Frases nem tão soltas XIX
Frases nem tão soltas XIX
Cândida Albernaz
Quantas luas é preciso para fazer sonhar? Às vezes basta meia lua ou apenas uma estrela.
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Estava sentado no mesmo lugar não sabia mais há quanto tempo. Quando tentou se levantar achou que não conseguiria. Viu-se preso por correntes que adquirira com o passar dos anos. Teve receio que fosse para sempre. Não era. Quando as tocou percebeu que só o medo de ser livre as prendia. Nunca estiveram com cadeados.
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Seguiu passos que não eram seus. Confiou e subiu cada pé em um par de pés que pertenciam a outro. Fechou os olhos e por isso não percebeu que aqueles caminhavam para o abismo.
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Quando abriu a gaveta descobriu-a vazia, mas não se recordava de haver retirado nada de dentro dela. Puxou pela memória e então pôde lembrar-se que naquele lugar apenas guardara o que a fizera sofrer.
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Se disser que não quero mais estarei mentindo. Sempre vou querer mais e mais sem me cansar nunca de tanto querer. Se é um defeito, tenho dentro dele uma qualidade: o de querer.
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Correu de um lado para o outro como se fosse tonta. Girou em volta do corpo e permitiu que os cabelos cobrissem a visão. Sem enxergar era impossível coordenar os passos. Na queda que se seguiu foi que entendeu o preço a ser pago.
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Resolveu que era hora de mudar. Puxou o cabelo para o alto e amarrou-o com uma fita. Pintou a boca de vermelho e vestiu seu sonho mais bonito. Através dos olhos que agora possuíam cor, enxergou que seu brilhar se refletia no outro.
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Quando penso alegrias é como se houvessem borboletas dentro de mim. Pensar alegrias me fazem voar.
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E a dor vem logo depois do sentir bem. Como se estar feliz fosse demais para suportar.
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Quer mesmo é conseguir escrever o sentir. Escrever sem parar, colocando para fora qualquer dor para que só no papel ela permaneça.
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Como algumas pessoas conseguem buscar no vocabulário da vida as palavras que mais doem? Saem como vômitos espalhando sujeira por todo lado.
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Às vezes as palavras me fogem e fica apenas o sentir gritando nos olhos.
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Após cada vendaval, enganava-se agindo como se não fosse com ela. Apenas um filme irritante e triste que assistia da confortável poltrona que desenhara na mente.
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Em alguns dias o corpo se fechava em torno de si mesma quase a sufocando. Era um abraço de tentáculos que a apertavam além do conforto.
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Ilusão é o que nos faz viver o que não é para ser vivido.
15/04/15