Terra dividida
candida 01/07/2015 23:26
Terra dividida Cândida Albernaz - Ô cara, vê se me erra. Deu para ficar atrás de mim. - Você sabe o motivo. É meu amigo e estou preocupado. - Sei, e não quero falar sobre esse assunto. - Isso ainda vai acabar mal. Vocês precisam resolver. - Vai acabar mal para eles porque estou de saco cheio. Virou as costas, saiu andando e resmungando. Desceu a ladeira até a lanchonete que ainda estava fechada. Perdeu a hora por causa da conversa com o amigo, que o pegara na saída de casa. Costumava abrir bem cedo, pois tinha fregueses que gostavam de tomar o cafezinho em pé, no balcão. O pão, que esquentava na chapa na hora, já trazia da padaria costumeira. Levantou a porta de aço enquanto cumprimentava Maria Rosa, sua ajudante, que estava aguardando. - Atrasou hoje, seu Jamil. Não respondeu, apenas acenou com a cabeça e sorriu. Tinha fama de brincalhão, gostava de rir com os fregueses e contar piadas. Alguns chegavam, escolhiam “pão com manteiga e queijo minas, por favor”; e liam o jornal que já traziam debaixo do braço. Outros queriam “um cafezinho, estou com pressa”; e bebiam o mais rápido que podiam, soprando o líquido para que não queimasse a boca. E tinha aqueles que sempre pediam que contasse uma piada nova. Atendia a todos da mesma forma, com um sorriso de fora a fora. Hoje se sentia diferente, não queria conversa. O amigo tirara sua vontade de rir. Sabia que precisava resolver essa história logo. Era uma pendenga que vinha de anos. Sua família e a de Antônio diziam serem donos do mesmo local. Na verdade, o primeiro a chegar ali fora seu pai, que comprou a área do finado Jacinto. Depois de uns meses, o pai de Antônio quis se chegar também, dizendo que o filho do falecido havia vendido para ele. Ainda tinha o tal do inventário, herança e papéis falsos. Não era letrado e não entendia muito do tema, mas o pai morrera por causa disso e não entregaria nada de mão beijada. Já procurara um advogado para cuidar de tudo e explicara a situação. Por mais que o doutor falasse, não conseguia entender direito. Só sabia que não abriria mão daquele lugar. Fora de seu pai, agora era dele e um dia deixaria para o filho. Quem sabe ele tiraria proveito dali, porque por hora, só deu aborrecimento ter aquele pedaço de terra. Quando seu pai apareceu morto, todo mundo sabia quem havia matado e o porquê. Ninguém tinha como provar. Enquanto sua mãe velava o corpo do marido com alguns filhos, são oito ao todo, o mais velho foi à casa de Antônio, arrastou o pai dele para fora e quase decepou o pescoço do homem com uma foice. Deixou o velho estrebuchando no chão e saiu correndo tentando fugir. Não foi longe. A polícia o pegou no meio do mato, ainda com a roupa suja de sangue. Está preso até hoje. O mais novo do Antônio, que está com dezessete anos, jurou vingança pelo avô e está esperando que o “assassino desgraçado” saia da cadeia. Às vezes pensa em desistir, que já tem muito sangue nessa terra, que não quer os filhos metidos nisso, mas seus irmãos não permitem. Soube que Antônio andou ameaçando um deles. Não gosta de briga, mas também não gosta de ameaça. Dia desses tomou conhecimento que seu filho havia se estranhado com o pessoal do lado de lá. Não queria que chegasse neles, mas parece que não tem jeito. O menino o ajuda na lanchonete todas as tardes, porque pela manhã estuda. Ia fechar quando viu Antônio se aproximando com os dois moleques, filhos dele. - Foi esse aí que tentou te pegar na covardia? - Esse mesmo. – o mais alto dos garotos respondia enquanto se escondia atrás do pai. - O que está havendo? Acho melhor saírem daqui porque estamos fechando. Olhou para o filho que encarava os três com ar de desafio. - Não quero briga. Aqui é meu local de trabalho. Vá embora Antônio e ensine seus filhos a se defenderem sozinhos. - Como é que é? - Isso mesmo. Só falta a mamãe deles aqui também. - Seu filho é um covarde. Juntou com mais dois para pegar o meu. - Mentira! Foi esse palhaço aí quem chamou um amigo e vieram para cima de mim. Acabei com os dois. – o filho de Jamil sorria com deboche enquanto falava. A reação de Antônio foi rápida. A faca que trazia na cintura, girou no ar e acertou o peito do garoto. Jamil olhou o filho que tombou no chão. Ajoelhou e segurando a cabeça do rapaz, não percebeu que Antônio em suas costas, preparava-se para acertá-lo. Moveu-se na hora e a faca afundou em seu ombro. Virou-se e retirando-a foi para cima do outro cravando com força em sua barriga. Puxou e enfiou novamente. Os meninos correram para chamar alguém. Pegou o filho no colo. Tinha que salvá-lo. Foi para a rua e cambaleando pediu ajuda. Não era homem de briga e nem queria ficar remoendo aquele assunto do terreno, mas não tinha mais jeito. Não poderia voltar atrás.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS