Se a luz estiver acesa, sento na varanda
Se a luz estiver acesa, sento na varanda
Cândida Albernaz
Onde escolhi ficar está escuro. Pequenas mesas de madeira, um balcão decorado com descansos de copos, garrafas variadas, e um sujeito gordo e desconfiado lavando o que estava sujo. Por diversas vezes o copo à minha frente ficou cheio do líquido transparente. Apenas eu e um casal que discute sem parar, ocupa o bar a esta hora. Não vejo o motivo que algumas pessoas têm de saírem juntas se cada uma direciona sua atenção para um lado diferente da outra ou para brigarem. Se não têm o que dizer, vão para um cinema ou fiquem em suas casas.
Estou sentado nesta cadeira desde a hora em que o bar abriu. O garçom veio me incomodar por três vezes para saber se quero comer algo. A resposta, a mesma: só mais uma purinha, por favor. Ele agora resolveu me deixar de lado. Ainda bem. Não faz ideia do quanto sou resistente. Escolhi este lugar onde não me conhecem. Proposital.
Não gosto de solidão, até temo, mas no momento não tenho outra opção.
Na noite passada, eu e Sílvia discutimos pela enésima vez e me pediu que saísse de casa. Argumentei, gritei e quase a agredi. No fim, resolvemos que eu dormiria e iria embora pela manhã, quando acordasse. Não sabia para onde, e ainda não sei. Está entardecendo. Alguns postes de luz começam a iluminar o asfalto do lado de fora.
Durante a discussão, os meninos saíram do quarto assustados e eu ordenei que voltassem para a cama. Tiago, de quatro anos, começou a chorar. Sílvia olhou-me com ódio e os acompanhou. Pela porta entreaberta pude ver que ela passava a mão pelos cabelos dele enquanto cantava baixinho uma dessas canções de ninar. Esse quadro sempre me emocionou: Sílvia e nossos filhos. Ela muda quando está com os dois. Entrega-se como nunca se entregou a mim. Costuma dizer que são crianças e precisam dela, e eu, homem crescido, já com escolhas na vida posso me cuidar. Eram amores diferentes. Intensos os dois, ela repetia.
Este foi o ponto chave: escolhas. Ela afirma que tive oportunidades para fazê-las. Eu respondo que não é bem assim. O jogo e a bebida foram entrando aos poucos no meu cotidiano e com o tempo, não consegui me desvencilhar.
Na semana anterior, perdi nosso carro numa rodada. Só contei ontem, depois de beber muito e cobrar dela o que fez, onde esteve e com quem. Durante as perguntas percebia o olhar de pena que dirigia. Ultimamente é dessa forma que me enxerga. Até que falei no carro, que não estava em oficina nenhuma, como eu havia dito antes, que havia perdido no jogo, que se ela pensava que ia ter o carro de volta para ficar na vadiagem, se enganava e que eu não havia nascido para corno.
Sua maneira de ver, com compaixão, foi mudando e fixou olhos frios na minha direção. Senti o medo na hora! Comecei a murmurar arrependimento do que falava quando estava de porre, das acusações injustas, do jogo que não conseguia largar, mas que agora o faria de qualquer jeito, das bebedeiras que me fez perder momentos importantes entre nós dois e nossos filhos...
Notei que não escutava mais. Esperou que eu calasse a boca e falou pausadamente... para que não tenha dúvidas sobre o que quero, se você não sair, vou para a casa de meus pais. Em seguida entro com o pedido de separação e provo para o juiz sua incapacidade com os meninos. Vai ter hora marcada para vê-los...
Não entendia que não era pelos filhos, quando resolvi sair hoje de manhã. Os pais moravam a mil quilômetros daqui e eu não poderia olhar para ela quando necessitasse.
Enrolei para ir embora, mas quando a vi sair do quarto das crianças, tive certeza de que não havia mudado de opinião. Coloquei algumas peças de roupa numa bolsa e me arrastei até a rua.
A essa hora eles estão se preparando para dormir. O que será que ela disse aos meninos? Não seria a primeira noite que não volto para casa. Ainda não estranhariam minha ausência.
Sinto que não voltará atrás. Nunca havia visto tanta firmeza ao falar, nem a falta de amor por mim que pude entender agora. Não me queria mais.
O bar vai fechar. Não resolvi aonde ir. Talvez caminhe para casa e pare em frente ao portão. Se tiver alguma luz acesa, sento na varanda até que se apague. Então decido o que fazer.