Frases nem tão soltas XXIII
21/01/2017 | 18h52
Frases nem tão soltas XXIII Cândida Albernaz Brinco de me entregar. De me colocar num melhor lugar onde possa ouvir o barulho da água, absorver o frescor do vento, aspirar o cheiro de mato. Brinco de tentar enxergar além dos olhos. Enquanto brinco, vivo. * Muitas vezes o peso de viver me deixa próximo ao chão. Então me lembro que se apoiar as duas mãos consigo o impulso necessário para me levantar. Se juntá-las em oração a força se torna maior ainda. * Coloco-me a correr em pensamentos para que assim possa fugir do que é feio no interior do outro. Não adianta. Melhor enfrentar para não permitir que aquela sujeira contamine. * Silêncio porque os sonhos bons estão trazendo anjos para seu dormir. Eles murmuram um falar doce que encanta e nina como um balanço de colo de mãe. * Se quiser me convidar para dançar, não se acanhe. Apenas faço questão que me deixe experimentar voar. * No quarto escuro percebi uma pequena fresta de luz. Aproximei-me e entendi que bastava. * Não gosto de procurar e não me encontrar, por isso faço questão de ser exatamente o que sinto. * Tire-me do chão sem usar as mãos. Faça-me leve no querer para que eu perceba o exato momento em que o amor prevaleceu. * Entre abraços permaneço, entre braços me escondo protegendo quem sou apesar das urgências que a vida provoca. * Não me peça para falar quando naquele instante a única coisa que consigo fazer é sentir. Sou incapaz de descrever em palavras o que vem acompanhado de dor. * Não coloque o amargo em minha vida. Não gosto de precisar reagir ao que não ofereceria ao outro. * Sempre acreditarei antes de duvidar, porque confundirei com espelho o que tenho diante de mim. Inocência pode ser. * Através da cortina o vento sopra sussurros. É a noite que chega com seus segredos. * Não gosto de solidão. Ela traz um vento gelado que congela a alma. * Tente entender meu silêncio. Ele costuma vir carregado de emoções. Ele é meu sentir sem coragem de falar. * Às vezes tranco meu sorriso com chaves minúsculas, mas são tantas que demoro horas e horas até juntar todas para soltá-lo de novo.  
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Sonhos que não descansam
21/01/2017 | 18h52
Sonhos que não descansam Cândida Albernaz Sentia frio. As cortinas balançavam com o vento através da janela aberta. Tentou puxar a coberta, mas não a encontrou. Tateando pegou uma ponta e trouxe o resto que havia caído no chão. Sempre tivera mal dormir, como dizia sua mãe. Quantas vezes acordara atravessada na cama com as pernas pendendo para fora? Sonhava demais, talvez fosse isso. Sonhos pesados, cansativos, onde estava procurando algo que não encontrava, correndo até lugar nenhum ou subindo escadas que não tinham fim. Na maioria das vezes acordava exausta parecendo não ter dormido. Aquela noite não havia sido diferente. Cobriu-se, mas o frio não acabava e então resolveu levantar-se e fechar a janela que esquecera aberta na noite anterior. Pronto. Agora não dormiria mais. Tinha uma facilidade enorme para perder o sono. Olhou o relógio e viu que ainda era cedo. Quatro horas! Não conseguiria estar atenta a tudo durante o decorrer do dia. E esse não seria um dia qualquer. Hoje precisava conseguir o que esperava há tempo. O melhor era descer e beber um leite morno, pois sua cabeça fervilhava. Às oito horas teria que estar disposta, apresentável e com uma aparência tranquila, mesmo que em seu interior estivesse ocorrendo o oposto. Tomou banho, lavou os cabelos e desistiu de escová-los. Queria que a visse como era e não usaria nada que modificasse sua forma ou jeito de ser. Era importante que fosse assim. Depois de pronta sentou-se no tapete e puxou uma caixa de cima da mesinha. Abriu e começou a ver as fotos pela milésima vez. Quantas vezes estivera sentada neste mesmo lugar, mexendo nesta mesma caixa e sofrendo? Hoje seria diferente, guardaria suas forças para o que pretendia encontrar. Sete horas. Pegou as chaves do carro, encaminhou-se para a porta e desceu. Dirigiu-se para o lugar combinado e quando chegou ainda faltava algum tempo para o horário do encontro. Não conseguia sentar, ficou andando de um lado para o outro. Ouviu um barulho e quando virou viu uma menina de cinco anos, de mãos dadas com uma mulher que parecia nervosa. Ficou observando as duas se aproximarem. Sentia seu coração disparar, parecendo que sairia do peito. Não pôde desviar os olhos. Tanto tempo esperara por esse instante e agora que chegara, sentia uma enorme vontade de sair correndo. Não faria isso, até porque suas pernas pesavam e não sairiam do lugar. Quando percebeu, parecendo então voltar a si, viu que as duas paradas a sua frente a olhavam esperando algum sinal de reconhecimento. Então ouviu a voz daquela que um dia fora sua melhor amiga: - Você está se sentindo bem? Tocava-a no ombro enquanto demonstrava sinal de preocupação. Baixou os olhos até a menina que sorria e a observava. Devia estar com uma cara engraçada e a garota parecia estar se divertindo com isso. - Não se preocupe, estou bem. Enquanto falava, agachou-se e rosto a rosto com a criança sentiu as lágrimas escorrerem. Ela então se escondeu atrás da senhora que a acompanhava. - Querida, esta é a pessoa de quem falei. Vamos dê um abraço. Obediente ela abriu os bracinhos e enlaçou seu pescoço. Talvez a tenha apertado um pouco demais, porque logo tentou se afastar. - Vá, vá brincar um pouco. Vou conversar com nossa nova amiga. - Sim, mamãe. E saiu correndo em direção a um brinquedo. - Obrigada por tê-la trazido. - Eu prometi. Espero que você também cumpra sua parte. - Não se preocupe, não falarei nada. Só preciso que me deixe estar com ela de vez em quando, acompanhar seu crescimento um pouco mais de perto, conquistar seu querer. - Sabe que quando precisou eu a ajudei. Quando não pôde ou não quis cuidar de sua filha, larguei a cidade em que morava, transferi de emprego e cuidei dela como se fosse minha. Era meu sonho ter um filho e não podia. - Eu sei. - Não suportaria agora que tentasse tirá-la de mim. E ela não aceitaria. Sou sua mãe agora e sempre! Chorava reconhecendo que a outra falava a verdade. Se tentasse contar para a filha que era ela sua verdadeira mãe, como explicaria tê-la abandonado, porque preferia o mundo do vício àquele bebezinho que a irritava tanto quando resmungava por cólica, ou sujava a fralda ou? Sabia que era tarde. Largara as drogas há um ano e seis meses. Mas até quando? Não se julgava forte o suficiente para garantir um futuro ao lado da filha. Já acontecera outras vezes e voltara. Sentiu uma mãozinha segurando a sua. - Venha, brinque comigo. Vou fazer com que pare de chorar. Mamãe, diga a ela que sei fazer isso. Deixou que ela a puxasse para a beira do lago e mostrasse os peixinhos que havia ali. Sorriu esquecendo-se de si mesma, começou a falar sobre os diferentes tipos de peixes e inventou algumas histórias sobre eles. A garota ria e o sorriso dela fazia com que risse também. O tempo passou e já era hora de voltar. Ao se despedir perguntou: - Vocês poderiam voltar aqui ou deixar que eu vá até sua cidade para encontrá-las? A mulher olhou-a e respondeu: - Eu ligo para você. Espero que fique bem. Ficou observando até que as duas sumiram de sua visão. Estava feliz. Não sabia qual fora a última vez em que se sentira assim. Mas agora era hora de voltar para casa, para seus sonhos onde sempre procurava algo, corria para lugar nenhum ou subia escadas que não tinham fim. Um dia seria diferente.
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Terra dividida
21/01/2017 | 18h52
Terra dividida Cândida Albernaz - Ô cara, vê se me erra. Deu para ficar atrás de mim. - Você sabe o motivo. É meu amigo e estou preocupado. - Sei, e não quero falar sobre esse assunto. - Isso ainda vai acabar mal. Vocês precisam resolver. - Vai acabar mal para eles porque estou de saco cheio. Virou as costas, saiu andando e resmungando. Desceu a ladeira até a lanchonete que ainda estava fechada. Perdeu a hora por causa da conversa com o amigo, que o pegara na saída de casa. Costumava abrir bem cedo, pois tinha fregueses que gostavam de tomar o cafezinho em pé, no balcão. O pão, que esquentava na chapa na hora, já trazia da padaria costumeira. Levantou a porta de aço enquanto cumprimentava Maria Rosa, sua ajudante, que estava aguardando. - Atrasou hoje, seu Jamil. Não respondeu, apenas acenou com a cabeça e sorriu. Tinha fama de brincalhão, gostava de rir com os fregueses e contar piadas. Alguns chegavam, escolhiam “pão com manteiga e queijo minas, por favor”; e liam o jornal que já traziam debaixo do braço. Outros queriam “um cafezinho, estou com pressa”; e bebiam o mais rápido que podiam, soprando o líquido para que não queimasse a boca. E tinha aqueles que sempre pediam que contasse uma piada nova. Atendia a todos da mesma forma, com um sorriso de fora a fora. Hoje se sentia diferente, não queria conversa. O amigo tirara sua vontade de rir. Sabia que precisava resolver essa história logo. Era uma pendenga que vinha de anos. Sua família e a de Antônio diziam serem donos do mesmo local. Na verdade, o primeiro a chegar ali fora seu pai, que comprou a área do finado Jacinto. Depois de uns meses, o pai de Antônio quis se chegar também, dizendo que o filho do falecido havia vendido para ele. Ainda tinha o tal do inventário, herança e papéis falsos. Não era letrado e não entendia muito do tema, mas o pai morrera por causa disso e não entregaria nada de mão beijada. Já procurara um advogado para cuidar de tudo e explicara a situação. Por mais que o doutor falasse, não conseguia entender direito. Só sabia que não abriria mão daquele lugar. Fora de seu pai, agora era dele e um dia deixaria para o filho. Quem sabe ele tiraria proveito dali, porque por hora, só deu aborrecimento ter aquele pedaço de terra. Quando seu pai apareceu morto, todo mundo sabia quem havia matado e o porquê. Ninguém tinha como provar. Enquanto sua mãe velava o corpo do marido com alguns filhos, são oito ao todo, o mais velho foi à casa de Antônio, arrastou o pai dele para fora e quase decepou o pescoço do homem com uma foice. Deixou o velho estrebuchando no chão e saiu correndo tentando fugir. Não foi longe. A polícia o pegou no meio do mato, ainda com a roupa suja de sangue. Está preso até hoje. O mais novo do Antônio, que está com dezessete anos, jurou vingança pelo avô e está esperando que o “assassino desgraçado” saia da cadeia. Às vezes pensa em desistir, que já tem muito sangue nessa terra, que não quer os filhos metidos nisso, mas seus irmãos não permitem. Soube que Antônio andou ameaçando um deles. Não gosta de briga, mas também não gosta de ameaça. Dia desses tomou conhecimento que seu filho havia se estranhado com o pessoal do lado de lá. Não queria que chegasse neles, mas parece que não tem jeito. O menino o ajuda na lanchonete todas as tardes, porque pela manhã estuda. Ia fechar quando viu Antônio se aproximando com os dois moleques, filhos dele. - Foi esse aí que tentou te pegar na covardia? - Esse mesmo. – o mais alto dos garotos respondia enquanto se escondia atrás do pai. - O que está havendo? Acho melhor saírem daqui porque estamos fechando. Olhou para o filho que encarava os três com ar de desafio. - Não quero briga. Aqui é meu local de trabalho. Vá embora Antônio e ensine seus filhos a se defenderem sozinhos. - Como é que é? - Isso mesmo. Só falta a mamãe deles aqui também. - Seu filho é um covarde. Juntou com mais dois para pegar o meu. - Mentira! Foi esse palhaço aí quem chamou um amigo e vieram para cima de mim. Acabei com os dois. – o filho de Jamil sorria com deboche enquanto falava. A reação de Antônio foi rápida. A faca que trazia na cintura, girou no ar e acertou o peito do garoto. Jamil olhou o filho que tombou no chão. Ajoelhou e segurando a cabeça do rapaz, não percebeu que Antônio em suas costas, preparava-se para acertá-lo. Moveu-se na hora e a faca afundou em seu ombro. Virou-se e retirando-a foi para cima do outro cravando com força em sua barriga. Puxou e enfiou novamente. Os meninos correram para chamar alguém. Pegou o filho no colo. Tinha que salvá-lo. Foi para a rua e cambaleando pediu ajuda. Não era homem de briga e nem queria ficar remoendo aquele assunto do terreno, mas não tinha mais jeito. Não poderia voltar atrás.
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Frases nem tão soltas XXII
21/01/2017 | 18h52
Frases nem tão soltas XXII Cândida Albernaz   Queria guardar aquele momento de felicidade para que quando precisasse pudesse buscá-lo na mente e então compreender que é possível. * Há risos que me fazem rir, mesmo quando são apenas lembrados. Risos de filhas bebidos numa tarde. * Na cama de folhas secas caídas do bambuzal sentia os pés afundar. O crec-crec provocado por elas parecia música ao seu ouvido. O estar bem transforma o simples em muito. * Gosto de escutar o que meu coração diz no lugar do que minha mente insiste em repetir. * Conte uma história bem bonita, alguma onde eu possa esconder dentro dela o mau sentir que às vezes me domina. Tão bem escondido que nunca mais encontre. * Vista seu melhor olhar e entregue num bom dia com quem cruzar pelo caminho. * Em alguns momentos ia em frente não porque queria, mas porque não sabia mudar o rumo. E era com a vida a empurrando que seguia adiante. Se ela não transcorresse por si só ficaria parada em algum ponto do nada. * Se hoje estou feliz e amanhã não, fecho os olhos e trago a felicidade de ontem para dentro do peito. E então assim, aos poucos ele vai sorrindo de novo. * Um mais um, nem sempre é igual a dois. Dois menos um pode ser igual a você inteiro outra vez. * Quando posso ir além, vou buscando-querendo vida, brincando de me entregar, enxergando atrás do que permite o olhar. * Quando o erro é seu, não tente culpar o outro. É no mínimo ridículo e no máximo covarde. * Não sou tranquila ou calma. Sou passional. Unhas, dentes e coração misturados entre amor e viver. * A carência pode fazer com que você se agarre a quase nada. * Não imagina o quão distante pode-se ir do outro. Basta que este se sinta ignorado. E quando estiver bem longe não pense em buscá-lo porque já terá se reencontrado e certamente não precisará de você. * Que em nossos caminhos existam mais flores que pedras. E quando estas surgirem saibamos aproveitar para calçar o lugar onde pisaremos com segurança.  
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Frases nem tão soltas XXI
21/01/2017 | 18h52
  Frases nem tão soltas XXl Cândida Albernaz Quer brincar de se esconder? Eu não. Cansada de fechar os olhos e contar até o infinito sem nunca encontrar. * Diga apenas uma vez, baixinho em meu ouvido o que quero escutar. Quem sabe assim faça o eco necessário para eu acreditar. * A folha de papel em branco esvoaça de um lado a outro por conta do vento. Se tivesse nela escrita o peso das palavras, poderia assentar sobre a mesa com a tranquilidade do bastar. * A camisola de seda rosa cobria a pele agora vermelha pelo fogo interno que a consumia. * O vento se escondia entre a mata verde e gritava vezes seguidas atrapalhando os sussurros da brisa que teimava em ser mais forte. Mesmo não sendo, assim se tornava por sua persistência em permanecer. * Às risadas misturavam-se os corpos nuns, como se cada poro gargalhasse em cócegas provocadas pelo cheiro do outro. * Tento inúmeras vezes transformar o sentir no escrever com a alma. * Oração: Bom dia de agradecer por cada pedaço de pele que sentimos, por cada som de riso que ouvimos, por tudo que ainda sonhamos, por toda gentileza que recebemos e damos, por cada dia que nos é consentido viver, por todo aroma que nos faz suspirar, por todo tempo que pensávamos estar perdendo quando na verdade estávamos somando, por tudo que não conseguimos e quando pudemos enxergar entendemos que não obtermos foi exatamente o que hoje nos faz sorrir e por todas as pequenas felicidades que temos que acrescentadas umas às outras nos permite perceber o tanto que somos abençoados. * E vezes e vezes se contiveram não dizendo o que sentiam. Era o medo de não ouvirem de volta o que esperavam. * Um tanto aqui, outro tanto ali, foi juntando pedaços de alegrias até completar uma felicidade inteira. * Da alma escaparam as luzes. Para a alma elas voltarão. Não há melhor abrigo para se estar, nem melhor forma de se doar. * Dentro de mim quero sol, cores, suaves aromas, flutuar como paina ao sopro de vento. Preciso ser leve para que peso algum me pretenda no chão. Afinal do que gosto mesmo é poder voar, e se não tenho asas nas costas me coloco um lápis na mão. * Não queira que me desdobre em mil. Sei ser apenas uma de cada vez. Diferentes e única.
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Se a luz estiver acesa, sento na varanda
21/01/2017 | 18h52
Se a luz estiver acesa, sento na varanda Cândida Albernaz Onde escolhi ficar está escuro. Pequenas mesas de madeira, um balcão decorado com descansos de copos, garrafas variadas, e um sujeito gordo e desconfiado lavando o que estava sujo. Por diversas vezes o copo à minha frente ficou cheio do líquido transparente. Apenas eu e um casal que discute sem parar, ocupa o bar a esta hora. Não vejo o motivo que algumas pessoas têm de saírem juntas se cada uma direciona sua atenção para um lado diferente da outra ou para brigarem. Se não têm o que dizer, vão para um cinema ou fiquem em suas casas. Estou sentado nesta cadeira desde a hora em que o bar abriu. O garçom veio me incomodar por três vezes para saber se quero comer algo. A resposta, a mesma: só mais uma purinha, por favor. Ele agora resolveu me deixar de lado. Ainda bem. Não faz ideia do quanto sou resistente. Escolhi este lugar onde não me conhecem. Proposital. Não gosto de solidão, até temo, mas no momento não tenho outra opção. Na noite passada, eu e Sílvia discutimos pela enésima vez e me pediu que saísse de casa. Argumentei, gritei e quase a agredi. No fim, resolvemos que eu dormiria e iria embora pela manhã, quando acordasse. Não sabia para onde, e ainda não sei. Está entardecendo. Alguns postes de luz começam a iluminar o asfalto do lado de fora. Durante a discussão, os meninos saíram do quarto assustados e eu ordenei que voltassem para a cama. Tiago, de quatro anos, começou a chorar. Sílvia olhou-me com ódio e os acompanhou. Pela porta entreaberta pude ver que ela passava a mão pelos cabelos dele enquanto cantava baixinho uma dessas canções de ninar. Esse quadro sempre me emocionou: Sílvia e nossos filhos. Ela muda quando está com os dois. Entrega-se como nunca se entregou a mim. Costuma dizer que são crianças e precisam dela, e eu, homem crescido, já com escolhas na vida posso me cuidar. Eram amores diferentes. Intensos os dois, ela repetia. Este foi o ponto chave: escolhas. Ela afirma que tive oportunidades para fazê-las. Eu respondo que não é bem assim. O jogo e a bebida foram entrando aos poucos no meu cotidiano e com o tempo, não consegui me desvencilhar. Na semana anterior, perdi nosso carro numa rodada. Só contei ontem, depois de beber muito e cobrar dela o que fez, onde esteve e com quem. Durante as perguntas percebia o olhar de pena que dirigia. Ultimamente é dessa forma que me enxerga. Até que falei no carro, que não estava em oficina nenhuma, como eu havia dito antes, que havia perdido no jogo, que se ela pensava que ia ter o carro de volta para ficar na vadiagem, se enganava e que eu não havia nascido para corno. Sua maneira de ver, com compaixão, foi mudando e fixou olhos frios na minha direção. Senti o medo na hora! Comecei a murmurar arrependimento do que falava quando estava de porre, das acusações injustas, do jogo que não conseguia largar, mas que agora o faria de qualquer jeito, das bebedeiras que me fez perder momentos importantes entre nós dois e nossos filhos... Notei que não escutava mais. Esperou que eu calasse a boca e falou pausadamente... para que não tenha dúvidas sobre o que quero, se você não sair, vou para a casa de meus pais. Em seguida entro com o pedido de separação e provo para o juiz sua incapacidade com os meninos. Vai ter hora marcada para vê-los... Não entendia que não era pelos filhos, quando resolvi sair hoje de manhã. Os pais moravam a mil quilômetros daqui e eu não poderia olhar para ela quando necessitasse. Enrolei para ir embora, mas quando a vi sair do quarto das crianças, tive certeza de que não havia mudado de opinião. Coloquei algumas peças de roupa numa bolsa e me arrastei até a rua. A essa hora eles estão se preparando para dormir. O que será que ela disse aos meninos? Não seria a primeira noite que não volto para casa. Ainda não estranhariam minha ausência. Sinto que não voltará atrás. Nunca havia visto tanta firmeza ao falar, nem a falta de amor por mim que pude entender agora. Não me queria mais. O bar vai fechar. Não resolvi aonde ir. Talvez caminhe para casa e pare em frente ao portão. Se tiver alguma luz acesa, sento na varanda até que se apague. Então decido o que fazer.  
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Antes tarde do que nunca
21/01/2017 | 18h52
Antes tarde do que nunca Cândida Albernaz   Sabe aqueles dias em que você pensa que não vai aguentar? Parece que o mundo resolveu cair sobre suas costas e o peso é tanto que dá vontade de desistir. Pois é, hoje a sensação é de desespero. Vai passar, ela reconhece. Desde que Gustavo entrou em seu caminho sente-se cada vez mais num emaranhado e com dificuldade de encontrar a saída. Parece que ele suga suas forças e quando vai embora leva toda energia junto. Quando se envolveu com ele achou que tiraria de letra e se safaria assim que tivesse vontade. Não conseguiu que fosse desse jeito. Ele esgota qualquer um com suas manias e ideias. Conheceu Gustavo numa dessas noites que saiu com as amigas para falar mal dos homens e rir delas mesmas. Ele chegou sozinho e como conhecia Sílvia, pediu para sentar. A princípio achou que era um chato metido a gostoso, hoje tem certeza. Conversa vai, conversa vem, deu o telefone para ele. Quando saíram dali Sílvia avisou que era casado há alguns anos e a mulher, muito ciumenta. Argumentou que ele não ligaria para ela e que se isso acontecesse dificilmente teriam alguma coisa. Ficou claro que tinham temperamentos diferentes. Ela da noite, gostava de sair, dançar, ir ao teatro e detestava sol. Ele do dia, dos amigos, do futebol e da cerveja. Não disse na época, mas hoje sabe que é das mulheres também. Menos a dele, claro. Ligou em dois dias e depois de alguma insistência, combinaram de beber algo na saída do trabalho. Conversaram muito e ele falou de sua insatisfação na vida. Nunca caíra nessa. No entanto talvez estivesse mais carente do que o normal. Envolveram-se e ele frequenta seu apartamento todas as semanas. Sempre as quartas e uma passada rápida um dia ou outro. Na cama, mudou muito desde a primeira vez. Tornou-se metódico e começou a seguir rituais no antes e depois quando sempre pergunta: foi bom para você?. Odeia. Quando percebeu, não saía mais com as amigas porque ele gosta de ligar a noite. Não dança porque ele não sabe dançar. Não vai ao teatro porque alguém conhecido pode vê-los. Sua vida resumiu-se a esperar por ele e pelas quartas-feiras nem tão boas assim. Só pode ter viciado em Gustavo, apenas isso explica o fato de estar com ele. Outro dia ela tentou conversar dizendo que era melhor que se separassem. Chorou como criança e acabaram na cama. Engraçado como nas vezes em que tentou largá-lo, o sexo feito depois foi melhor. Costumam discutir sobre qualquer coisa. Na verdade ele procura confusão com tudo. Suas amigas reclamam que mudou e não tem tempo para elas. Gustavo gosta de chegar, encontrar a cerveja gelada e se tiver jogo naquela noite, só conversam depois que acaba. E tem que ficar sentada ao lado dele vibrando falsamente com os gols que acontecem. Se o time pelo qual ele torce, perde, ouve uma série de palavrões e comentários que não interessam. O sexo nesse dia é uma merda. Até no trabalho essa relação está influenciando. É decoradora e toda vez que sai para ver um apartamento, casa ou qualquer ambiente, ele quer saber se vai sozinha e se o cliente é homem ou mulher. Caso seja homem, ele enche com seu machismo fora de moda. Não sabe como acabou vivendo uma relação de casada com um homem que deveria ser apenas um caso. Hoje tomou uma decisão. Ele chorando ou não, xingando ou não, vai pedir que não volte mais. Precisa cuidar dela mesma porque o peso que carrega agora seja físico o mental, está insuportável.Tem saudades de quem era. Ligou para Sílvia e combinaram de sair. Quer rir com vontade e tomar um porre. Só não pretende falar mal dos homens, porque dessa vez é ela quem pode acabar a noite chorando. Na verdade, nem quer lembrar que existem.
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Frases nem tão soltas XX
21/01/2017 | 18h52
Frases nem tão soltas XX Cândida Albernaz O peso nas pernas a impedia de andar com rapidez. Não percebeu quando se permitiu não mais viver. * Muitas vezes seus pensamentos galopam enquanto com passos curtos tenta controlá-los. Bom mesmo seria poder correr junto com eles. * Braços demais sufocam. Lembram-me tentáculos. * Gosto de quem tem uma face, duas dão trabalho. No final nunca saberei com quem estou falando. * Alguns dias precisam ser cerzidos. Se conseguirmos fazer bem feito ninguém perceberá o rasgo agora escondido. * Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós que mesmo procurando não conseguimos nos achar. * Parece que foi ontem que tomou a decisão de encarar o mundo. De frente. Até então costumava andar meio de lado com olhos fugidios apenas percebendo que havia um brilho a sua volta. * Devíamos ser seduzidos todos os dias. Sempre um pouquinho que é para não gastar tudo de uma só vez. * Nunca suportou vícios. Ninguém que provocasse dependência poderia fazê-la feliz. * Costuma deixar a janela entreaberta ao deitar para que a luz da lua ilumine sonhos que insistem em mostrar um beco escuro. * Anseio por serenidade como quem precisa de ar. * Muitas vezes peço que meus pensamentos se calem, mas parecem fazer questão de fingir não ouvir. * Em alguns momentos bate uma ventania interna quebrando o sentir em pequenas partes  fazendo cacos voarem sem rumo espalhando pedaços que não se colam mais. * Desejava fugir para algum lugar onde o nada fosse a única coisa que poderia fazer. Parece bom? Não, cansativo. * Precisava sentir-se acarinhada todo o tempo. Com palavras lambidas, olhares escancarados, sorrisos que molham a alma, mãos ansiosas. Precisava sentir-se viva. 30/04/15  
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Mais uma vez em casa
21/01/2017 | 18h52
Mais uma vez em casa                                                Cândida Albernaz A cancela azul estava quase coberta por um mato alto. Conseguia ver a casa, não muito grande, cercada por uma varanda que um dia fora branca. Os vidros das janelas, quebrados. Mal se via da estrada o telhado escurecido pelo tempo. Duas pequenas flores roxas teimavam em existir, dando colorido à paisagem devastada. Escutou o latido conhecido. Não era possível. A imaginação brincava com ele. Fechou os olhos e esperou que o som se repetisse. Um, dois, três minutos, quieto. Só o balançar das folhas pelo vento. Novo latido. Precisava encontrá-lo. Quantos anos fazia? No dia em que foram embora, enquanto colocavam as últimas coisas no carro, sentiu sua falta. Assoviou como era costume. Nada. Entrou no quarto da irmã e olhou embaixo da única cama que ficaria. Vazio. Procurou por toda a casa. Para que se esconder logo agora? Ouviu a mãe chamando por ele. Já vou, gritou enquanto corria para o lado oposto. Rompeu por entre as árvores. Nenhum som. Não iria sem ele. Ganhou no aniversário de dez anos. Um labrador preto, que se atrapalhava com as pernas que pareciam crescer rápido demais. O pai gritava que seria melhor que aparecesse logo, caso contrário... Sabia o que significava caso contrário. Uma surra com o cinto que estivesse usando. Sempre achou perceber uma expressão de prazer no rosto do pai quando batia nele. Descia a mão com vontade e a mãe chorando pedia que o deixasse em paz. Ele então virava- se e a ameaçava com o cinto também. Nunca foi além disso. Não encostava a mão na irmã ou na mãe. O problema era com ele. E enquanto apanhava ouvia que homem para ser homem, tinha que ser tratado de forma rígida. Fora assim com ele, era com o filho e esperava que fizesse o mesmo com o neto que viria um dia. Jamais encostou a mão no próprio filho. Olhou para o carro onde o menino e a mulher esperavam. Sorriu e avisou através de sinais que o portão estava aberto e iria entrar. Ela balançou a cabeça, mas não falou nada. Sabia que não ia adiantar. Sempre teimoso. Mais uma vez o latido. Foi até o carro onde estavam os pais e a irmã e pediu que o ajudassem a encontrar seu cachorro. Que cachorro que nada. Para onde vamos não tem espaço para animais. Olhou suplicando para a mãe que abaixou a cabeça demonstrando impotência. Vem Alfredo, vem, depois voltamos para pegar ele, a irmã tentava convencê-lo. Ameaçou voltar a procurar e recebeu um tapa no rosto. Não era a primeira vez que odiava aquele pai, mas tentou controlar o que seu rosto teimava em mostrar e pediu que esperasse só um pouco. - Acho que Valente foi atrás de algum bicho e logo, logo volta, cansado da corrida inútil precisando de água. Sentiu o corpo magro, de garoto com doze anos, ser levantado do solo e jogado dentro do carro. Nesta hora sua cabeça bateu no teto e, em seguida, lágrimas desceram. Quando o carro começou a se mover, o choro aumentou. Ouviu um cala a boca e a mãe se desculpando por ele, dizendo que o menino bateu a cabeça, deve estar doendo. Na verdade ela sabia que a dor que ele sentia era no peito. Dor forte, que sufocava. Foi afastando o mato e abrindo caminho. Precisava ver de perto de onde vinha o som tão familiar. Embaixo do pé de jabuticaba, que um dia fora cheia de frutos, estava um cão preto de um ano mais ou menos. Não parecia ser puro. Ali já entrava uma ou outra raça. Mas lindo. Aproximou-se e acarinhou o focinho. Ele encostou o corpo maltratado em sua calça. Saiu andando e chamou-o. Começou a segui-lo. Quando chegou perto do carro ouviu um ah não! da mulher. O filho deu um pulo no banco e arregalou um sorriso de ponta a ponta da orelha. Deixa mãe. Por favor, deixa. Alisava o pelo do animal. Alfredo ficou olhando-a e mudo, pediu o mesmo. - Não acredito que está fazendo isso comigo, Alfredo. Está bem, está bem. Entre logo nesse carro antes que me arrependa. Antes de entrar, pegou uma escova e passou por todo o corpo de Valente, claro que este seria seu nome. Forrou o banco com um lençol e o acomodou ali. Durante o trajeto para casa, olhou várias vezes pelo retrovisor. Os olhos do filho brilhavam como os seus teriam brilhado um dia.
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Frases nem tão soltas XIX
21/01/2017 | 18h52
Frases nem tão soltas XIX Cândida Albernaz Quantas luas é preciso para fazer sonhar? Às vezes basta meia lua ou apenas uma estrela. * Estava sentado no mesmo lugar não sabia mais há quanto tempo. Quando tentou se levantar achou que não conseguiria. Viu-se preso por correntes que adquirira com o passar dos anos. Teve receio que fosse para sempre. Não era. Quando as tocou percebeu que só o medo de ser livre as prendia. Nunca estiveram com cadeados. * Seguiu passos que não eram seus. Confiou e subiu cada pé em um par de pés que pertenciam a outro. Fechou os olhos e por isso não percebeu que aqueles caminhavam para o abismo. * Quando abriu a gaveta descobriu-a vazia, mas não se recordava de haver retirado nada de dentro dela. Puxou pela memória e então pôde lembrar-se que naquele lugar apenas guardara o que a fizera sofrer. * Se disser que não quero mais estarei mentindo. Sempre vou querer mais e mais sem me cansar nunca de tanto querer. Se é um defeito, tenho dentro dele uma qualidade: o de querer. * Correu de um lado para o outro como se fosse tonta. Girou em volta do corpo e permitiu que os cabelos cobrissem a visão. Sem enxergar era impossível coordenar os passos. Na queda que se seguiu foi que entendeu o preço a ser pago. * Resolveu que era hora de mudar. Puxou o cabelo para o alto e amarrou-o com uma fita. Pintou a boca de vermelho e vestiu seu sonho mais bonito. Através dos olhos que agora possuíam cor, enxergou que seu brilhar se refletia no outro. * Quando penso alegrias é como se houvessem borboletas dentro de mim. Pensar alegrias me fazem voar. * E a dor vem logo depois do sentir bem. Como se estar feliz fosse demais para suportar. * Quer mesmo é conseguir escrever o sentir. Escrever sem parar, colocando para fora qualquer dor para que só no papel ela permaneça. * Como algumas pessoas conseguem buscar no vocabulário da vida as palavras que mais doem? Saem como vômitos espalhando sujeira por todo lado. * Às vezes as palavras me fogem e fica apenas o sentir gritando nos olhos. * Após cada vendaval, enganava-se agindo como se não fosse com ela. Apenas um filme irritante e triste que assistia da confortável poltrona que desenhara na mente. * Em alguns dias o corpo se fechava em torno de si mesma quase a sufocando. Era um abraço de tentáculos que a apertavam além do conforto. * Ilusão é o que nos faz viver o que não é para ser vivido.             15/04/15
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Candida Albernaz

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