Isca
candida 03/04/2014 14:46
Isca Cândida Albernaz Ele foi chegando de mansinho sem fazer ruído algum. Sobressaltou-se quando notou que não estava sozinha. Tão concentrada em pensamentos não percebeu que a noite começara a criar sombras à sua volta. Apesar do arrepio na pele, sorriu para ele. Não tinha certeza se o que experimentava era medo daquele desconhecido ou consolo pelo mesmo ter feito com que parasse de pensar. Ele não retribuiu o sorriso. Apenas acomodou-se no mesmo banco ao seu lado; na ponta dele. A pequena praça estava praticamente vazia. Havia uma ou outra pessoa se dirigindo para a saída. Podia ter se levantado e caminhado para bem longe daquele homem, mas permaneceu ali, fitando o chão e afastando com os pés as folhas que se misturavam à terra. Sentiu a areia entre os dedos que a sandália não escondia e não se incomodou. Unhas pintadas de um branco quase transparente. Não gostava de chamar atenção. Gestos comedidos e o andar calmo, como se o mundo pudesse esperar por ela. O rosto possuía traços delicados, com uma boca pequena e rosada, a pele clara de quem nunca se havia permitido sol no corpo. Os olhos, estes sim eram grandes, negros, curiosos e não havia como escondê-los. Observou que o desconhecido a encarava, mas mantinha-se tranquila. Pensou em puxar assunto, mas ele estava tão sério que não se sentiu à vontade. Sabia que se arriscava. Ou não sabia? Escurecera um pouco mais. Acenderam algumas lâmpadas aqui e ali. Preferia ter permanecido apenas com a luz do céu, onde a lua cheia clareava a noite. Costumava ouvir histórias contadas por sua avó sobre a lua que mexe com os homens, seduz as mulheres, esconde vampiros e descobre lobisomens que sob o manto da mesma, cometem crimes assustadores. Riu pensando que amedrontador na verdade era o que se passava no interior de cada um. Quem pode saber o que o outro traz dentro de si? Fechou os olhos e levantando a cabeça aspirou o ar que agora se tornara frio. Esqueceu-se por instante de que tinha companhia. Afagou a bolsa coberta de pelos que tinha no colo como se fosse a cabeça de uma criança. Pensou ir embora, mas já não tinha forças para fazê-lo. Não era ela quem decidia. Uma pequena dor de cabeça havia iniciado enquanto ouvia vozes tomarem decisões que não eram suas. Abriu os olhos e viu o rosto do homem que agora se postara à sua frente. - Deseja alguma coisa? – a voz que não reconhecia saiu de sua boca. - Estamos sozinhos e sabemos o que queremos. Venha comigo. Levantou-se e o seguiu. Parecia conhecer bem a praça. Dirigiram-se para um quase escondido portão por onde passaram se agachando em meio à folhagem que o cobria parcialmente. Ela também conhecia aquele lugar. - Tire sua roupa. Ela riu. - Do que está rindo? - Tire você a sua. Então ele riu também. - É assim que você gosta? Nu, grudou o corpo no dela e lambeu seu rosto. - É a sua vez. Retirando as mãos das costas, fez um movimento como se fosse abraçá-lo. - Você é esquisita. – falava sorrindo. O estilete entrou e saiu de seu pescoço numa rapidez impressionante. - O que é isso? Levou a mão à nuca que retornou coberta de sangue. - Sua louca... Uma nova pontada no estômago. Com raiva tentou segurá-la. Não houve tempo. A arma voltara para seu pescoço de onde o sangue brotava com força. Ela observou que ele cambaleava e depois de alguns passos, caiu. Pegou uma garrafinha de água de dentro da bolsa e lavou as mãos. Foi até ele e puxou com força a lâmina que ainda permanecia presa ao corpo. Lavou e guardou. Experimentou uma sensação de alívio. Ele não podia saber que não era ela a isca. Retornou pelo mesmo caminho por onde entraram. A calma a invadia. Era preciso sair dali enquanto se sentia assim. Não demoraria para a outra voltar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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