Agora sabia
Agora sabia
Cândida Albernaz
Assustou-se quando ouviu a batida na janela do carro. Era um garoto; parecia ter uns dez anos. Pedia que ela abaixasse o vidro. Olhou o sinal e viu que ainda estava vermelho.
- Por favor, me dê qualquer coisa.
Pegou a bolsa no banco ao lado, retirou uma nota de pouco valor e entregou ao menino. Este abriu os lábios com um riso de dentes pretos e foi para o carro atrás do seu. Não deve ter conseguido nada porque ouviu um palavrão.
Aumentou o volume do rádio. Acabara a parte comercial “... minha alma está armada e apontada para a cara do sossego...” esse trecho fez com que franzisse a testa.
Falsa paz, apenas o suportar para seguir adiante. Após cada vendaval agia como se não fosse com ela. Só um filme irritante e triste, ao qual assistia da confortável poltrona que desenhara na mente. Então fingia não ter acontecido e plantava um sorriso nos lábios. Era evidente que isso não durava muito.
O trabalho exigia que Carlos viajasse. Talvez por isso ainda permanecessem juntos. Aqueles dias eram seus. Com sua música, seu silêncio, seu tempo de não pensar, seu fingir de ser feliz.
Nunca encostara a mão nela. Não precisava. O que ele falava, cortava mais fundo que uma lâmina. E desse corte provocado brotava o sangue que apenas ela via. Para estancar todo aquele vermelho escorrendo pelo corpo, somente a sensação de anestesiada que se obrigava a experimentar.
Imaginara inúmeras vezes colocar uma fita adesiva na boca de Carlos quando iniciassem os gritos. Que reação teria? Pensa que acabaria chorando e caindo ajoelhado sem o poder da arma que sempre usava e o tornava tão forte.
Como ele conseguia encontrar no vocabulário da vida, as palavras que mais feriam? Que capacidade era essa de ser daninho?
Recordou todas as vezes em que essa mesma boca usou carinho e sussurro. E ainda usava quando se permitia. Ou quando ela, esperança que era, aceitava ouvir porque precisava sentir.
O sinal fechou de novo. Olhou à volta e notou que passara ali há pouco. Dirigia a esmo.
O mesmo garoto estava na sua janela pedindo dinheiro. Não pareceu se lembrar quando recebeu a moeda. Ela se percebeu esboçar um sorriso meio torto, é verdade, mas já era alguma coisa. Relaxava.
Talvez fosse hora de voltar. Saíra na noite anterior depois de um monólogo formatado em discussão. Parou em um pequeno hotel, mas não dormiu muito. A primeira vez que reagia desse modo.
Quando chegasse à casa ele teria ido. Bendito trabalho que exigia sua ausência por tantos dias. No início isso a deixava triste; a saudade costumava doer. Mas isso foi lá atrás. Passou.
Abriu a porta e viu que dessa vez só as palavras não bastaram. Parece não ter suportado a não presença dela para escutar todo o vômito de insultos e humilhações.
Havia uma cadeira quebrada, os copos e a louça que estavam sobre a mesa de jantar transformaram-se em estilhaços no chão.
Sorriu novamente. Estava ficando boa nisso: rir de si mesma.
Não limparia aquela sujeira. Durante toda a noite pensou sem saber que atitude tomar. Agora sabia.
Pegou uma caixa e as malas que estavam em cima do armário.