Sonhos que não descansam
Sonhos que não descansam
Cândida Albernaz
Sentia frio. As cortinas balançavam com o vento através da janela aberta. Tentou puxar a coberta, mas não a encontrou. Tateando pegou uma ponta e trouxe o resto que havia caído no chão.
Sempre tivera mal dormir, como dizia sua mãe. Quantas vezes acordara atravessada na cama com as pernas pendendo para fora?
Sonhava demais, talvez fosse isso. Sonhos pesados, cansativos, onde estava procurando algo que não encontrava, correndo até lugar nenhum ou subindo escadas que não tinham fim. Na maioria das vezes acordava exausta parecendo não ter dormido.
Aquela noite não havia sido diferente.
Cobriu-se, mas o frio não acabava e então resolveu levantar-se e fechar a janela que esquecera aberta na noite anterior. Pronto. Agora não dormiria mais. Tinha uma facilidade enorme para perder o sono.
Olhou o relógio e viu que ainda era cedo. Quatro horas! Não conseguiria estar atenta a tudo durante o decorrer do dia. E esse não seria um dia qualquer. Hoje precisava conseguir o que esperava há tempo.
O melhor era descer e beber um leite morno, pois sua cabeça fervilhava. Às oito horas teria que estar disposta, apresentável e com uma aparência tranquila, mesmo que em seu interior estivesse ocorrendo o oposto.
Tomou banho, lavou os cabelos e desistiu de escová-los. Queria que a visse como era e não usaria nada que modificasse sua forma ou jeito de ser. Era importante que fosse assim.
Depois de pronta sentou-se no tapete e puxou uma caixa de cima da mesinha. Abriu e começou a ver as fotos pela milésima vez.
Quantas vezes estivera sentada neste mesmo lugar, mexendo nesta mesma caixa e sofrendo? Hoje seria diferente, guardaria suas forças para o que pretendia encontrar.
Sete horas. Pegou as chaves do carro, encaminhou-se para a porta e desceu.
Dirigiu-se para o lugar combinado e quando chegou ainda faltava algum tempo para o horário do encontro. Não conseguia sentar, ficou andando de um lado para o outro.
Ouviu um barulho e quando virou viu uma menina de cinco anos, de mãos dadas com uma mulher que parecia nervosa.
Ficou observando as duas se aproximarem. Sentia seu coração disparar, parecendo que sairia do peito.
Não pôde desviar os olhos. Tanto tempo esperara por esse instante e agora que chegara, sentia uma enorme vontade de sair correndo. Não faria isso, até porque suas pernas pesavam e não sairiam do lugar. Quando percebeu, parecendo então voltar a si, viu que as duas paradas a sua frente a olhavam esperando algum sinal de reconhecimento. Então ouviu a voz daquela que um dia fora sua melhor amiga:
- Você está se sentindo bem? Tocava-a no ombro enquanto demonstrava sinal de preocupação.
Baixou os olhos até a menina que sorria e a observava. Devia estar com uma cara engraçada e a garota parecia estar se divertindo com isso.
- Não se preocupe, estou bem. Enquanto falava, agachou-se e rosto a rosto com a criança sentiu as lágrimas escorrerem.
Ela então se escondeu atrás da senhora que a acompanhava.
- Querida, esta é a pessoa de quem falei. Vamos dê um abraço.
Obediente ela abriu os bracinhos e enlaçou seu pescoço. Talvez a tenha apertado um pouco demais, porque logo tentou se afastar.
- Vá, vá brincar um pouco. Vou conversar com nossa nova amiga.
- Sim, mamãe.
E saiu correndo em direção a um brinquedo.
- Obrigada por tê-la trazido.
- Eu prometi. Espero que você também cumpra sua parte.
- Não se preocupe, não falarei nada. Só preciso que me deixe estar com ela de vez em quando, acompanhar seu crescimento um pouco mais de perto, conquistar seu querer.
- Sabe que quando precisou eu a ajudei. Quando não pôde ou não quis cuidar de sua filha, larguei a cidade em que morava, transferi de emprego e cuidei dela como se fosse minha. Era meu sonho ter um filho e não podia.
- Eu sei.
- Não suportaria agora que tentasse tirá-la de mim. E ela não aceitaria. Sou sua mãe agora e sempre!
Chorava reconhecendo que a outra falava a verdade. Se tentasse contar para a filha que era ela sua verdadeira mãe, como explicaria tê-la abandonado, porque preferia o mundo do vício àquele bebezinho que a irritava tanto quando resmungava por cólica, ou sujava a fralda ou?
Sabia que era tarde. Largara as drogas há um ano e seis meses. Mas até quando? Não se julgava forte o suficiente para garantir um futuro ao lado da filha. Já acontecera outras vezes e voltara.
Sentiu uma mãozinha segurando a sua.
- Venha, brinque comigo. Vou fazer com que pare de chorar. Mamãe, diga a ela que sei fazer isso.
Deixou que ela a puxasse para a beira do lago e mostrasse os peixinhos que havia ali.
Sorriu esquecendo-se de si mesma, começou a falar sobre os diferentes tipos de peixes e inventou algumas histórias sobre eles. A garota ria e o sorriso dela fazia com que risse também.
O tempo passou e já era hora de voltar.
Ao se despedir perguntou:
- Vocês poderiam voltar aqui ou deixar que eu vá até sua cidade para encontrá-las?
A mulher olhou-a e respondeu:
- Eu ligo para você. Espero que fique bem.
Ficou observando até que as duas sumiram de sua visão.
Estava feliz. Não sabia qual fora a última vez em que se sentira assim.
Mas agora era hora de voltar para casa, para seus sonhos onde sempre procurava algo, corria para lugar nenhum ou subia escadas que não tinham fim.
Um dia seria diferente.