Os segredos de cada um
candida 27/11/2014 10:16
Os segredos de cada um Cândida Albernaz   A música sempre faz com que eu relaxe e me entregue. Em pé, em frente ao palco onde o grupo toca sambas antigos, danço como na época em que ainda era garota. Não me vejo velha, só algumas vezes. Nem olho em volta, onde sei que casais estão dançando, enlaçados pela cintura, pescoço, e as coxas roçando uma na outra num momento de sedução. A mim, bastam a música e os instrumentos aos quais gosto de observar. Ainda bem que conheci esse lugar aonde venho toda semana. Aqui dentro muitos me conhecem e por isso não sinto inibição. Quando uma amiga pode me acompanhar, melhor; se isso não acontece, venho sozinha. Algumas vezes um ou outro homem também passa o braço em volta de mim e dançamos. Então sorrio para ele e agradeço. Se tentar conversar, me torno fria e não emito palavra, até que desiste. Ainda não estou preparada. Talvez nunca venha a estar. Preciso ficar comigo, sinto falta de mim mesma. Tenho que pensar e pensar. Em casa, a sensação de solidão. No fim da noite, quando apago as luzes e o silêncio se torna intenso, uma tristeza costuma me dominar em forma de lágrimas que saltam dos olhos sem controle. Ando entre os móveis vazios de alma e portas fechadas que trouxeram um dia, atrás de si, os segredos de cada um. Estes podem ser as piores lembranças que nos acompanham. Fui casada por trinta anos, até que há dois ele se foi. O coração ficou fraco e um dia, durante o banho que tomava todas as manhãs, sentiu-se mal. Chorei muito, e abraçada com minha filha pedi perdão por ele e por mim. Ela me olhou esquisito naquela hora e nos próximos dias, até que  avisou que estava se preparando para morar fora de nosso país. Sei que ela sabe o que fiz, acredito que  agradeça por isso, mas não quer carregar mais uma culpa. Nunca falamos claramente sobre o que houve, mas o irmão mais velho, quando se casou há alguns anos me deu de presente na hora da cerimônia uma história que acho, nunca quis ver. Lembrou-se dos dias em que eu precisava sair mais cedo do que o pai para o trabalho e ouvia gemidos e barulhos que não entendia vindo do quarto da irmã. Que nos muitos sábados em que eu passava a manhã num serviço voluntário de um orfanato, o que durou dois anos, ele ouvia os mesmos sons. Um dia, resolveu encarar sem medo e abriu a porta do quarto que o pai não fez questão de fechar. Nesse momento da conversa me abraçou e chorou como menino. Minha filha Ana, arredia, sem motivação para o estudo, sem nunca ter namorado alguém, e vivia com uma expressão de semimorta. Minha filha que jamais consegui fazer com que me desse um abraço e que apesar dos  pedidos, não quis fazer um tratamento psicológico. Sabia que precisava de ajuda, mas não o motivo. Foi então que passei a fazer questão de eu mesma preparar o suco de todas as manhãs. Às vezes ele sentia-se muito fraco, mas eu arrumava um jeito para que melhorasse sem a ajuda de um médico. Não foi rápido, levou muito tempo, mas eu tinha paciência. Só não podia permitir que Ana continuasse morta enquanto ele vivia. Era a vez dele. Todos nós precisávamos respirar novamente. Numa dessas manhãs, Ana entrou na cozinha enquanto eu colocava o conteúdo de um frasco no copo do pai. Olhou em meus olhos e saiu sem dizer nada. Sabia que ele não tomava remédios de espécie alguma. Dizia ser forte, e que aquelas drogas não curavam ninguém, só faziam mal. Também era contra procurar por médicos: “estes só servem para nos tornar doentes”. Quando começou a se sentir muito fraco, quis voltar atrás em sua opinião.  Eu o convenci do contrário. Ana não sabe quando volta. Escrevi outro dia dizendo estar pensando em visitá-la. Achou melhor que não, alegou mil desculpas que entendi perfeitamente. Meu filho raramente aparece. Liguei para ele e  disse que a mulher está grávida há três meses. Levo meus segredos às vezes com tranquilidade, outras com desespero. Espero que o tempo passe e com ele eu sobreviva à prisão que escolhi.  

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS