Mais uma vez em casa
candida 23/04/2015 11:59
Mais uma vez em casa                                                Cândida Albernaz A cancela azul estava quase coberta por um mato alto. Conseguia ver a casa, não muito grande, cercada por uma varanda que um dia fora branca. Os vidros das janelas, quebrados. Mal se via da estrada o telhado escurecido pelo tempo. Duas pequenas flores roxas teimavam em existir, dando colorido à paisagem devastada. Escutou o latido conhecido. Não era possível. A imaginação brincava com ele. Fechou os olhos e esperou que o som se repetisse. Um, dois, três minutos, quieto. Só o balançar das folhas pelo vento. Novo latido. Precisava encontrá-lo. Quantos anos fazia? No dia em que foram embora, enquanto colocavam as últimas coisas no carro, sentiu sua falta. Assoviou como era costume. Nada. Entrou no quarto da irmã e olhou embaixo da única cama que ficaria. Vazio. Procurou por toda a casa. Para que se esconder logo agora? Ouviu a mãe chamando por ele. Já vou, gritou enquanto corria para o lado oposto. Rompeu por entre as árvores. Nenhum som. Não iria sem ele. Ganhou no aniversário de dez anos. Um labrador preto, que se atrapalhava com as pernas que pareciam crescer rápido demais. O pai gritava que seria melhor que aparecesse logo, caso contrário... Sabia o que significava caso contrário. Uma surra com o cinto que estivesse usando. Sempre achou perceber uma expressão de prazer no rosto do pai quando batia nele. Descia a mão com vontade e a mãe chorando pedia que o deixasse em paz. Ele então virava- se e a ameaçava com o cinto também. Nunca foi além disso. Não encostava a mão na irmã ou na mãe. O problema era com ele. E enquanto apanhava ouvia que homem para ser homem, tinha que ser tratado de forma rígida. Fora assim com ele, era com o filho e esperava que fizesse o mesmo com o neto que viria um dia. Jamais encostou a mão no próprio filho. Olhou para o carro onde o menino e a mulher esperavam. Sorriu e avisou através de sinais que o portão estava aberto e iria entrar. Ela balançou a cabeça, mas não falou nada. Sabia que não ia adiantar. Sempre teimoso. Mais uma vez o latido. Foi até o carro onde estavam os pais e a irmã e pediu que o ajudassem a encontrar seu cachorro. Que cachorro que nada. Para onde vamos não tem espaço para animais. Olhou suplicando para a mãe que abaixou a cabeça demonstrando impotência. Vem Alfredo, vem, depois voltamos para pegar ele, a irmã tentava convencê-lo. Ameaçou voltar a procurar e recebeu um tapa no rosto. Não era a primeira vez que odiava aquele pai, mas tentou controlar o que seu rosto teimava em mostrar e pediu que esperasse só um pouco. - Acho que Valente foi atrás de algum bicho e logo, logo volta, cansado da corrida inútil precisando de água. Sentiu o corpo magro, de garoto com doze anos, ser levantado do solo e jogado dentro do carro. Nesta hora sua cabeça bateu no teto e, em seguida, lágrimas desceram. Quando o carro começou a se mover, o choro aumentou. Ouviu um cala a boca e a mãe se desculpando por ele, dizendo que o menino bateu a cabeça, deve estar doendo. Na verdade ela sabia que a dor que ele sentia era no peito. Dor forte, que sufocava. Foi afastando o mato e abrindo caminho. Precisava ver de perto de onde vinha o som tão familiar. Embaixo do pé de jabuticaba, que um dia fora cheia de frutos, estava um cão preto de um ano mais ou menos. Não parecia ser puro. Ali já entrava uma ou outra raça. Mas lindo. Aproximou-se e acarinhou o focinho. Ele encostou o corpo maltratado em sua calça. Saiu andando e chamou-o. Começou a segui-lo. Quando chegou perto do carro ouviu um ah não! da mulher. O filho deu um pulo no banco e arregalou um sorriso de ponta a ponta da orelha. Deixa mãe. Por favor, deixa. Alisava o pelo do animal. Alfredo ficou olhando-a e mudo, pediu o mesmo. - Não acredito que está fazendo isso comigo, Alfredo. Está bem, está bem. Entre logo nesse carro antes que me arrependa. Antes de entrar, pegou uma escova e passou por todo o corpo de Valente, claro que este seria seu nome. Forrou o banco com um lençol e o acomodou ali. Durante o trajeto para casa, olhou várias vezes pelo retrovisor. Os olhos do filho brilhavam como os seus teriam brilhado um dia.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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