A medalhinha de tia Iaiá
candida 17/03/2016 15:57
A medalhinha de tia Iaiá Cândida Albernaz - Querem ver o que tenho escondido na mão? – sorria largo enquanto as mãos eram colocadas nas costas para em seguida disparar numa corrida. As pernas compridas e ágeis pareciam não tocar o chão. De vez em quando olhava para trás para medir a distância em que se encontrava dos amigos. Nunca conseguiam alcançá-lo. Em todas estas disputas era sempre ele quem ganhava. Algumas vezes, no meio da brincadeira via-se obrigado a voltar porque a tia chamava por ele. - Antônio! Onde você está moleque? Preciso de ajuda. Então corria para casa ao mesmo tempo em que gritava aos amigos. - Depois a gente continua. Não me pegariam mesmo! - e ria acenando para eles. Os garotos se afastavam com caras chateadas por ver o término da brincadeira. Entrou afobado pela porta da cozinha e localizou a tia usando como sempre um avental e um lenço vermelho cobrindo o cabelo, preparando o almoço. Olhava para ela e pensava o quanto era grande com aqueles peitos enormes onde tantas vezes buscou colo. Brava e carinhosa. No coração era ela sua mãe. Vinha um cheiro gostoso da panela. Tirou a tampa de uma delas para ver o que continha. O tapa veio rápido na ponta dos dedos. - Não mexe! Olha essas mãos sujas! - Galinha ao molho pardo. Ah! tia, que bom! Sabe que adoro. Fez por minha causa, não foi? - Menino metido. Acha que tudo o que faço é por você? – falava e os olhos desmentiam o que dizia. Gostava de agradá-lo. - Preciso que vá ao mercado para mim e não demore. Ela passara dos quarenta há algum tempo e não se casara, então adotou a família da irmã caçula como sua. Fora noiva aos dezoito anos, mas o rapaz morreu num acidente poucos dias antes do casamento. Nunca mais teve um namoro sério. Ainda guardava com ela a foto tirada no dia do noivado. Na verdade, a irmã tirara a sorte grande em ter Iaiá por perto, porque ela era fraca, doente dos nervos, tornava-se agressiva de vez em quando necessitando de medicamentos fortes e não conseguia dar conta da casa, dos filhos e do marido. Este era um santo. Sempre que a mulher tinha uma crise, cuidava dela como de uma criança. Foi ele quem pediu que Iaiá os ajudasse e fosse morar com eles. Ela adorava os sobrinhos e não escondia a predileção por Antônio. Um bom garoto. Até comida dava na boca da mãe, limpando com um pano os restos quando escorriam. Tinha paciência. A tia era para ele a mãe que não tivera e jamais negava seus pedidos. Sentia pena dela. Apesar de jovem, percebera a muito que ela abdicara de sua vida para viver a deles. Ultimamente Iaiá reclamava de dores de cabeça que passaram a vir com mais frequência. Corria a ajudá-la a cada senão que sentia. Puxava uma cadeira e a obrigava a sentar-se. Às vezes conseguia, depois de certa insistência, colocá-la deitada enquanto preparava compressas para que pusesse na testa. Outro dia ouviu o pai e a tia discutindo porque ele queria que ela fosse ao médico. - Deixe de bobagem. Não tenho nada. Logo, logo isso passa. – ela cortava. No caminho de volta com a farinha de trigo e o fermento que fora comprar, parou quando viu a irmã chorando na varanda. - O que houve? - A tia Iaiá... - O que tem ela? - A mãe teve um daqueles ataques e lançou um pedaço de ferro na cabeça dela. Antes que terminasse de falar, Antônio saiu em disparada, jogando longe a sacola que tinha na mão. Parou ao entrar na sala. A tia, suja de sangue estava deitada no sofá da sala, onde o pai a havia colocado. - Antônio, vá chamar um médico depressa. Naquele lugarejo em que moravam tudo era perto e não demorou muito para voltar com o doutor que pediu uma ambulância, já que ela permanecia sem sentidos. Não a viu mais com vida depois desse dia. O pai explicou que a pressão dela subira demais, que tivera isso e aquilo, que ficou complicado... Antônio, de cabeça baixa foi para a rua. Viu os amigos parados na esquina. - E aí Antônio? Ainda tem alguma coisa escondida na mão? Abriu-a e olhou o cordão com a medalhinha da tia, que agora lhe pertencia. Ela nunca o tirava do pescoço. Fechou os dedos com força e gritou: _ Tenho algo precioso, mas não vão saber o que é. Em seguida correu, passando pelos colegas que começaram a rir e a persegui-lo. A gritaria e as risadas ecoavam longe.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS