Antes tarde do que nunca
candida 07/05/2015 09:18
Antes tarde do que nunca Cândida Albernaz   Sabe aqueles dias em que você pensa que não vai aguentar? Parece que o mundo resolveu cair sobre suas costas e o peso é tanto que dá vontade de desistir. Pois é, hoje a sensação é de desespero. Vai passar, ela reconhece. Desde que Gustavo entrou em seu caminho sente-se cada vez mais num emaranhado e com dificuldade de encontrar a saída. Parece que ele suga suas forças e quando vai embora leva toda energia junto. Quando se envolveu com ele achou que tiraria de letra e se safaria assim que tivesse vontade. Não conseguiu que fosse desse jeito. Ele esgota qualquer um com suas manias e ideias. Conheceu Gustavo numa dessas noites que saiu com as amigas para falar mal dos homens e rir delas mesmas. Ele chegou sozinho e como conhecia Sílvia, pediu para sentar. A princípio achou que era um chato metido a gostoso, hoje tem certeza. Conversa vai, conversa vem, deu o telefone para ele. Quando saíram dali Sílvia avisou que era casado há alguns anos e a mulher, muito ciumenta. Argumentou que ele não ligaria para ela e que se isso acontecesse dificilmente teriam alguma coisa. Ficou claro que tinham temperamentos diferentes. Ela da noite, gostava de sair, dançar, ir ao teatro e detestava sol. Ele do dia, dos amigos, do futebol e da cerveja. Não disse na época, mas hoje sabe que é das mulheres também. Menos a dele, claro. Ligou em dois dias e depois de alguma insistência, combinaram de beber algo na saída do trabalho. Conversaram muito e ele falou de sua insatisfação na vida. Nunca caíra nessa. No entanto talvez estivesse mais carente do que o normal. Envolveram-se e ele frequenta seu apartamento todas as semanas. Sempre as quartas e uma passada rápida um dia ou outro. Na cama, mudou muito desde a primeira vez. Tornou-se metódico e começou a seguir rituais no antes e depois quando sempre pergunta: foi bom para você?. Odeia. Quando percebeu, não saía mais com as amigas porque ele gosta de ligar a noite. Não dança porque ele não sabe dançar. Não vai ao teatro porque alguém conhecido pode vê-los. Sua vida resumiu-se a esperar por ele e pelas quartas-feiras nem tão boas assim. Só pode ter viciado em Gustavo, apenas isso explica o fato de estar com ele. Outro dia ela tentou conversar dizendo que era melhor que se separassem. Chorou como criança e acabaram na cama. Engraçado como nas vezes em que tentou largá-lo, o sexo feito depois foi melhor. Costumam discutir sobre qualquer coisa. Na verdade ele procura confusão com tudo. Suas amigas reclamam que mudou e não tem tempo para elas. Gustavo gosta de chegar, encontrar a cerveja gelada e se tiver jogo naquela noite, só conversam depois que acaba. E tem que ficar sentada ao lado dele vibrando falsamente com os gols que acontecem. Se o time pelo qual ele torce, perde, ouve uma série de palavrões e comentários que não interessam. O sexo nesse dia é uma merda. Até no trabalho essa relação está influenciando. É decoradora e toda vez que sai para ver um apartamento, casa ou qualquer ambiente, ele quer saber se vai sozinha e se o cliente é homem ou mulher. Caso seja homem, ele enche com seu machismo fora de moda. Não sabe como acabou vivendo uma relação de casada com um homem que deveria ser apenas um caso. Hoje tomou uma decisão. Ele chorando ou não, xingando ou não, vai pedir que não volte mais. Precisa cuidar dela mesma porque o peso que carrega agora seja físico o mental, está insuportável.Tem saudades de quem era. Ligou para Sílvia e combinaram de sair. Quer rir com vontade e tomar um porre. Só não pretende falar mal dos homens, porque dessa vez é ela quem pode acabar a noite chorando. Na verdade, nem quer lembrar que existem.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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