Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Um olhar pode nos fazer continuar ou estancar. Um olhar desnuda ou assusta. Ou assusta porque desnuda
*
Encoste minha cabeça em seu peito, me afague os cabelos, faça com que seus braços me apertem o corpo. Quero me sentir em casa.
*
Não quero me conhecer totalmente. É entediante o conhecimento total, sem possibilidade de descobertas. Surpreendo-me comigo muitas vezes.
*
Muitas vezes preciso ficar quieta com os medos que absorvo. No silêncio finjo que não existem e engano-os rindo de mim.
*
Não sei chegar de mansinho com meus sentimentos. Se forem bons ou ruins, eles caem no colo do outro como uma bigorna.
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Então posso escolher abrir o portão e descobrir que onde parecia ter apenas mato, havia flores.
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Não consigo entender pessoas que não enxergam minha ansiedade e agem como se o tempo não passasse.
*
Muitas vezes é na ironia que escondo do outro o que mais me assusta e deixa exposta.
*
Meu lado sonhador vive me pregando peças.
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Se todos os sonhos fossem possíveis eu guardaria alguns para serem realizados aos poucos e outros para que permanecessem sonhos. Estes seriam guardados em meios sorrisos como segredos.
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O silêncio pode ser nossa melhor companhia.
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Quero te contar um segredo. Ninguém pode saber. Mas se eu te contar quem mais ouviria de você um segredo que era só meu? Agora meu e seu?
*
As palavras que saem da boca numa discussão não parecem ter ordem alguma. Atropelam o outro e te engolem.
*
Não gosto quando testam minha paciência. Porque ela é pouca. É curta. É quase nenhuma.
*
Não pare por julgar que o tempo passou. Ele nunca passa o bastante.
*
Se encontrarmos motivo para sorrir, pode ser por um nadica de nada, o brilho do sorriso é tão contagiante que nos carrega para um dia inteiro de paz.
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Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Porque a melhor parte pode ser esperar pelo dia seguinte. E hoje já é o dia seguinte!
*
No silêncio a mente discute sem parar. No silêncio chora um pranto que não quer externar. No silêncio busca um abraço que não ousa pedir. O silêncio é só um jeito de falar.
*
Após alguns vendavais procurava agir como se não fosse com ela. Sentada numa confortável poltrona desenhada na mente, plantava um sorriso nos lábios e assistia a tudo como a um filme triste e irritante.
*
Não havendo coragem para ser, finjo que me invento.
*
Só é necessário sentir ao redor do corpo, braços que abraçam com força.
*
Sabemos que não é possível ser completamente feliz. Mas infeliz devemos escolher não ser.
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Às vezes temo meus segredos, porque eles guardam meus desejos.
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O para sempre é igual ao nunca mais. Os dois são tão longos que nos fazem desistir.
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Venha assim, através de mim me mostrar caminhos que não vivi.
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Sabe por qual porta quero passar? Na que me concede a liberdade de seguir em frente.
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Talvez o melhor fosse sentir menos, mas então não seria quem sou.
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Só uma parte dela estava ali. A melhor. A outra deixara para trás. Não voltaria para buscar.
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Com os olhos falo o que penso, o que quero, o que não deveria. Com os olhos enxergo o mundo com as cores da minha cartela.
*
Estou na fase dos porquês. Não perguntas. Respostas.
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Consegue ver os pingos de água na pele? É só orvalho porque as lágrimas estão contidas.
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Hoje um passarinho me contou que as asas que carrego me farão voar. Não muito alto. Nem muito longe. Apenas até a distância do sonho realizado.
*
E quando bem velhinha eu for, que me encontrem murchinha, assanhada e sempre querendo mais da vida.
*
Em alguns dias o corpo se fechava em torno de si mesma quase a sufocando. Era um abraço de tentáculos que a apertavam além do conforto.
*
Ansiava fugir para algum lugar onde o nada fosse a única coisa que poderia fazer. Parece bom? Não, cansativo.
A medalhinha de tia Iaiá
21/01/2017 | 18h53
A medalhinha de tia Iaiá
Cândida Albernaz
- Querem ver o que tenho escondido na mão? – sorria largo enquanto as mãos eram colocadas nas costas para em seguida disparar numa corrida.
As pernas compridas e ágeis pareciam não tocar o chão. De vez em quando olhava para trás para medir a distância em que se encontrava dos amigos. Nunca conseguiam alcançá-lo. Em todas estas disputas era sempre ele quem ganhava.
Algumas vezes, no meio da brincadeira via-se obrigado a voltar porque a tia chamava por ele.
- Antônio! Onde você está moleque? Preciso de ajuda.
Então corria para casa ao mesmo tempo em que gritava aos amigos.
- Depois a gente continua. Não me pegariam mesmo! - e ria acenando para eles.
Os garotos se afastavam com caras chateadas por ver o término da brincadeira.
Entrou afobado pela porta da cozinha e localizou a tia usando como sempre um avental e um lenço vermelho cobrindo o cabelo, preparando o almoço. Olhava para ela e pensava o quanto era grande com aqueles peitos enormes onde tantas vezes buscou colo. Brava e carinhosa. No coração era ela sua mãe.
Vinha um cheiro gostoso da panela. Tirou a tampa de uma delas para ver o que continha.
O tapa veio rápido na ponta dos dedos.
- Não mexe! Olha essas mãos sujas!
- Galinha ao molho pardo. Ah! tia, que bom! Sabe que adoro. Fez por minha causa, não foi?
- Menino metido. Acha que tudo o que faço é por você? – falava e os olhos desmentiam o que dizia. Gostava de agradá-lo.
- Preciso que vá ao mercado para mim e não demore.
Ela passara dos quarenta há algum tempo e não se casara, então adotou a família da irmã caçula como sua. Fora noiva aos dezoito anos, mas o rapaz morreu num acidente poucos dias antes do casamento. Nunca mais teve um namoro sério. Ainda guardava com ela a foto tirada no dia do noivado.
Na verdade, a irmã tirara a sorte grande em ter Iaiá por perto, porque ela era fraca, doente dos nervos, tornava-se agressiva de vez em quando necessitando de medicamentos fortes e não conseguia dar conta da casa, dos filhos e do marido. Este era um santo. Sempre que a mulher tinha uma crise, cuidava dela como de uma criança. Foi ele quem pediu que Iaiá os ajudasse e fosse morar com eles. Ela adorava os sobrinhos e não escondia a predileção por Antônio. Um bom garoto. Até comida dava na boca da mãe, limpando com um pano os restos quando escorriam. Tinha paciência.
A tia era para ele a mãe que não tivera e jamais negava seus pedidos. Sentia pena dela. Apesar de jovem, percebera a muito que ela abdicara de sua vida para viver a deles.
Ultimamente Iaiá reclamava de dores de cabeça que passaram a vir com mais frequência. Corria a ajudá-la a cada senão que sentia. Puxava uma cadeira e a obrigava a sentar-se. Às vezes conseguia, depois de certa insistência, colocá-la deitada enquanto preparava compressas para que pusesse na testa.
Outro dia ouviu o pai e a tia discutindo porque ele queria que ela fosse ao médico.
- Deixe de bobagem. Não tenho nada. Logo, logo isso passa. – ela cortava.
No caminho de volta com a farinha de trigo e o fermento que fora comprar, parou quando viu a irmã chorando na varanda.
- O que houve?
- A tia Iaiá...
- O que tem ela?
- A mãe teve um daqueles ataques e lançou um pedaço de ferro na cabeça dela.
Antes que terminasse de falar, Antônio saiu em disparada, jogando longe a sacola que tinha na mão. Parou ao entrar na sala. A tia, suja de sangue estava deitada no sofá da sala, onde o pai a havia colocado.
- Antônio, vá chamar um médico depressa.
Naquele lugarejo em que moravam tudo era perto e não demorou muito para voltar com o doutor que pediu uma ambulância, já que ela permanecia sem sentidos.
Não a viu mais com vida depois desse dia. O pai explicou que a pressão dela subira demais, que tivera isso e aquilo, que ficou complicado...
Antônio, de cabeça baixa foi para a rua. Viu os amigos parados na esquina.
- E aí Antônio? Ainda tem alguma coisa escondida na mão?
Abriu-a e olhou o cordão com a medalhinha da tia, que agora lhe pertencia. Ela nunca o tirava do pescoço.
Fechou os dedos com força e gritou:
_ Tenho algo precioso, mas não vão saber o que é.
Em seguida correu, passando pelos colegas que começaram a rir e a persegui-lo.
A gritaria e as risadas ecoavam longe.
Tivera sorte
21/01/2017 | 18h53
Tivera sorte
Cândida Albernaz
Acordou bem cedo. Não dera cinco horas ainda. Como todos os dias, o caminhão não demorou a chegar para pegar seu marido e os outros que ali viviam. Trabalhavam na mesma lavoura.
Gostava de preparar o feijão fresquinho para Nelson levar. E hoje em especial porque ontem ele trouxe um pouco de linguiça. Colocou na panela para que cozinhasse junto. Seria o almoço da família. Melhor deixar o arroz que tinha para amanhã. Seria feito com alguns legumes plantados por ela. Cuidava com carinho daquela pequena horta. Afinal, fora aquela abóbora ou couve ou quiabo a única refeição do dia por inúmeras vezes.
Esquentou a água e deixou o pó de café ferver e só então despejou no coador de pano. O líquido amarelo claro que saía não era tão forte como gostariam, mas o cheiro estava delicioso. Os dois pães que fizera com que sobrasse do dia anterior, seria dividido entre eles.
Claudinha e Genilson dormiam encolhidos no colchonete que dividiam. Oito e dez anos e compridos como o pai. Daqui a pouco seria impossível compartilhar aquele espaço colado à parede.
Tivera sorte em não engravidar de novo.
Viviam em dois cômodos e mais um banheiro que Nelson fez. Muitos moradores daquela área faziam suas necessidades num buraco atrás do barraco. Ainda bem que seu marido era caprichoso e cuidava deles.
Não bebia como a maioria e não encostava a mão nela. A não ser para exigir carinho quando a vontade do outro apertava. Na época em que se casaram tinha vergonha de tudo, mas Nelson ensinara umas coisas divertidas e vivia andando pelado no quartinho onde moravam. No início abaixava os olhos, mas depois, a curiosidade foi maior e passou a observar detalhes do corpo dele e querer mais e mais.
Quando o filho mais velho começou a crescer, acabou aquele negócio de ficar sem roupa. Teve pena, porque a intimidade deles diminuiu, mas as crianças ocupavam boa parte de seu tempo.
Tinha dó de algumas vizinhas. Os companheiros batiam nelas sem piedade. Por qualquer motivo. Parecia até que um incentivava o outro. Se um grito era ouvido num barraco, em seguida vinha em mais um. Elas não tinham muita escolha. Grande parte dos que se alojaram ali vinham de longe. Tudo sem família por perto. Trabalhar na cidade era luxo para poucas e as casadas com filhos pequenos eram obrigadas a ficar para cuidar deles.
Dia desses uma delas revidou: a Anamaria. Danada que só ela. Tiveram que arrumar um carro para levar o marido ao hospital mais próximo. Lançou mão de um leite que fervia e jogou em cima dele depois que recebeu um soco na barriga. O homem chorava feito criança, mas nem sabia se tinha compaixão dele.
Todos saíram de suas casas para ver e observou que muitas mulheres sorriam escondendo a boca com as mãos. E olhe que não morriam de amores pela Anamaria, porque ela costumava se meter com todos. Mas tiveram o sentimento de estar sendo defendidas.
Naquela noite não se ouviu gritaria ou xingamento.
Depois que Nelson embarcou, acordou os filhos e foi buscar água para lavar a roupa. Não era muita porque não tinham muito. Aproveitaria o sol.
Eles precisavam preparar o dever de casa. O ônibus parava no ponto às 11h30min e até chegarem a ele, caminhavam por quinze minutos. Iam almoçados e recebiam um lanche na escola.
Ela estava sem trabalhar desde que adoecera do coração. O médico avisou que era isso ou morria. Ficou mais complicado para eles. O dinheiro que trazia ajudava bastante. Mas fazer o que!? Deus queria assim e assim seria.
Rezava sempre para Nelson continuar forte e poder sustentá-la e também os meninos. Deu para bordar uns panos de prato. Uma das vizinhas vendia quando ia para o serviço. As crianças também levavam para o colégio. As professoras, além de pagarem direitinho, ficavam com alguns para oferecerem. Assim, vez ou outra entrava um dinheirinho extra.
Que barulheira fora de hora é essa? Ficam tão poucos neste horário e costuma ser tranquilo.
Anamaria está berrando e não consigo entender direito o que diz.
- Filho da puta! ...mulher. Tem que matar um ...
Cheguei perto e vi a Clarinha caída no chão de terra. O rosto vermelho de sangue.
- Olha o que ele fez com ela! Olha! Ajudem aqui.
Todos chegaram perto e algumas começaram a chorar.
- Arranja um carro rápido! Temos que levar para o hospital.
- Acho que está morta.
Lembro quando a Clarinha chegou há dois anos. Menina ainda, a pele muito preta, os olhos grandes e risonhos. Gostava de conversar e cantar. Voz linda de ouvir. Podia ter sido cantora. As crianças viviam atrás dela para que contasse histórias. Parece que faz muito tempo. Hoje em dia ficava ela sempre trancada com os braços lanhados ou o olho roxo.
Se ela não aguentar, ele não aparece mais por aqui. Se sobreviver, ele volta para bater mais.
Queria carregar Clarinha no meu colo.
Quero que alguém carregue Claudinha no colo quando ela precisar.
Frases nem tão soltas XXVII
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas XXVII
Cândida Albernaz
Quando o procurei com o olhar, fugiu como se não pudesse aguentar. Não percebeu que o peso que temia era apenas seu. Continua ainda a arrastar os pés quando poderia voar.
*
Por instantes deixar-se levar pelo quase não sentir é refrescante.
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Ser motivo da obsessão alheia só vai te fazer mal se você aceitar recebê-la.
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Alguns usam de perversidade com o outro esquecendo que o mundo gira e gira e gira.
*
Toque em mim como se pétala eu fosse. Há dias de galho. Há dias de tronco. Há dias de fruto. Hoje sou flor.
*
Em todas as vezes que pensou não aguentar enxergou ao redor três pares de olhos que reconheciam nela a força que imaginava não possuir.
*
Calma no pensar. Paz no sentir. Sorrir até o rir. Não é preciso muito mais.
*
Se sorriem por mim, se sorriem para mim ilumino por dentro.
*
Gosto de assoviar. Assovio quando estou alegre. Assovio se estou triste. É quase como respirar. A melodia indica o meu sentir.
*
Minha sensibilidade é tão à flor da pele, que só ironizando o que machuca para não sangrar sem parar.
*
Tentei esconder o coração, mas sem que percebesse este se multiplicou para me provocar. Culpa da lua, afirmei. Culpa da noite, respondeu. Culpa da alma que não cansa de tentar, escutei.
*
Mamãe e o Natal
A rabanada dos meus natais não era essa, frita, (que também é deliciosa). Ela era em calda, bem docinha, com pães grandes e encharcados, feita no açúcar e com ameixas enfeitando. Foi o café da manhã de quase todos os vinte e cinco de dezembro da minha existência. Não importava a hora que eu acordasse, ou anos mais tarde, chegasse à casa de mamãe.
Primeiro ainda em casa esperava que minhas filhas abrissem seus presentes deixados na noite anterior, depois que todos estivessem dormindo, em cima dos sapatos colocados ao redor da árvore. E quando acabavam, abria os meus.
Todas tínhamos comentários a fazer após cada embrulho desfeito. Ritual que seguimos até hoje, incluindo agora a Betina. Jamais qualquer presente é aberto sem nos reunirmos uma ao lado da outra.
Só então corríamos para a casa de mamãe, elas para receber o que Papai Noel havia deixado. Eu, para sentir na boca aquele gosto de carinho de mãe com açúcar. Porque era ela quem preparava um dia antes, o doce tão esperado o ano inteiro. Esse sim, o melhor café da manhã que já provei em minha vida. Tenho saudade de muitas coisas boas que sorrio ao recordar, mas esta que chega com dia e mês marcados me enche a boca e os olhos de água.
Frases nem tão soltas XXVI
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas XXVI
Cândida Albernaz
Depois de estar com o peito em agonia, derramar um choro em soluços, o olhar vai para além de você e sem mais nem menos a lembrança de três meninas correndo para disputar seu abraço e três eu te amo em momentos diferentes são recordações que fazem com que um sorriso ameace acontecer. E então você pensa: eu conheço a felicidade mesmo que a tenha esquecido por alguns minutos.
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Quero viver devagar, viver aos pouquinhos para aproveitar cada gole oferecido pela vida.
*
Há dias que sim. Há dias que não. Há dias que tanto faz.
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O perigo de jogar para o alto o que vale a pena, é ter que se agachar mais tarde para catar migalhas.
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De vez em quando desligo o mundo para escutar apenas o som que meu corpo precisa.
*
Quero mergulhar no meio das flores para sair quando eu e elas formos uma só.
*
É noite escura quando os olhos não conseguem enxergar que a vida pode ter brilho próprio. É noite escura se faz questão de não entender que basta querer. É noite escura quando se deixa levar pelo cansaço. Mas também é noite quando deitada em seu travesseiro vai ao encontro de um sono de sonhos que amanhã se realizarão. Porque todo dia é dia de ser feliz.
*
Já possuí um escudo que me protegia de viver até que descobri como quebrá-lo ao meio.
*
Ontem chovia na alma, hoje o sol começa a enxugar a lama provocada. Verei o que ainda posso replantar. Um novo jardim. Outro refazer.
*
Qualquer brisa costumava fazê-la ir longe, e quando isso acontecia sentia-se flutuar. Mas sempre chegava o dia de retornar, aquele em que mesmo não querendo, possuía correntes que a aprisionavam a terra. Então o corpo se fechava em tono de si mesma quase a sufocando. Era um abraço de tentáculos que a apertavam além do conforto.
*
De flores, entre flores continuo a enxergar. Porque no meu mundo particular a decisão sou eu quem toma. E se tenho olhos de sentir, escolho a luz de um dia de sol.
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Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão.
*
Porque só é necessário sentir ao redor do corpo, braços que abraçam com força.
Não me meto desde que
21/01/2017 | 18h53
Não me meto, desde que
Cândida Albernaz
Ontem lá em casa foi uma confusão: ninguém se entendia. Tudo culpa de Zé Antônio, o dono do armazém da esquina. Foi se engraçar pro lado de Cinira, o xodó de papai.
Somos quatro irmãos e Cinira, a mais nova. Tem catorze anos e Zé Antônio, vai pra mais de quarenta.
-Só o que faltava esse tipo vir para cima da minha menina. Não se enxerga. Quebro ao meio esse safado.
Eu olhava para Cinira parada no canto da sala e a cara dela não era tão inocente assim. Qualquer dia desses o pai vai se aborrecer de verdade, porque ela vai arranjar um problema sério.
Divirto-me com as confusões de casa, só não dou muita opinião. Não gosto que se metam na minha vida e não me meto na de ninguém.
Desde que comecei a botar dinheiro em casa, o pai parou de invocar comigo. Perguntou onde estava trabalhando.
-Na oficina do Pedrão.
Perguntou o que fazia lá.
-Pintura.
-Pinta carros? Mas não tem tanto carro assim para pintar.
-O senhor é que pensa. Entendo de motor também.
-Desde quando?
-Desde sempre. Aprendi na curiosidade. Pedrão está satisfeito com meu serviço.
Nunca mais falamos sobre meu trabalho. Quando cheguei a casa com uma televisão e dei a mamãe, ela me olhou esquisito, mas agradeceu.
Dona Marisa nunca foi boba e não se enganava nem comigo nem com Cinira. Dava lá os seus conselhos, rezava por nós e entregava a Deus quando via que não adiantava falar.
Os outros dois irmãos, Célio e Selma, ainda muito crianças, só se preocupavam em brincar.
Dona Marisa era magra e miúda enquanto meu pai era um homem alto e gordo. Os dois, um ao lado do outro, eram meio engraçados. Não pareciam combinar.
A verdade é que ela é quem mandava e ele com aquele tamanhão todo mal entendia o que acontecia à sua volta.
Outro dia vi mãe conversando com Cinira sobre Edmundo, um chapa lá da oficina que não valia nada. Quando ouvi o nome dele, entrei na conversa das duas e falei que não queria Cinira de papo com ele. Ela quis saber por que, se era meu amigo.
-Não é amigo, trabalha comigo e não presta.
-Se trabalha com você...
-Ele gosta mesmo é de emprenhar umas e outras por aí. Muitas vezes, pega as idiotas à força.
-Comigo é diferente, porque não sou boba.
A discussão continuou e quase dei uns tapas nela para calar a boca. À noite ouvi dona Marisa chorando baixinho. Eu sempre digo que ela vê longe.
* * *
Chegou um carro novo essa noite, Pedrão pediu pressa na limpeza e na pintura. Vi que o banco estava sujo de sangue: não é da minha conta.
Limpei tudo e pintei. Levei a madrugada nesse serviço. De manhã entreguei pronto para o Pedrão e dei uma última olhada dentro dele. Vi alguma coisa brilhando num canto da mala do carro. Era uma medalhinha dourada, dessas de Nossa Senhora, igual a minha e dos meus irmãos. Dona Marisa deu uma a cada um de nós, que era para dar proteção. Guardei no bolso da calça: não falei nada com ninguém. Quem trouxe o carro para a oficina foi Edmundo, que esse é o serviço dele: meter um carretão. O nosso é modificar o dito cujo.
Dona Marisa estava no portão quando cheguei. Já passava das dez horas da manhã.
-Viu Cinira?
-Não, mãe. Trabalhei a noite toda.
-Ela não voltou para casa desde ontem.
Coloquei a mão no bolso e a medalhinha parecia de fogo.
Não falei nada e voltei a oficina.
-Cadê Edmundo?
-Deixou o carro aqui e disse que tinha umas coisas para resolver.
Fui até a casa dele e não bati na porta. Com um chute, consegui entrar.
-Onde está ela?
-Ela quem? Tô dormindo e você invade a minha casa desse jeito.
-Vi o carro sujo de sangue e achei a medalha no porta-malas. O que fez com Cinira?
Enquanto falava, fui enfiando a faca que trazia, no braço dele.
-Se não responder rápido, acabo com você aos poucos.
Passei a faca no rosto de Edmundo, de onde escorreu um fio de sangue.
-Dá um tempo, cara. Não sei se ainda tá lá. Deixei na curva do quilômetro sete, você sabe onde é. Não tive culpa, foi ela quem me procurou e se não queria me dar, não devia ter ido atrás de mim. Sei do que essas vadias gostam.
-Cale a boca, seu filho da puta.
A faca enterrou na barriga dele...
* * *
Na estrada de chão vi minha irmã deitada embaixo de uma árvore. Estava suja de sangue e terra. Não me olhou. Peguei seu corpo leve no colo e fui caminhando por dentro do mato, que era para ninguém ver.
Com a cabeça no meu ombro, sentia as lágrimas molharem minha blusa. Uma criança minha irmã.
Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Porque ver através de outros olhos nos leva a descobrir uma nova forma de enxergar.
*
Alguns pensam que podem agradar a Deus e ao diabo ao mesmo tempo. Não vejo como.
*
Quero não temer a solidão. Consegui isso um dia, mas se perdeu nos medos que a vida me provocou.
*
É doloroso se permitir ficar em pedaços. Cada vez que tentamos colar os cacos, algo mesmo que pequeno fica pelo caminho.
*
Caminho com os pés levemente pousados no chão, se piso forte, o peso que carrego no peito certamente me fará afundar.
*
Quero portas abertas onde eu possa passar. Portas fechadas me assustam. E afastam.
*
Algumas vezes coloco a máscara do sou forte para esconder a insegurança escancarada no rosto e na alma.
*
Só sei sentir à flor da pele. Preciso de escudos que me protejam. Nem sempre há tempo de vesti-los. Então me parto em mil.
*
Usei um véu de rendas para cobrir os olhos e enxergar a vida com mais doçura.
*
Tenho vidas que me renovam. Cada vez que penso afogar, um sopro forte me faz abrir os olhos, respirar entre bolhas de água e emergir.
*
Sentada na cadeira de pano com as alças de corda presas na árvore, ela girava. E quanto mais girava, mais ria, e naquele momento pequeno, minúsculo, conseguia esquecer o que lhe dava agonia.
*
Na pia a torneira pinga a água gota a gota provocando um barulho ensurdecedor. Na mente o mesmo pensamento se repete lentamente provocando um sentir enlouquecedor.
*
E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro.
*
Vou sair agora. Não para a rua, mas para fora de mim. Os gritos que ressoam do meu corpo estão me deixando surda. Surda de ter paz.
*
Não me queira o apagar de luzes porque ainda assim pisarei colorido.
*
Após alguns vendavais procurava agir como se não fosse com ela. Sentada numa confortável poltrona desenhada na mente, plantava um sorriso nos lábios e assistia a tudo como a um filme triste e irritante.
Carrego dentro de mim
21/01/2017 | 18h53
Carrego dentro de mim
Cândida Albernaz
Ela corria e esperava não estar sendo seguida. Não outra vez.
Quando fechou a porta estava sem fôlego. Com a respiração agitada olhava em volta se certificando de que ali estaria segura. A sala e os móveis conhecidos foram fazendo com que se acalmasse. Na cozinha, abriu a geladeira e retirou o copo que gostava de manter ali dentro. Hábito adquirido com o pai. O contato do ar quente com o copo gelado, fez com que este embaçasse. Encheu com água e tomou toda de uma só vez.
Puxou a cadeira e sentou. Começava a sentir-se tranquila. Precisava voltar no tempo e entender o que estava acontecendo.
Decidiu morar sozinha há três anos. Cansou de assistir aos porres da mãe, as discussões diárias e as desculpas daqueles dois que não conseguiam ter paz.
Quando a mãe começou a se exceder com a bebida, o pai fazia-se de morto, fingindo não perceber. Não brigava, não exigia, apenas pedia que parasse. Com o tempo cansou, foi o que disse.
Cansou e partiu para a briga. Era por tudo e a qualquer hora.
Se ela levava amigas para estudar, de um momento para o outro, era possível ouvir copos, pratos ou o que estivesse pela frente, sendo quebrado.
A mãe o acusava de indiferença, dizia que tinha outra mulher, e que por isso encontrava consolo na bebida. Se sentisse agradecido por isso. “Pior seria se eu te colocasse um par de chifres ou te enfiasse na cadeia...”.
O pai reagia dizendo que “além de bêbada quer ser vagabunda também”.
Trancava-se no quarto durante a gritaria, ligava o som bem alto ou enfiava-se embaixo da coberta.
Apenas uma vez a mãe agrediu o pai fisicamente. Tinha quinze anos e teve que ajudar. Com um vaso que estava sobre a mesa, acertou em cheio a testa dele. Desmaiou e quando acordou pediu seu auxílio. Procurou pela mãe que dormia no quarto sem se lembrar do estrago feito. Não falaram a verdade para o médico e ele ganhou uma cicatriz na testa que carrega até hoje.
Quando no dia seguinte acordou e viu o que tinha feito, pediu desculpas, beijou o marido de cima abaixo e prometeu parar de beber. Duraram quatro meses sua abstinência e nesse tempo os dois pareciam ter nascido um para o outro.
Decidiu procurar um apartamento para morar quando chegou a casa com um namorado e ele assistiu uma dessas loucuras entre eles.
Ouviu um barulho na sala. Será que a seguiram e conseguiram entrar? Levantou sem fazer barulho, acendeu as luzes. Nada. Já dentro do quarto trancou a porta.
Lembrou-se de outra porta que não tinha chave para que não ficasse presa lá dentro. Ficava à mercê do que estava lá fora.
Dormiu e acordou serena. O trabalho a esperava e não podia atrasar.
Os pais avisaram que a visitariam no domingo. Era a segunda vez que vinham ali. A anterior foi no dia em que se mudou.
Nesse tempo, encontraram-se poucas vezes, e sempre na casa deles.
Prepararia uma massa que aprendera com as amigas da loja onde era gerente de vendas.
Durante o dia chegou a esquecer de seus medos. Não comentou e não comentaria sobre a sensação de estar sendo perseguida.
A loja era perto e não havia necessidade de nenhum tipo de condução.
A noite estava clara e o céu limpo. Chegando perto de casa, ouviu os passos. Olhou para traz e não viu ninguém.
Devia ser imaginação sua. O prédio pequeno e antigo não possuía elevador ou porteiro. Ao abrir o portão na entrada, sentiu a respiração ofegante em seu pescoço. Subiu a escada correndo, entrando e fechando a porta com a chave. Livrou-se dessa vez.
Foi até o quarto e sem trocar de roupa, deitou e cobriu todo o corpo. Em poucos segundos sentiu a respiração pesada do outro a seu lado. Puxou ainda mais a colcha tapando a cabeça. Braços a envolveram e debateu-se, mas a força dele era maior do que a sua. Desistiu de reagir. Sem descobrir a cabeça, pediu mais uma vez.
- Não, pai. Vai me machucar, não quero.
Tinha oito anos novamente.
Frases nem tão soltas XXV
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas XXV
Cândida Albernaz
Colocou as mãos nos olhos escondendo-os do mundo. Pensou que assim fugiria. Mas não era lá fora que a vida pesava. Era no peito que ela ardia.
*
Acreditou em fadas até o dia em que tomando posse da varinha mágica, guardou-a numa gaveta e saiu pelo mundo lutando por seus sonhos.
*
O sono fugiu e alvoroços tomaram conta de sua mente. Saiu catando aqui e ali sorrisos que em algum momento fizeram parte de sua vida. Então virou de lado e em concha adormeceu.
*
Quando hoje os medos tentam dominá-la, vai lá atrás, onde dois olhos cor de mel e um sorriso calmo a faziam entender o quão forte poderia ser.
*
O abismo estava ali, bastava saltar apesar de reconhecer que não possuía asas. Decidiu voltar e com pés firmes percorreu o caminho que lhe era entregue.
*
Era um querer fechar os olhos para deixar que o cansaço do corpo fosse maior que o da alma.
*
Ao virar a cabeça viu que havia luz. Nem tudo era treva. Bastava um gesto.
*
Que não precisemos de grades para nos proteger do mundo. Que dele, do mundo, só nos chegue o amor do próximo.
*
Um dia faltou o chão, em seu lugar um buraco negro que não tinha fim. Se continuasse olhando para baixo aquela escuridão a engoliria. Chamou sua atenção uma nesga de luz vinda de algum lugar e foi essa pequena claridade que a salvou.
*
Um dia de pequenas felicidades nos faz sorrir e entender que viver um dia e outro dia e mais outro é o que nos basta.
*
Quero o meu dia cheio de cores! E não adianta que tentem o contrário, a caixa de lápis de cor está comigo.
*
Levantou-se, limpou da saia a poeira que só ela via e seguiu em frente. O viver a esperava.
*
Se há algo que me enfurece é perceber as lágrimas escorrendo pelo rosto sem que eu permita.
*
Hoje o corpo mostrava um cansaço maior do que o habitual. Culpa da mente exaurida de lutar contra pensamentos que teimavam em permanecer.
*
Correu, correu, correu, e quando pensou que desistiria em suas mãos surgiram pequenos balões que a fizeram sustentar-se no ar.
03-11-15
Sobre o autor
Candida Albernaz
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