Isca
Isca
Cândida Albernaz
Ele foi chegando de mansinho sem fazer ruído algum. Sobressaltou-se quando notou que não estava sozinha. Tão concentrada em pensamentos não percebeu que a noite começara a criar sombras à sua volta.
Apesar do arrepio na pele, sorriu para ele. Não tinha certeza se o que experimentava era medo daquele desconhecido ou consolo pelo mesmo ter feito com que parasse de pensar.
Ele não retribuiu o sorriso. Apenas acomodou-se no mesmo banco ao seu lado; na ponta dele.
A pequena praça estava praticamente vazia. Havia uma ou outra pessoa se dirigindo para a saída. Podia ter se levantado e caminhado para bem longe daquele homem, mas permaneceu ali, fitando o chão e afastando com os pés as folhas que se misturavam à terra.
Sentiu a areia entre os dedos que a sandália não escondia e não se incomodou. Unhas pintadas de um branco quase transparente. Não gostava de chamar atenção. Gestos comedidos e o andar calmo, como se o mundo pudesse esperar por ela. O rosto possuía traços delicados, com uma boca pequena e rosada, a pele clara de quem nunca se havia permitido sol no corpo. Os olhos, estes sim eram grandes, negros, curiosos e não havia como escondê-los.
Observou que o desconhecido a encarava, mas mantinha-se tranquila.
Pensou em puxar assunto, mas ele estava tão sério que não se sentiu à vontade.
Sabia que se arriscava. Ou não sabia?
Escurecera um pouco mais. Acenderam algumas lâmpadas aqui e ali. Preferia ter permanecido apenas com a luz do céu, onde a lua cheia clareava a noite.
Costumava ouvir histórias contadas por sua avó sobre a lua que mexe com os homens, seduz as mulheres, esconde vampiros e descobre lobisomens que sob o manto da mesma, cometem crimes assustadores.
Riu pensando que amedrontador na verdade era o que se passava no interior de cada um. Quem pode saber o que o outro traz dentro de si?
Fechou os olhos e levantando a cabeça aspirou o ar que agora se tornara frio. Esqueceu-se por instante de que tinha companhia.
Afagou a bolsa coberta de pelos que tinha no colo como se fosse a cabeça de uma criança.
Pensou ir embora, mas já não tinha forças para fazê-lo. Não era ela quem decidia. Uma pequena dor de cabeça havia iniciado enquanto ouvia vozes tomarem decisões que não eram suas.
Abriu os olhos e viu o rosto do homem que agora se postara à sua frente.
- Deseja alguma coisa? – a voz que não reconhecia saiu de sua boca.
- Estamos sozinhos e sabemos o que queremos. Venha comigo.
Levantou-se e o seguiu. Parecia conhecer bem a praça. Dirigiram-se para um quase escondido portão por onde passaram se agachando em meio à folhagem que o cobria parcialmente. Ela também conhecia aquele lugar.
- Tire sua roupa.
Ela riu.
- Do que está rindo?
- Tire você a sua.
Então ele riu também.
- É assim que você gosta?
Nu, grudou o corpo no dela e lambeu seu rosto.
- É a sua vez.
Retirando as mãos das costas, fez um movimento como se fosse abraçá-lo.
- Você é esquisita. – falava sorrindo.
O estilete entrou e saiu de seu pescoço numa rapidez impressionante.
- O que é isso?
Levou a mão à nuca que retornou coberta de sangue.
- Sua louca...
Uma nova pontada no estômago. Com raiva tentou segurá-la. Não houve tempo. A arma voltara para seu pescoço de onde o sangue brotava com força.
Ela observou que ele cambaleava e depois de alguns passos, caiu.
Pegou uma garrafinha de água de dentro da bolsa e lavou as mãos. Foi até ele e puxou com força a lâmina que ainda permanecia presa ao corpo. Lavou e guardou.
Experimentou uma sensação de alívio.
Ele não podia saber que não era ela a isca.
Retornou pelo mesmo caminho por onde entraram. A calma a invadia. Era preciso sair dali enquanto se sentia assim.
Não demoraria para a outra voltar.