou seguindo em frente com cada gota de ódio engolida dia a dia. Não acredito que possa ser diferente. Não mereço que seja diferente. Nem mesmo quando penso em nosso filho, em seu sorriso, deixo de sentir angústia. Talvez um dia, mas ainda não quero.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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