Mamão verde e angu
Mamão verde e angu
Cândida Albernaz
Hoje a patroa falou que queria comer algo que a fazia lembrar a infância. Saiu, voltou com um mamão verde e pediu que fizesse um refogado com ele. Comentou que este era o prato predileto de sua avó e que ela também gostava. Contou ainda que o sabor trazia lembranças de quando não se preocupava com nada.
Para ela era diferente, mas já não tinha importância.
Houve uma época em que não suportava ouvir falar em mamão verde, muito menos colocar na boca.
Houve uma época em que era sua comida quase diária. E sempre acompanhada de angu.
Quanto a sua avó, mal se lembrava e sentia-se melhor assim.
A mulher que a gerara e nunca pôde chamar de mãe, tivera outros filhos. Todos com pais diferentes. Todos entregues a avó para que os criasse. Todos sob a impaciência de uma senhora que não se cansava de repetir: por conta dessa mãe vagabunda de vocês não poderei ter uma velhice tranquila.
Quando chegou sua vez, ela disse estar cansada e aos cinco anos foi entregue a um casal que tinha uma filha.
Não se preocupou em visitá-la uma vez sequer. Quando a deixou, avisou que não chorasse à toa, que fosse uma menina forte e obedecesse aos novos pais. Deveria agradecer por eles aceitarem ficar com ela.
Não foi possível seguir à risca suas ordens, mas obedeceu a tudo que mandavam. Até um dia.
Tinha acabado de completar seis anos quando colocaram o banquinho perto da pia para que tivesse altura para lavar a louça do almoço... e também a do jantar. Soube disso, porque fizeram questão de explicar que não tinham dinheiro para fazer um bolinho para ela.
Num natal, não se recordava com que idade estava, a filha do casal pediu que colocasse sua sandália na janela. Ansiosa, acordou bem cedo no dia seguinte e correu até lá onde encontrou uma boneca de plástico sem os dois olhos e com a boca rasgada. Olhou assustada e escutou o risinho bobo da garota atrás dela. Pegou o brinquedo e abraçou com ele. Não importava, seria sua amiga dali em diante.
Enquanto preparava o almoço ouviu a patroa gritar do quarto:
- Preciso sair mais cedo hoje. Esse cheirinho está me dando água na boca.
Sempre gostou dos elogios dela sobre sua comida, mas desta vez não foi possível sorrir.
Era uma boa mulher. Costumava sentar na cadeira da cozinha e ficavam conversando. Caso precisasse de algo, sempre procurava ajudar.
O passado insistiu mais uma vez e lembrou-se das surras que levava e de quando ficava de castigo em pé no sol. Por horas. Na pele trazia os sinais provocados pelas feridas por conta de uma fivela de cinto.
Havia um casal na redondeza que vivia discutindo com estes com quem ela morava. Pareciam pessoas boas e por mais de uma vez percebeu uma expressão de pena enquanto a observavam.
Depois de algum tempo, a mulher passou a visitá-la quando não havia ninguém em casa. Levava algo para que ela comesse e ficava puxando assunto.
Num desses dias quando varria a área da frente ela chegou. Tentou se esconder, mas insistiu chamando-a. Ao se aproximar, percebeu uma expressão de nojo em seu rosto. Não por ela, mas por aqueles que haviam feito o corte em sua testa e deixado as marcas de cigarro em suas pernas. Abraçou-a e chorando juntas prometeu que daria um jeito naquilo. Dias depois eles a tiraram dali em um carro emprestado e a levaram para outra cidade. Deixaram-na com uma senhora que morava sozinha e a visitavam todos os meses.
Foram seus anjos.
Nunca perguntou o que aconteceu depois que sumiu de casa.
- A comida está pronta? Vou comer correndo. Claro que estou atrasada de novo.
- Coloquei na mesa dona Sandra.
- Nossa! Está igual ao da minha avó. Seu tempero é ótimo. Se sobrar um pouquinho como à noite também.
E riu um riso claro. De gente em paz.
Gostava de trabalhar naquele lugar.
Sobraria tudo. Não seria capaz de sentir esse gosto outra vez.
Sorriu lembrando-se da filhinha fazendo cara de emburrada por não querer o jantar e o marido explicando que ela devia agradecer em ter o que comer, o que não acontecia com muitas crianças.
Sorriu de novo ao lembrar-se que tinha uma família que era sua esperando por ela.
10/03/2015