Nunca deixou de ser para sempre
Nunca deixou de ser para sempre.
Cândida Albernaz
Você sabia, não é? Desde a primeira vez em que me viu teve a certeza de que era para sempre. Disse-me várias vezes. Eu era muito garota quando, me vendo atravessar a rua com uma amiga, pensou: esta é a mulher da minha vida. Foi assim que contou e foi assim que acreditei.
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Está na hora de tomar os remédios. Minha filha vem mais tarde. Hoje estou melhor, apesar da tonteira.
Já ia esquecendo, deixei o leite no fogo. Nossa! secou todo. Se Carolina sabe disso... afirmou que vai contratar alguém para dormir comigo e ajudar. Não gosto de gente estranha em casa.
Preciso admitir; esqueço de algumas coisinhas vez ou outra, mas nunca aconteceu nada mais sério. Também não tenho o hábito de reclamar com ela, pois se preocupa demais.
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Lembra quando Carolina nasceu? Ficou com cara de bobo. Sabia que queria chorar, mas não dava o braço a torcer. Não na frente de seus pais.
À noite, comigo no hospital, fingi dormir quando você se levantou da poltrona e, em pé, ao lado do bercinho, enxugou os olhos por várias vezes.
Sempre me senti atraída por essa mistura de homem forte com sentimento à flor da pele, que você possuía.
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A cabeça continua zonza e não posso deixar que Carolina me veja assim. Vou desistir do leite e sentar um pouco. Logo, logo isso passa.
Ontem antes de dormir, estava olhando alguns álbuns de retrato. Procurei o do meu casamento e não encontrei. Acho que a cabeça não está muito boa mesmo.
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Quando nos casamos, você me encheu de cuidados. Parecia ser feita de porcelana, tal a forma com que era protegida. Todo o tempo senti segurança ao seu lado.
Sinto um macio por dentro ao lembrar esta época de nossa vida. Você trabalhava na farmácia que mais tarde herdou dos seus pais e conseguiu expandi-la, abrindo mais duas.
No princípio, vivíamos com um pouco de dificuldade, mas foi a melhor fase, nós dois juntos.
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Estou me sentindo bem agora. Vou beber um copo com leite frio. Não quero mexer com fogo de novo.
Carolina me convenceu a ter uma diarista, apenas não aceito que durma aqui.
Sei que deixo minha filha preocupada, mas sou firme quanto a isso. Gosto de preparar a comida e arrumar o quarto onde durmo. Ocupa o tempo e a cabeça, principalmente agora que não anda tão boa.
Dia desses, esqueci o ferro ligado na tomada, quando inventei de passar uma camisola. Fui para a sala e só ao senti o cheiro de fumaça lembrei. O tecido estava em fogo. Consegui apagar e limpar tudo antes de Carolina chegar.
Aquela função toda me cansou e permaneci o resto do dia deitada. Nem comi.
Ainda bem que naquele sábado ela só pôde vir à noite.
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Nossa filha era uma moça quando você me convidou para uma volta de carro. Há tempos não saíamos juntos. Costumava ficar horas trabalhando e chegava em casa muito tarde. Por duas vezes naquele mês, nem voltou. Contou ter dormido num colchonete na farmácia, porque tinha muito a fazer.
Foi uma época de chorar escondido. De você e de nossa menina. Tentei conversar e pedir que trabalhasse menos. Não o reconhecia como o homem por quem havia me apaixonado. Mas amava da mesma forma. Ou talvez mais.
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Vou deitar um pouco. Estes pensamentos não me fazem bem. A tonteira voltou.
Será que ela vai demorar a chegar? Avisou que hoje almoçaria comigo. De vez em quando traz comida para nós duas. Não gosto de sair.
Carolina se casou, mas não teve filhos. Falava em adotar uma criança, o tempo passou e não o fez. Acho que devia tentar, tem reclamado do marido, que é representante de produtos farmacêuticos. Está trabalhando e viajando cada dia mais. Tão bom se houvesse criança correndo aqui e ali... a vida seria menos difícil. Por mim, ela adotaria uns dois ou três. Sempre quis família grande, mas depois dela não pude engravidar novamente. Tive problemas e precisei fazer uma cirurgia para retirar o útero. Agradeço a Deus por antes ter me dado Carolina.
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No nosso passeio de carro, você contou o que estava acontecendo. Conheceu alguém e resolveu sair de casa. Eu olhava para frente sem conseguir dizer nada. Você falava e falava e falava que não era minha culpa, que não deixaria de me amar, que não ficaria desamparada, até que cansou. Eu não reagia.
Paramos diante do portão e quando quis entrar, pedi que não o fizesse. Precisava estar só.
Nunca mais permiti sua entrada ali. Suas roupas, eu mesma empacotei e mandei que entregassem na farmácia.
Carolina sempre o via, mas eu não consentia qualquer comentário sobre você.
Daquele dia em diante, não tive mais saúde. E ainda assim você se foi antes de mim. Há dois anos.
Deixou-me uma carta que nunca li.
Nossa filha, sem que eu perguntasse, falou que nela havia um pedido de desculpas e arrependimento. Não admiti que continuasse. Não importava.
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Meu corpo está muito cansado. Sinto um aperto forte no peito. Ouço o barulho da chave girando na fechadura. Carolina deve ter chegado.