Só um pouquinho
candida 09/04/2015 14:54
Só um pouquinho Cândida Albernaz Sentei na beirada da cama e coloquei o pé no chão. Primeiro um e depois o outro. Senti uma leve tonteira. Pensei em voltar a deitar, mas não era possível. Tinha um compromisso em menos de meia hora. Não devia ter bebido tanto, mas necessitava relaxar. Ai! A cabeça parece explodir. Abri a gaveta no banheiro e peguei um analgésico. Com a mão em concha, enchi de água da pia e engoli o remédio. Só um pouco dessa água podre não poderia fazer mal. Recordei que os amigos, ao me deixarem no portão de casa, gritaram para que me cuidasse. Ultimamente viviam repetindo isso. Parecia um mantra. O que pensavam? Que eu não sabia o que estava fazendo? Era alguma criança por acaso? Dia desses minha amiga, entre aspas, disse que queria falar comigo. Veio com um papo chato sobre beber em excesso, rir alto demais, se expor! (assim, com ponto de exclamação e tudo). Quem era ela para falar qualquer coisa? Amante do patrão, que era casado! Com uma chata, diga-se de passagem. Mas amante! Achava que ninguém descobriria. Como?, se todas as vezes que ele esbarrava com ela encostava a mão em sua bunda? Assim como quem não quer nada. Fingindo disfarçar, mas querendo mesmo que todos percebessem. Coitada, eu quis conversar com ela, mas depois resolvi não me meter. O problema é que a mulher dele anda desconfiada e veio fazer perguntas na empresa. Daqui a pouco exige sua demissão e ela vai parar na rua. Sempre desse jeito. Como dizia minha mãe, “a corda arrebenta no lado mais fraco”. Porque com ele não vai acontecer nada. Faz uma viagem com a mulher, compra um lindo anel e pronto! Espera chegar uma nova funcionária para o lugar da antiga. Em todos os sentidos. Cá entre nós: o cara quando é galinha, é galinha até morrer. Essa enxaqueca está demorando a melhorar. Acho que vou tomar mais um comprimido. E a Vilma agora a pouco? Querendo saber como estou, se dormi bem, se me alimentei, se lembrava da noite anterior. Respondi sim a tudo. Ela é amiga de verdade, apesar de estar me enchendo com toda essa preocupação. Só há uma coisa que me incomoda no que ela falou: tiraram-me do bar porque ameacei arrancar a roupa enquanto convidava um cara acompanhado, para dançar. Não lembro nada. Não era brincadeira dela. Falava sério e avisou que hoje à noite vem para conversarmos. Você precisa dar um jeito na sua vida. Repetiu algumas vezes. Talvez tenha abusado um pouco ontem, mas não é sempre assim. Pensando bem não é a primeira ou segunda vez que apronto. Quando estava namorando o Marcos, tomei alguns porres e acabava falando alto demais, arranjando confusão com uns e outros. Um dia tentei bater nele. Segurou meu braço, olhou firme e disse: acabou. Fiquei arrasada e em pouco tempo fui atrás dele. Prometi ter mais cuidado com minhas reações, o amava e mudaria meu comportamento. Ele acreditou. Eu também. Duas semanas depois pediu que não o procurasse novamente. Sugeriu que eu fizesse uma terapia, buscasse ajuda para parar de beber. Isso aconteceu logo após eu ter batido com o carro e insistido em dirigir quando saímos de um bar. Fiquei mal. Muito. Entre um copo e mais um de uísque suportei a dor que sentia. Sei que exagero de vez em quando, mas quem não? Eles não entendem que paro quando quiser. Imagine se vou deixar que algo me domine. Bebo porque tenho prazer. Tem uma outra coisa que a Vilma falou e que me fez ficar aflita; alguns amigos avisaram que se eu não tentar fazer algo para mudar, eles desistirão de estar comigo. Sabe o que respondi? Penso que terei que procurar novos amigos. Ela ficou quieta do outro lado da linha. Tive que chamar seu nome três vezes para que voltasse a falar. - Estou triste e com pena de você. Não consegue enxergar. Avisei que precisava desligar, pois estava em cima da hora. Não queria que ela percebesse que eu chorava. Não gosto de me sentir desse jeito. Preciso de algo. Só um pouquinho. Para curar a ressaca. Mais tarde quando voltar do trabalho refletirei sobre o assunto. Já ia esquecendo. No caminho dou uma paradinha rápida para comprar um vinho. Quando Vilma chegar faço uma massa para acompanhar enquanto conversamos. 06-04-15

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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