Só um pouquinho
21/01/2017 | 18h52
Só um pouquinho Cândida Albernaz Sentei na beirada da cama e coloquei o pé no chão. Primeiro um e depois o outro. Senti uma leve tonteira. Pensei em voltar a deitar, mas não era possível. Tinha um compromisso em menos de meia hora. Não devia ter bebido tanto, mas necessitava relaxar. Ai! A cabeça parece explodir. Abri a gaveta no banheiro e peguei um analgésico. Com a mão em concha, enchi de água da pia e engoli o remédio. Só um pouco dessa água podre não poderia fazer mal. Recordei que os amigos, ao me deixarem no portão de casa, gritaram para que me cuidasse. Ultimamente viviam repetindo isso. Parecia um mantra. O que pensavam? Que eu não sabia o que estava fazendo? Era alguma criança por acaso? Dia desses minha amiga, entre aspas, disse que queria falar comigo. Veio com um papo chato sobre beber em excesso, rir alto demais, se expor! (assim, com ponto de exclamação e tudo). Quem era ela para falar qualquer coisa? Amante do patrão, que era casado! Com uma chata, diga-se de passagem. Mas amante! Achava que ninguém descobriria. Como?, se todas as vezes que ele esbarrava com ela encostava a mão em sua bunda? Assim como quem não quer nada. Fingindo disfarçar, mas querendo mesmo que todos percebessem. Coitada, eu quis conversar com ela, mas depois resolvi não me meter. O problema é que a mulher dele anda desconfiada e veio fazer perguntas na empresa. Daqui a pouco exige sua demissão e ela vai parar na rua. Sempre desse jeito. Como dizia minha mãe, “a corda arrebenta no lado mais fraco”. Porque com ele não vai acontecer nada. Faz uma viagem com a mulher, compra um lindo anel e pronto! Espera chegar uma nova funcionária para o lugar da antiga. Em todos os sentidos. Cá entre nós: o cara quando é galinha, é galinha até morrer. Essa enxaqueca está demorando a melhorar. Acho que vou tomar mais um comprimido. E a Vilma agora a pouco? Querendo saber como estou, se dormi bem, se me alimentei, se lembrava da noite anterior. Respondi sim a tudo. Ela é amiga de verdade, apesar de estar me enchendo com toda essa preocupação. Só há uma coisa que me incomoda no que ela falou: tiraram-me do bar porque ameacei arrancar a roupa enquanto convidava um cara acompanhado, para dançar. Não lembro nada. Não era brincadeira dela. Falava sério e avisou que hoje à noite vem para conversarmos. Você precisa dar um jeito na sua vida. Repetiu algumas vezes. Talvez tenha abusado um pouco ontem, mas não é sempre assim. Pensando bem não é a primeira ou segunda vez que apronto. Quando estava namorando o Marcos, tomei alguns porres e acabava falando alto demais, arranjando confusão com uns e outros. Um dia tentei bater nele. Segurou meu braço, olhou firme e disse: acabou. Fiquei arrasada e em pouco tempo fui atrás dele. Prometi ter mais cuidado com minhas reações, o amava e mudaria meu comportamento. Ele acreditou. Eu também. Duas semanas depois pediu que não o procurasse novamente. Sugeriu que eu fizesse uma terapia, buscasse ajuda para parar de beber. Isso aconteceu logo após eu ter batido com o carro e insistido em dirigir quando saímos de um bar. Fiquei mal. Muito. Entre um copo e mais um de uísque suportei a dor que sentia. Sei que exagero de vez em quando, mas quem não? Eles não entendem que paro quando quiser. Imagine se vou deixar que algo me domine. Bebo porque tenho prazer. Tem uma outra coisa que a Vilma falou e que me fez ficar aflita; alguns amigos avisaram que se eu não tentar fazer algo para mudar, eles desistirão de estar comigo. Sabe o que respondi? Penso que terei que procurar novos amigos. Ela ficou quieta do outro lado da linha. Tive que chamar seu nome três vezes para que voltasse a falar. - Estou triste e com pena de você. Não consegue enxergar. Avisei que precisava desligar, pois estava em cima da hora. Não queria que ela percebesse que eu chorava. Não gosto de me sentir desse jeito. Preciso de algo. Só um pouquinho. Para curar a ressaca. Mais tarde quando voltar do trabalho refletirei sobre o assunto. Já ia esquecendo. No caminho dou uma paradinha rápida para comprar um vinho. Quando Vilma chegar faço uma massa para acompanhar enquanto conversamos. 06-04-15
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Nunca deixou de ser para sempre
21/01/2017 | 18h52
Nunca deixou de ser para sempre. Cândida Albernaz Você sabia, não é? Desde a primeira vez em que me viu teve a certeza de que era para sempre. Disse-me várias vezes. Eu era muito garota quando, me vendo atravessar a rua com uma amiga, pensou: esta é a mulher da minha vida. Foi assim que contou e foi assim que acreditei. *** Está na hora de tomar os remédios. Minha filha vem mais tarde. Hoje estou melhor, apesar da tonteira. Já ia esquecendo, deixei o leite no fogo. Nossa! secou todo. Se Carolina sabe disso... afirmou que vai contratar alguém para dormir comigo e ajudar. Não gosto de gente estranha em casa. Preciso admitir; esqueço de algumas coisinhas vez ou outra, mas nunca aconteceu nada mais sério. Também não tenho o hábito de reclamar com ela, pois se preocupa demais. *** Lembra quando Carolina nasceu? Ficou com cara de bobo. Sabia que queria chorar, mas não dava o braço a torcer. Não na frente de seus pais. À noite, comigo no hospital, fingi dormir quando você se levantou da poltrona e, em pé, ao lado do bercinho, enxugou os olhos por várias vezes. Sempre me senti atraída por essa mistura de homem forte com sentimento à flor da pele, que você possuía. *** A cabeça continua zonza e não posso deixar que Carolina me veja assim. Vou desistir do leite e sentar um pouco. Logo, logo isso passa. Ontem antes de dormir, estava olhando alguns álbuns de retrato. Procurei o do meu casamento e não encontrei. Acho que a cabeça não está muito boa mesmo. *** Quando nos casamos, você me encheu de cuidados. Parecia ser feita de porcelana, tal a forma com que era protegida. Todo o tempo senti segurança ao seu lado.   Sinto um macio por dentro ao lembrar esta época de nossa vida. Você trabalhava na farmácia que mais tarde herdou dos seus pais e conseguiu expandi-la, abrindo mais duas. No princípio, vivíamos com um pouco de dificuldade, mas foi a melhor fase, nós dois juntos. *** Estou me sentindo bem agora. Vou beber um copo com leite frio. Não quero mexer com fogo de novo. Carolina me convenceu a ter uma diarista, apenas não aceito que durma aqui. Sei que deixo minha filha preocupada, mas sou firme quanto a isso. Gosto de preparar a comida e arrumar o quarto onde durmo. Ocupa o tempo e a cabeça, principalmente agora que não anda tão boa. Dia desses, esqueci o ferro ligado na tomada, quando inventei de passar uma camisola. Fui para a sala e só ao senti o cheiro de fumaça lembrei. O tecido estava em fogo. Consegui apagar e limpar tudo antes de Carolina chegar. Aquela função toda me cansou e permaneci o resto do dia deitada. Nem comi. Ainda bem que naquele sábado ela só pôde vir à noite. *** Nossa filha era uma moça quando você me convidou para uma volta de carro. Há tempos não saíamos juntos. Costumava ficar horas trabalhando e chegava em casa muito tarde. Por duas vezes naquele mês, nem voltou. Contou ter dormido num colchonete na farmácia, porque tinha muito a fazer. Foi uma época de chorar escondido. De você e de nossa menina. Tentei conversar e pedir que trabalhasse menos. Não o reconhecia como o homem por quem havia me apaixonado. Mas amava da mesma forma. Ou talvez mais. *** Vou deitar um pouco. Estes pensamentos não me fazem bem. A tonteira voltou. Será que ela vai demorar a chegar? Avisou que hoje almoçaria comigo. De vez em quando traz comida para nós duas. Não gosto de sair. Carolina se casou, mas não teve filhos. Falava em adotar uma criança, o tempo passou e não o fez. Acho que devia tentar, tem reclamado do marido, que é representante de produtos farmacêuticos. Está trabalhando e viajando cada dia mais. Tão bom se houvesse criança correndo aqui e ali... a vida seria menos difícil. Por mim, ela adotaria uns dois ou três. Sempre quis família grande, mas depois dela não pude engravidar novamente. Tive problemas e precisei fazer uma cirurgia para retirar o útero. Agradeço a Deus por antes ter me dado Carolina. *** No nosso passeio de carro, você contou o que estava acontecendo. Conheceu alguém e resolveu sair de casa. Eu olhava para frente sem conseguir dizer nada. Você falava e falava e falava que não era minha culpa, que não deixaria de me amar, que não ficaria desamparada, até que cansou. Eu não reagia. Paramos diante do portão e quando quis entrar, pedi que não o fizesse. Precisava estar só. Nunca mais permiti sua entrada ali. Suas roupas, eu mesma empacotei e mandei que entregassem na farmácia. Carolina sempre o via, mas eu não consentia qualquer comentário sobre você. Daquele dia em diante, não tive mais saúde. E ainda assim você se foi antes de mim. Há dois anos. Deixou-me uma carta que nunca li. Nossa filha, sem que eu perguntasse, falou que nela havia um pedido de desculpas e arrependimento. Não admiti que continuasse. Não importava. *** Meu corpo está muito cansado. Sinto um aperto forte no peito. Ouço o barulho da chave girando na fechadura. Carolina deve ter chegado.  
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Entre ela e eu
21/01/2017 | 18h52
Entre ela e eu Cândida Albernaz Ele tornou a olhar para ela. Ainda se lembrava dos cabelos pretos à altura do ombro que usava quando se conheceram. Não eram mais pretos e nem tão cheios, mas graças aos olhos de amor que usava, continuava achando-os lindos. Estendeu os dedos e tocou sua boca. Recebeu algo como um sorriso de volta. O soro caía lentamente. Acompanhou-o até a mão, onde a agulha mergulhava sua ponta. Possuía pequenas manchas escuras como as suas. Coisas do tempo. Virara rotina o ir e vir ao hospital. Essa angústia no peito, também ela se tornara habitual. Ainda tinha desejos. Planejaram tantas vezes morar na praia quando envelhecessem, numa pequena casa com o verde em volta, onde os netos passariam fins de semana com eles. Ela aprenderia a fazer bolos e os encheria de lanches gostosos. A cozinha nunca fora o seu forte. Ouviu mais um gemido e com esforço levantou-se da cadeira onde sentara. Passou a mão no rosto muito claro e de pele macia provocada pela flacidez que a idade trazia. Achou que ela sonhava, pois sua expressão mudava entre o enrugar a testa e a suavidade de volta. Que fossem sonhos bons. A filha mais velha entrou no quarto. - Pai, você não foi dormir até agora? Quem vai acabar doente é você. - Estou bem filha. Não tenho sono. - Você não tem mais idade para passar a noite em claro e permanecer acordado por toda a manhã. O que sabe sobre minha idade? - Não gosto de deixá-la sozinha. - Mas papai, por poucas horas. Avisei que assim que pudesse viria para cá. Não queria discutir. Pensavam diferente. Não entendia que desde que se conheceram não ficaram uma noite sequer separados. E agora queriam decidir por ele ir ou não para casa dormir. Casa para ser chamada de nossa, precisa ter alma. E a sua estava deitada naquela cama presa a fios. Um dia antes de se conhecerem ele chorava mágoas por uma mulher que o deixara. Um ano depois estavam casados. Há cinquenta e dois anos. Não adiantaria tentar dormir em outro lugar que não fosse aquele cheirando a éter e outros odores fortes. Durante a noite empurrara a mulher, que se tornara tão magrinha, para um canto da cama ajeitando-se para que pudesse dormir a seu lado. Quando a enfermeira entrou durante a madrugada, levantou-se o mais rápido que conseguiu. Ela não falou nada, mas imaginou ter visto cumplicidade na forma que o olhou. Em casa tomaria um banho e tentaria comer. A cozinheira que os acompanhava desde muito, deve ter preparado o almoço. Ontem pediu que ela sentasse à mesa com ele. Sem falar concordou, e em silêncio comeu o que estava à sua frente. Então caminhou para a varanda agradecendo a companhia. Sempre que acabavam de almoçar, ele e a mulher se dirigiam para lá, acomodavam-se nas cadeiras uma ao lado da outra e esperavam o café que seria servido. Mais tarde quando voltasse ao hospital, entregaria a ela o cartão que escrevera no dia anterior em que foi internada às pressas. Leria bem perto de seu ouvido e tinha a certeza de que veria seu sorriso novamente. Ele não gostava de escrever, mas o tanto que ela insistiu começou de forma tímida e com o tempo, os dois trocavam declarações do que sentiam em pequenos papéis deixados aqui e ali. Nem tudo foi perfeito ao longo de todos aqueles anos. Mas há tempos decidiram que apenas a parte boa permaneceria entre eles. E que somente sobre elas falariam. Talvez quando retornasse mais tarde, ouviria uma boa notícia. Poderiam logo, logo, voltar para casa juntos. Seria desta vez. Tinha certeza.
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Mamão verde e angu
21/01/2017 | 18h52
Mamão verde e angu Cândida Albernaz Hoje a patroa falou que queria comer algo que a fazia lembrar a infância. Saiu, voltou com um mamão verde e pediu que fizesse um refogado com ele. Comentou que este era o prato predileto de sua avó e que ela também gostava. Contou ainda que o sabor trazia lembranças de quando não se preocupava com nada. Para ela era diferente, mas já não tinha importância. Houve uma época em que não suportava ouvir falar em mamão verde, muito menos colocar na boca. Houve uma época em que era sua comida quase diária. E sempre acompanhada de angu. Quanto a sua avó, mal se lembrava e sentia-se melhor assim. A mulher que a gerara e nunca pôde chamar de mãe, tivera outros filhos. Todos com pais diferentes. Todos entregues a avó para que os criasse. Todos sob a impaciência de uma senhora que não se cansava de repetir: por conta dessa mãe vagabunda de vocês não poderei ter uma velhice tranquila. Quando chegou sua vez, ela disse estar cansada e aos cinco anos foi entregue a um casal que tinha uma filha. Não se preocupou em visitá-la uma vez sequer. Quando a deixou, avisou que não chorasse à toa, que fosse uma menina forte e obedecesse aos novos pais. Deveria agradecer por eles aceitarem ficar com ela. Não foi possível seguir à risca suas ordens, mas obedeceu a tudo que mandavam. Até um dia. Tinha acabado de completar seis anos quando colocaram o banquinho perto da pia para que tivesse altura para lavar a louça do almoço... e também a do jantar. Soube disso, porque fizeram questão de explicar que não tinham dinheiro para fazer um bolinho para ela. Num natal, não se recordava com que idade estava, a filha do casal pediu que colocasse sua sandália na janela. Ansiosa, acordou bem cedo no dia seguinte e correu até lá onde encontrou uma boneca de plástico sem os dois olhos e com a boca rasgada. Olhou assustada e escutou o risinho bobo da garota atrás dela. Pegou o brinquedo e abraçou com ele. Não importava, seria sua amiga dali em diante. Enquanto preparava o almoço ouviu a patroa gritar do quarto: - Preciso sair mais cedo hoje. Esse cheirinho está me dando água na boca. Sempre gostou dos elogios dela sobre sua comida, mas desta vez não foi possível sorrir. Era uma boa mulher. Costumava sentar na cadeira da cozinha e ficavam conversando. Caso precisasse de algo, sempre procurava ajudar. O passado insistiu mais uma vez e lembrou-se das surras que levava e de quando ficava de castigo em pé no sol. Por horas. Na pele trazia os sinais provocados pelas feridas por conta de uma fivela de cinto. Havia um casal na redondeza que vivia discutindo com estes com quem ela morava. Pareciam pessoas boas e por mais de uma vez percebeu uma expressão de pena enquanto a observavam. Depois de algum tempo, a mulher passou a visitá-la quando não havia ninguém em casa. Levava algo para que ela comesse e ficava puxando assunto. Num desses dias quando varria a área da frente ela chegou. Tentou se esconder, mas insistiu chamando-a. Ao se aproximar, percebeu uma expressão de nojo em seu rosto. Não por ela, mas por aqueles que haviam feito o corte em sua testa e deixado as marcas de cigarro em suas pernas. Abraçou-a e chorando juntas prometeu que daria um jeito naquilo. Dias depois eles a tiraram dali em um carro emprestado e a levaram para outra cidade. Deixaram-na com uma senhora que morava sozinha e a visitavam todos os meses. Foram seus anjos. Nunca perguntou o que aconteceu depois que sumiu de casa. - A comida está pronta? Vou comer correndo. Claro que estou atrasada de novo. - Coloquei na mesa dona Sandra. - Nossa! Está igual ao da minha avó. Seu tempero é ótimo. Se sobrar um pouquinho como à noite também. E riu um riso claro. De gente em paz. Gostava de trabalhar naquele lugar. Sobraria tudo. Não seria capaz de sentir esse gosto outra vez. Sorriu lembrando-se da filhinha fazendo cara de emburrada por não querer o jantar e o marido explicando que ela devia agradecer em ter o que comer, o que não acontecia com muitas crianças. Sorriu de novo ao lembrar-se que tinha uma família que era sua esperando por ela.                                                                                                                              10/03/2015
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Frases nem tão soltas XVIII
21/01/2017 | 18h51
Frases nem tão soltas XVIII A lua quis me contar um segredo. Pedi que não confiasse porque hoje meus segredos bastavam. Qualquer outro derramaria por minhas bordas. * Só o tempo conhece o tempo que é preciso. * Sabe para que servem os botões de flores? Para acreditar novamente. * Deixe-me só porque preciso brigar com meus pensamentos. Necessito ordená-los de forma que parem de bagunçar com minha vida. * Não sou boa em sentir dor. Não a dor física, mas a da mente e da alma, aquela que desnorteia e deixa sem chão. Ela assusta porque chega rasgando e me abrindo ao meio. Fico com as entranhas expostas e qualquer toque pode parecer com o devorar de um abutre. * Alguns têm a capacidade de buscar no vocabulário da vida as palavras que mais doem. * Se tenho o cuidado de espalhar flores na estrada por onde caminho é para que a cada tropeço em pedras e em cada buraco onde houver queda, possa me levantar e ainda assim olhar em volta com motivos para ter um sorriso no jeito de enxergar. * Costumo meter os pés pelas mãos quando a emoção chega. Quando algo mexe com o meu sentir eu deveria correr para bem longe, algum lugar que não me desse tempo de reagir. Só assim poderia me proteger de mim. * Fico perdida com o tanto que penso. O pensamento não é meu amigo, porque ele fala em excesso me deixando tonta. Se fosse, ele viria com calma, assunto por assunto para que eu tivesse como digerir cada um deles. * A vida exige, a gente entrega, ela exige, ela pega. Entre uma vírgula e outra a gente prega uma peça: ri da vida e ri com ela. * Artistas enxergam com olhos de alma. * Nunca se dê a alguém por menos do que por amor. * Quando se vê a chuva inundar a casa e levar o pouco que tem uma, duas, três vezes, não há escolha. Refazer vidas é o que sobra. * Há dias que a vida aperta. O jeito é respirar fundo e deixar que acabe. * Após alguns vendavais procurava agir como se não fosse com ela. Sentada numa confortável poltrona desenhada na mente, plantava um sorriso nos lábios e assistia a tudo como a um filme triste e irritante.                 04/03/2015
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Frases nem tão soltas XVII
21/01/2017 | 18h51
conto 47Frases nem tão soltas XVII Cândida Albernaz Colori meu corpo de verde porque me disseram que era a cor da esperança. Preciso saber qual a cor do acreditar. * Escrevendo vivo vidas que não são minhas. Vidas que não teria coragem. * Cheia de luz ela sorriu na escuridão. Tinha certeza de que assim iluminaria o mundo. * Não gosto quando o choro entope o nariz, incha a cara e desfaz a maquiagem interna transformando o sentimento em um enorme borrão escuro. * Gota a gota bebo esperança. E quando menos espero estou transbordando dela a tal ponto que me vejo repleta do que foi esperança, agora realidade. Então volto gota a gota a me permitir novas e novas. * Abri u a caixa onde pensou que ele estava guardado e a descobriu vazia. O sorriso de liberdade esboçado misturou-se a sensação de jamais. * Com olhos arregalados tento enxergar o que não quero ver. Se não quero ver, para que enxergar? Porque é necessário. É? * Não me queira o apagar de luzes porque ainda assim pisarei colorido. * Um dia carregou para sempre o momento em que a saliva misturou-se ao sal das lágrimas que escorriam. * Tentava contar carneirinhos, mas estes corriam de um lado para o outro fazendo com que ficasse tonta. Desistiu e virando-se dormiu. * Não é da altura do salto que usa a queda que poderá te assustar. * Por que no meio de uma noite deixo de ser borboleta e viro lagarta outra vez? * Não conseguia ver sua sombra refletida na parede. Desesperou-se e voltou atrás para procurá-la. Encontrou-a agachada sob uma mesa. Não queria fazer parte do quão pequena se sentia naquele momento. * Se encontrarmos motivo para sorrir, pode ser por um nadica de nada, o brilho do sorriso é tão contagiante que nos carrega para um dia inteiro de paz. * E quando ficar bem velhinha que eu me encontre assim: murchinha, assanhada e sempre querendo mais da vida. * Pensou poder carregá-lo na alma. Estúpida ela era. Não imaginou que não aguentaria o peso de um corpo sem coração. 17/12/2014    
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Se não der, se acostuma
21/01/2017 | 18h51
            Se não der, se acostuma                                                                            Cândida Albernaz   Na escola aquele ano já tivera problemas por duas vezes, e olha que ainda era maio. Precisava se controlar. Sabia que estava impaciente e irritada com tudo, mas os outros professores não tinham nada com isso. Em sala de aula não deixava que qualquer alteração pudesse prejudicar os alunos, afinal, se tinha prazer em alguma coisa, era o de lidar com aquelas crianças. E depois, a maioria já vinha cheia de marcas da vida que levava e não seria ela quem colocaria mais uma. Outro dia o Ector, que se escrevia dessa forma, chegou a seu lado e apontando a estampa da blusa de malha que usava, falou: -Lá em casa tem uma igual a essa. Olhou para baixo e notou que o desenho de um pequeno revólver estava impresso nela: -Na sua casa tem uma arma? -Tem sim. Minha mãe deixa na gaveta da mesinha. E depois de ficar quieto por instantes, concluiu: - Acho que é por causa daqueles homens que vão lá. Ele tinha sete anos. Não conseguiu continuar a conversa, já havia ouvido falar sobre a profissão da mãe dele. Como aquele garoto, havia vários outros com inúmeras histórias iguais ou piores. Na casa dela as coisas também não iam bem. A mãe foi morar lá desde o dia em que o pai se mandou com uma fulana. Ele disse na cara dela que a achava uma chata e não suportava mais olhá-la. Foi a morte para sua mãe, toda certinha, exigente nos mínimos detalhes de uma vida de casal falida e que só ela não via. Não conseguiu deixar que vivesse sozinha e a levou para casa. Isso aconteceu há três anos. De lá para cá, sua vida com Henrique mudou um bocado. O que a mãe exigia do marido, passou a querer que Henrique fizesse. Na cozinha perseguia a empregada, o que fez com que passasse a ter rodízio de funcionárias. Fazia questão de ajudar e a sala era encerada por ela duas vezes por semana. Só havia um problema: ninguém podia entrar calçado ali. No início todos aceitaram, mas agora o marido fazia questão de pisar com os sapatos e arrastar os pés. Ele até demorou a tomar esta atitude. Reconhecia que Henrique tinha muita paciência com sua mãe. Tinha, porque não tem mais. As crianças, um casal, faziam da avó o centro de suas brincadeiras. Por mais de uma vez chegou a casa com a mãe gritando porque haviam jogado nela jatos de tinta. O pior é que Henrique deu para reclamar que ela não fazia nada direito e passou a implicar com a hora que estava chegando. Havia conseguido alguns alunos para dar aula particular e isso começava à tardinha e se estendia até a noite. Precisavam de dinheiro. Começou a vigiar o que comia dizendo que estava ficando gorda. Incrível como não conseguia enxergar a própria barriga, mas ela preferia não falar. Para completar, há quatro meses ele vinha chegando bem tarde. Imaginava o que estava acontecendo, mas andava sem ânimo para discutir. Ontem falou que ia sair de casa. Olhou-o meio boba sem entender o porquê. Estava com vontade de pedir a ele que fosse mesmo, mas levasse os filhos por algum tempo. A mãe entregaria ao irmão, este querendo ou não. Pensando bem, acha que o deixará ir. Depois tenta trazê-lo de volta. Se não der, se acostuma.
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E foi assim
21/01/2017 | 18h51
conto 44E foi assim Cândida Albernaz Lembro daquele dia num fim de semana em que meu pai entrou na cozinha onde estávamos eu e mamãe. Pediu que sentássemos à mesa porque ele faria o café. Obedeci e o que conseguia ver eram suas costas largas enquanto preparava ovos mexidos para nós três. Virou-se para mim e deu um sorriso aberto. Pisquei de volta e apontei com um movimento da cabeça para o rosto sério que mamãe exibia. Rimos os dois. Mais tarde ensinou-me a consertar o vazamento da pia do banheiro. Há meses prometera a ela fazer isso. Levantamos juntos o colchão da minha cama e fez com que eu ajeitasse o estrado de madeira que havia soltado. Combinamos de pescar na manhã seguinte e foi o que fizemos. Pegamos um ou outro peixe pequeno. Na volta para casa, compramos um namorado. Ele preparou. Disse que sempre gostou de cozinhar e o que faltava era tempo. Mamãe nos ajudou fazendo o arroz e uma salada. Eu forrei a mesa com a toalha e arrumei os pratos nos lugares marcados pela convivência. Sentamos e antes de iniciarmos ele orou agradecendo a Deus pela refeição e pelo teto onde morávamos. Há algum tempo ele não rezava antes de almoçarmos. Quando o domingo acabou fui dormir com a vontade de que chegasse o próximo bem rápido. Na segunda-feira ao voltar da escola deparei com mamãe sentada no sofá e a cabeça recostada, o pescoço liso de tão espichado, fixando o teto. Perguntei o que ela estava sentindo. Emitiu um som que não consegui entender. Pedi que repetisse. - Seu pai foi embora. Corri a área de serviço e procurei sem encontrar a vara de pescar e o anzol. Ela estava confusa, tinha certeza. E ele também. Será que resolveu ir até o rio e pegar um peixe para o jantar? Claro que só podia ser isso. Faria uma surpresa. Voltei à sala e sentei bem perto de minha mãe. Ficamos assim quietos um ao lado do outro até notar que era muito tarde. Fui à cozinha e tomei um copo de leite. Puro. Como sempre detestei. Depois puxei mamãe pelos braços e a coloquei na cama. Ela virou de lado e eu colado em suas costas a abracei. De olhos abertos por um longo tempo pensei entender o porquê da falta de riso no rosto dela durante o almoço de ontem. Esperei e esperei por aquela nova pescaria num domingo. Quando encontrei papai novamente já havia transcorrido seis meses. Ansiei por ele cada noite de cada dia durante aquele período. Ele não veio. Mãe explicou que havia sido transferido para uma cidade distante da nossa e que não era fácil estar ali. Pensei que não era fácil entender. Se eu não fizera nada, por quê? Ela respondia a todas as perguntas que eu fazia. Do seu jeito. Perdoando-o. Tentando dar um sentido. O que eu precisava era encontrá-lo, dizer que o queria em casa. Que não havia deixado de orar uma vez sequer em todas as refeições agradecendo o alimento em nossa mesa. Passei a estudar mais. Não teria como não se orgulhar de mim. Ajudava mamãe como sempre pedira que eu fizesse. E se uma lâmpada queimasse eu a trocava no mesmo dia. Tornei-me o homem da casa quando o que deveria ser era a criança de oito anos. Enfim nos vimos, e o abracei com tanta força que meus braços doeram. Fitei seus olhos e esperei. Falou que ficaríamos juntos aquele dia, mas a pescaria seria numa próxima vez. Não disse que voltaria para nós, como eu esperava escutar. Não explicou o suficiente para que eu lhe desse razão. Dissertou sobre o novo emprego, contou que a cidade em que morava era movimentada. Me levaria qualquer dia desses para conhecer sua casa. Sua casa! menor que esta, mas eu gostaria. Vi que mamãe nos observava de longe. Tentou se esconder algumas vezes, talvez para que ele não visse que chorava. Quando foi embora prometeu voltar no mês seguinte. Não o fez. Antes de ir segurou minha cabeça em suas mãos e murmurou: - Você vai ter um irmãozinho. Gostará dele. Poderá protegê-lo. O que acha? Não achava nada. Não queria irmão, não queria que ele fosse, não queria sofrer arrebentando por dentro como estava. - Está bem papai. Ele piscou para mim e apontou com um movimento da cabeça para onde mamãe se encontrava. - Cuide dela. Não queria cuidar dela. Queria pescar com ele no domingo seguinte. Não era o homem da casa. Ele era. - Está bem papai. Sorriu e fiquei pensando em para que tanto “queria”. Não adiantaria nada. A partir daquele dia eu tinha a idade para ser meu próprio pai. Foi o que fiz. Quando entrei minha mãe esperava na porta da cozinha. - Aprontei um lanche para você. Sentei e comi quieto. Quando levantei disse a ela: - Vamos. Não vai ser tão ruim. Seremos eu e você. Não pensaremos mais que houve um antes. Não se preocupe mãe, pode dormir com a luz acesa. Apagarei antes de deitar. 02/12/2014    
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Os segredos de cada um
21/01/2017 | 18h51
Os segredos de cada um Cândida Albernaz   A música sempre faz com que eu relaxe e me entregue. Em pé, em frente ao palco onde o grupo toca sambas antigos, danço como na época em que ainda era garota. Não me vejo velha, só algumas vezes. Nem olho em volta, onde sei que casais estão dançando, enlaçados pela cintura, pescoço, e as coxas roçando uma na outra num momento de sedução. A mim, bastam a música e os instrumentos aos quais gosto de observar. Ainda bem que conheci esse lugar aonde venho toda semana. Aqui dentro muitos me conhecem e por isso não sinto inibição. Quando uma amiga pode me acompanhar, melhor; se isso não acontece, venho sozinha. Algumas vezes um ou outro homem também passa o braço em volta de mim e dançamos. Então sorrio para ele e agradeço. Se tentar conversar, me torno fria e não emito palavra, até que desiste. Ainda não estou preparada. Talvez nunca venha a estar. Preciso ficar comigo, sinto falta de mim mesma. Tenho que pensar e pensar. Em casa, a sensação de solidão. No fim da noite, quando apago as luzes e o silêncio se torna intenso, uma tristeza costuma me dominar em forma de lágrimas que saltam dos olhos sem controle. Ando entre os móveis vazios de alma e portas fechadas que trouxeram um dia, atrás de si, os segredos de cada um. Estes podem ser as piores lembranças que nos acompanham. Fui casada por trinta anos, até que há dois ele se foi. O coração ficou fraco e um dia, durante o banho que tomava todas as manhãs, sentiu-se mal. Chorei muito, e abraçada com minha filha pedi perdão por ele e por mim. Ela me olhou esquisito naquela hora e nos próximos dias, até que  avisou que estava se preparando para morar fora de nosso país. Sei que ela sabe o que fiz, acredito que  agradeça por isso, mas não quer carregar mais uma culpa. Nunca falamos claramente sobre o que houve, mas o irmão mais velho, quando se casou há alguns anos me deu de presente na hora da cerimônia uma história que acho, nunca quis ver. Lembrou-se dos dias em que eu precisava sair mais cedo do que o pai para o trabalho e ouvia gemidos e barulhos que não entendia vindo do quarto da irmã. Que nos muitos sábados em que eu passava a manhã num serviço voluntário de um orfanato, o que durou dois anos, ele ouvia os mesmos sons. Um dia, resolveu encarar sem medo e abriu a porta do quarto que o pai não fez questão de fechar. Nesse momento da conversa me abraçou e chorou como menino. Minha filha Ana, arredia, sem motivação para o estudo, sem nunca ter namorado alguém, e vivia com uma expressão de semimorta. Minha filha que jamais consegui fazer com que me desse um abraço e que apesar dos  pedidos, não quis fazer um tratamento psicológico. Sabia que precisava de ajuda, mas não o motivo. Foi então que passei a fazer questão de eu mesma preparar o suco de todas as manhãs. Às vezes ele sentia-se muito fraco, mas eu arrumava um jeito para que melhorasse sem a ajuda de um médico. Não foi rápido, levou muito tempo, mas eu tinha paciência. Só não podia permitir que Ana continuasse morta enquanto ele vivia. Era a vez dele. Todos nós precisávamos respirar novamente. Numa dessas manhãs, Ana entrou na cozinha enquanto eu colocava o conteúdo de um frasco no copo do pai. Olhou em meus olhos e saiu sem dizer nada. Sabia que ele não tomava remédios de espécie alguma. Dizia ser forte, e que aquelas drogas não curavam ninguém, só faziam mal. Também era contra procurar por médicos: “estes só servem para nos tornar doentes”. Quando começou a se sentir muito fraco, quis voltar atrás em sua opinião.  Eu o convenci do contrário. Ana não sabe quando volta. Escrevi outro dia dizendo estar pensando em visitá-la. Achou melhor que não, alegou mil desculpas que entendi perfeitamente. Meu filho raramente aparece. Liguei para ele e  disse que a mulher está grávida há três meses. Levo meus segredos às vezes com tranquilidade, outras com desespero. Espero que o tempo passe e com ele eu sobreviva à prisão que escolhi.  
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Ponto sem nó
21/01/2017 | 18h51
Ponto sem nó Cândida Albernaz Aquela pequena capela, com bancos de madeira resistentes ao tempo ficava em meio a árvores e o que um dia foi um gramado. Hoje capim por cortar. A casa um pouco distante, com pedaços de reboco caindo da varanda onde tantas vezes sentara para conversar com amigos ou simplesmente pensar. Naquela época, pensar não doía como agora. Acreditava ter a vida à sua disposição. O tempo fez questão de mostrar que ela sim, disporia dele como bem entendesse. Os pais morreram quando tinha vinte e seis anos. Um acidente na estrada. Um cavalo atravessou na frente deles sem que houvesse tempo para desviar. Herdou aquela fazenda e alguns outros bens na cidade. Gostava da terra, dos bichos e agora da solidão. Estava noivo na época e com planos para casar. Desistiu. Resolveu fazer uma viagem que duraria um mês, mas levou um ano para voltar. A noiva se magoou com ele que não fez questão de dar maiores explicações. Quando voltou, ela estava de casamento marcado com um de seus amigos. Foi à cerimônia e com olhos sem amor, viu os dela fixarem-se nele durante todo o caminho até o altar. Resolveu que não iria à recepção. Os imóveis que possuía na cidade, rendiam mais do que o suficiente para que pudesse tocar a fazenda com calma, levando-a a crescer e produzir. Os pastos a cada ano viam aumentar o gado. Conheceu Liliana em uma de suas idas a cidade. Costumava ir aos bares e festas que haviam por lá. Em menos de um ano estava casado e na espera do primeiro filho. Não era homem de grandes paixões, costumava dizer. Programava seu dia, semana ou ano e seguia em frente. Os amigos continuavam a frequentar sua casa, inclusive a ex noiva com o marido. Gostava de realizar pequenas festas que duravam toda a noite. Numa delas eles chegaram com um casal de amigos. Foram ficando, ficando e já amanhecia quando se despediram. A garota era bem mais jovem do que ele, dançava de forma insinuante, provocando a maioria dos olhares masculinos. Com a desculpa de mostrar a ela um potro que havia nascido, sumiram os dois por algum tempo. Depois desse dia, encontravam-se sempre que possível. Quando contou que estava grávida, pediu que ele largasse a mulher e ficasse com ela. Riu de sua pretensão e questionou o fato de ser ele o pai. Como ter certeza? Não esperava o que viria a seguir. Ela contou ao marido sobre os dois, que foi tirar satisfação em sua casa. Mulher e filho presentes ouvindo o que não deviam. Ainda tentou se explicar, mas não deu em nada. Mais tarde, ficou provado que a criança era do marido. Os dois se acertaram e criam a filha juntos. Com ele foi diferente. Liliana saiu de casa levando o filho que passou a ver de vez em quando. Não acreditou sentir tanta falta. Saiu da fazenda e foi morar na cidade. A casa ficou abandonada, perdeu o gosto. Continuou com o gado, mas passou a ir apenas quando necessário. Mesmo assim, levou anos sem voltar. Hoje, olhando a casa naquele estado, pensou o quanto havia se enganado sobre si mesmo. Era na verdade um homem de sentir paixões, e por isso a cada dor vivida, fugia de tudo o que o fizesse recordar. Só não conseguia fugir de si mesmo.
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Candida Albernaz

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