Se não der, se acostuma
Se não der, se acostuma
Cândida Albernaz
Na escola aquele ano já tivera problemas por duas vezes, e olha que ainda era maio.
Precisava se controlar. Sabia que estava impaciente e irritada com tudo, mas os outros professores não tinham nada com isso.
Em sala de aula não deixava que qualquer alteração pudesse prejudicar os alunos, afinal, se tinha prazer em alguma coisa, era o de lidar com aquelas crianças. E depois, a maioria já vinha cheia de marcas da vida que levava e não seria ela quem colocaria mais uma.
Outro dia o Ector, que se escrevia dessa forma, chegou a seu lado e apontando a estampa da blusa de malha que usava, falou:
-Lá em casa tem uma igual a essa.
Olhou para baixo e notou que o desenho de um pequeno revólver estava impresso nela:
-Na sua casa tem uma arma?
-Tem sim. Minha mãe deixa na gaveta da mesinha.
E depois de ficar quieto por instantes, concluiu:
- Acho que é por causa daqueles homens que vão lá.
Ele tinha sete anos. Não conseguiu continuar a conversa, já havia ouvido falar sobre a profissão da mãe dele.
Como aquele garoto, havia vários outros com inúmeras histórias iguais ou piores.
Na casa dela as coisas também não iam bem. A mãe foi morar lá desde o dia em que o pai se mandou com uma fulana. Ele disse na cara dela que a achava uma chata e não suportava mais olhá-la. Foi a morte para sua mãe, toda certinha, exigente nos mínimos detalhes de uma vida de casal falida e que só ela não via.
Não conseguiu deixar que vivesse sozinha e a levou para casa. Isso aconteceu há três anos. De lá para cá, sua vida com Henrique mudou um bocado.
O que a mãe exigia do marido, passou a querer que Henrique fizesse. Na cozinha perseguia a empregada, o que fez com que passasse a ter rodízio de funcionárias.
Fazia questão de ajudar e a sala era encerada por ela duas vezes por semana. Só havia um problema: ninguém podia entrar calçado ali. No início todos aceitaram, mas agora o marido fazia questão de pisar com os sapatos e arrastar os pés. Ele até demorou a tomar esta atitude.
Reconhecia que Henrique tinha muita paciência com sua mãe. Tinha, porque não tem mais.
As crianças, um casal, faziam da avó o centro de suas brincadeiras. Por mais de uma vez chegou a casa com a mãe gritando porque haviam jogado nela jatos de tinta.
O pior é que Henrique deu para reclamar que ela não fazia nada direito e passou a implicar com a hora que estava chegando. Havia conseguido alguns alunos para dar aula particular e isso começava à tardinha e se estendia até a noite. Precisavam de dinheiro.
Começou a vigiar o que comia dizendo que estava ficando gorda. Incrível como não conseguia enxergar a própria barriga, mas ela preferia não falar.
Para completar, há quatro meses ele vinha chegando bem tarde. Imaginava o que estava acontecendo, mas andava sem ânimo para discutir.
Ontem falou que ia sair de casa. Olhou-o meio boba sem entender o porquê.
Estava com vontade de pedir a ele que fosse mesmo, mas levasse os filhos por algum tempo. A mãe entregaria ao irmão, este querendo ou não.
Pensando bem, acha que o deixará ir. Depois tenta trazê-lo de volta. Se não der, se acostuma.