A gente não nasceu para isso
candida 31/03/2014 08:39
A gente não nasceu para isso Cândida Albernaz Atrasei dona Marta, mas não foi culpa minha. Lembra que eu falei com a senhora sobre a Zildinha? Pois é, quando cheguei a casa ela estava lá me esperando com a cara toda quebrada. O desgraçado do marido sentou a mão nela outra vez. Aliás, a mão, o cotovelo, os pés, porque chutou um bocado e ainda bateu com a cabeça da pobre na parede. E sei dos detalhes, não porque ela se lembre, mas porque o filho de dez anos assistiu a cena. Esse garoto já viu cada coisa... Lá fui eu ao pronto-socorro. Foi medicada e quando quiseram saber como ela havia se machucado tanto, nem tive tempo de abrir a boca. “Foi um carro que me atropelou e fugiu”. Olhei para a cara dela com ódio. Não aprende, não adianta. Vai para casa e quando estiver com as cicatrizes fechando, leva nova surra. Dá para entender uma coisa dessas? Não, nem precisa responder dona Marta, que eu sei que a senhora concorda comigo. Então ela apanha, fica um tempão com o corpo doído e não coloca o sujeito em cana? Já avisei que não ajudo mais. É meu cunhado, mas queria que fosse preso. Não se faz o que ele fez com ela nem com um bicho, quanto mais na mulher que deu um filho para ele. Precisa ver como cuida da família. Não tem hora nem cansaço para ela. Desculpe dona Marta, eu desabafar assim, mais foi por esse motivo que cheguei tarde hoje, quase não dormi. Quando saímos do hospital já era uma hora da manhã. Insisti para que ficasse comigo, mas não quis. Falou que ele ia estar arrependido e não a machucaria. Ela conhece bem as manhas do filho da mãe que tem em casa. Desculpe pelo palavrão. Eu é que não conheço mais a Zildinha. Era uma mulher tão bonita e de opinião. Agora tá um trapo que dá até pena de olhar. Estou falando demais, não é? A senhora nem pôde falar sobre o que quer para o almoço. Que é isso? Tá chorando? Não fique assim. Eu sei, não está acostumada com esses assuntos, mas é que onde moro acontece cada uma... Só com tempo para contar. A senhora vive longe desse mundo e é melhor assim, que a gente não nasceu para assistir essas coisas. Dona Marta não chore que fico sem graça por ter falado tanto. Ainda bem que seu marido já foi para o trabalho. Podia até ficar zangado comigo por fazer a mulher dele chorar. Que é isso dona Marta? Só agora estou reparando como seu olho está inchado... E essa mancha roxa no braço? Dona Marta a senhora...

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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