E foi assim
Cândida Albernaz
Lembro daquele dia num fim de semana em que meu pai entrou na cozinha onde estávamos eu e mamãe. Pediu que sentássemos à mesa porque ele faria o café. Obedeci e o que conseguia ver eram suas costas largas enquanto preparava ovos mexidos para nós três. Virou-se para mim e deu um sorriso aberto. Pisquei de volta e apontei com um movimento da cabeça para o rosto sério que mamãe exibia. Rimos os dois.
Mais tarde ensinou-me a consertar o vazamento da pia do banheiro. Há meses prometera a ela fazer isso.
Levantamos juntos o colchão da minha cama e fez com que eu ajeitasse o estrado de madeira que havia soltado.
Combinamos de pescar na manhã seguinte e foi o que fizemos. Pegamos um ou outro peixe pequeno. Na volta para casa, compramos um namorado.
Ele preparou. Disse que sempre gostou de cozinhar e o que faltava era tempo. Mamãe nos ajudou fazendo o arroz e uma salada. Eu forrei a mesa com a toalha e arrumei os pratos nos lugares marcados pela convivência. Sentamos e antes de iniciarmos ele orou agradecendo a Deus pela refeição e pelo teto onde morávamos. Há algum tempo ele não rezava antes de almoçarmos.
Quando o domingo acabou fui dormir com a vontade de que chegasse o próximo bem rápido.
Na segunda-feira ao voltar da escola deparei com mamãe sentada no sofá e a cabeça recostada, o pescoço liso de tão espichado, fixando o teto.
Perguntei o que ela estava sentindo. Emitiu um som que não consegui entender. Pedi que repetisse.
- Seu pai foi embora.
Corri a área de serviço e procurei sem encontrar a vara de pescar e o anzol. Ela estava confusa, tinha certeza. E ele também. Será que resolveu ir até o rio e pegar um peixe para o jantar? Claro que só podia ser isso. Faria uma surpresa.
Voltei à sala e sentei bem perto de minha mãe. Ficamos assim quietos um ao lado do outro até notar que era muito tarde. Fui à cozinha e tomei um copo de leite. Puro. Como sempre detestei.
Depois puxei mamãe pelos braços e a coloquei na cama. Ela virou de lado e eu colado em suas costas a abracei.
De olhos abertos por um longo tempo pensei entender o porquê da falta de riso no rosto dela durante o almoço de ontem.
Esperei e esperei por aquela nova pescaria num domingo.
Quando encontrei papai novamente já havia transcorrido seis meses.
Ansiei por ele cada noite de cada dia durante aquele período. Ele não veio.
Mãe explicou que havia sido transferido para uma cidade distante da nossa e que não era fácil estar ali.
Pensei que não era fácil entender. Se eu não fizera nada, por quê?
Ela respondia a todas as perguntas que eu fazia. Do seu jeito. Perdoando-o. Tentando dar um sentido.
O que eu precisava era encontrá-lo, dizer que o queria em casa. Que não havia deixado de orar uma vez sequer em todas as refeições agradecendo o alimento em nossa mesa.
Passei a estudar mais. Não teria como não se orgulhar de mim.
Ajudava mamãe como sempre pedira que eu fizesse. E se uma lâmpada queimasse eu a trocava no mesmo dia.
Tornei-me o homem da casa quando o que deveria ser era a criança de oito anos.
Enfim nos vimos, e o abracei com tanta força que meus braços doeram. Fitei seus olhos e esperei.
Falou que ficaríamos juntos aquele dia, mas a pescaria seria numa próxima vez.
Não disse que voltaria para nós, como eu esperava escutar. Não explicou o suficiente para que eu lhe desse razão.
Dissertou sobre o novo emprego, contou que a cidade em que morava era movimentada. Me levaria qualquer dia desses para conhecer sua casa. Sua casa! menor que esta, mas eu gostaria.
Vi que mamãe nos observava de longe. Tentou se esconder algumas vezes, talvez para que ele não visse que chorava.
Quando foi embora prometeu voltar no mês seguinte. Não o fez.
Antes de ir segurou minha cabeça em suas mãos e murmurou:
- Você vai ter um irmãozinho. Gostará dele. Poderá protegê-lo. O que acha?
Não achava nada. Não queria irmão, não queria que ele fosse, não queria sofrer arrebentando por dentro como estava.
- Está bem papai.
Ele piscou para mim e apontou com um movimento da cabeça para onde mamãe se encontrava.
- Cuide dela.
Não queria cuidar dela. Queria pescar com ele no domingo seguinte. Não era o homem da casa. Ele era.
- Está bem papai.
Sorriu e fiquei pensando em para que tanto “queria”. Não adiantaria nada.
A partir daquele dia eu tinha a idade para ser meu próprio pai. Foi o que fiz.
Quando entrei minha mãe esperava na porta da cozinha.
- Aprontei um lanche para você.
Sentei e comi quieto.
Quando levantei disse a ela:
- Vamos. Não vai ser tão ruim. Seremos eu e você. Não pensaremos mais que houve um antes. Não se preocupe mãe, pode dormir com a luz acesa. Apagarei antes de deitar.
02/12/2014
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Sobre o autor
Candida Albernaz
[email protected]Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".


