A medalhinha de tia Iaiá
A medalhinha de tia Iaiá
Cândida Albernaz
- Querem ver o que tenho escondido na mão? – sorria largo enquanto as mãos eram colocadas nas costas para em seguida disparar numa corrida.
As pernas compridas e ágeis pareciam não tocar o chão. De vez em quando olhava para trás para medir a distância em que se encontrava dos amigos. Nunca conseguiam alcançá-lo. Em todas estas disputas era sempre ele quem ganhava.
Algumas vezes, no meio da brincadeira via-se obrigado a voltar porque a tia chamava por ele.
- Antônio! Onde você está moleque? Preciso de ajuda.
Então corria para casa ao mesmo tempo em que gritava aos amigos.
- Depois a gente continua. Não me pegariam mesmo! - e ria acenando para eles.
Os garotos se afastavam com caras chateadas por ver o término da brincadeira.
Entrou afobado pela porta da cozinha e localizou a tia usando como sempre um avental e um lenço vermelho cobrindo o cabelo, preparando o almoço. Olhava para ela e pensava o quanto era grande com aqueles peitos enormes onde tantas vezes buscou colo. Brava e carinhosa. No coração era ela sua mãe.
Vinha um cheiro gostoso da panela. Tirou a tampa de uma delas para ver o que continha.
O tapa veio rápido na ponta dos dedos.
- Não mexe! Olha essas mãos sujas!
- Galinha ao molho pardo. Ah! tia, que bom! Sabe que adoro. Fez por minha causa, não foi?
- Menino metido. Acha que tudo o que faço é por você? – falava e os olhos desmentiam o que dizia. Gostava de agradá-lo.
- Preciso que vá ao mercado para mim e não demore.
Ela passara dos quarenta há algum tempo e não se casara, então adotou a família da irmã caçula como sua. Fora noiva aos dezoito anos, mas o rapaz morreu num acidente poucos dias antes do casamento. Nunca mais teve um namoro sério. Ainda guardava com ela a foto tirada no dia do noivado.
Na verdade, a irmã tirara a sorte grande em ter Iaiá por perto, porque ela era fraca, doente dos nervos, tornava-se agressiva de vez em quando necessitando de medicamentos fortes e não conseguia dar conta da casa, dos filhos e do marido. Este era um santo. Sempre que a mulher tinha uma crise, cuidava dela como de uma criança. Foi ele quem pediu que Iaiá os ajudasse e fosse morar com eles. Ela adorava os sobrinhos e não escondia a predileção por Antônio. Um bom garoto. Até comida dava na boca da mãe, limpando com um pano os restos quando escorriam. Tinha paciência.
A tia era para ele a mãe que não tivera e jamais negava seus pedidos. Sentia pena dela. Apesar de jovem, percebera a muito que ela abdicara de sua vida para viver a deles.
Ultimamente Iaiá reclamava de dores de cabeça que passaram a vir com mais frequência. Corria a ajudá-la a cada senão que sentia. Puxava uma cadeira e a obrigava a sentar-se. Às vezes conseguia, depois de certa insistência, colocá-la deitada enquanto preparava compressas para que pusesse na testa.
Outro dia ouviu o pai e a tia discutindo porque ele queria que ela fosse ao médico.
- Deixe de bobagem. Não tenho nada. Logo, logo isso passa. – ela cortava.
No caminho de volta com a farinha de trigo e o fermento que fora comprar, parou quando viu a irmã chorando na varanda.
- O que houve?
- A tia Iaiá...
- O que tem ela?
- A mãe teve um daqueles ataques e lançou um pedaço de ferro na cabeça dela.
Antes que terminasse de falar, Antônio saiu em disparada, jogando longe a sacola que tinha na mão. Parou ao entrar na sala. A tia, suja de sangue estava deitada no sofá da sala, onde o pai a havia colocado.
- Antônio, vá chamar um médico depressa.
Naquele lugarejo em que moravam tudo era perto e não demorou muito para voltar com o doutor que pediu uma ambulância, já que ela permanecia sem sentidos.
Não a viu mais com vida depois desse dia. O pai explicou que a pressão dela subira demais, que tivera isso e aquilo, que ficou complicado...
Antônio, de cabeça baixa foi para a rua. Viu os amigos parados na esquina.
- E aí Antônio? Ainda tem alguma coisa escondida na mão?
Abriu-a e olhou o cordão com a medalhinha da tia, que agora lhe pertencia. Ela nunca o tirava do pescoço.
Fechou os dedos com força e gritou:
_ Tenho algo precioso, mas não vão saber o que é.
Em seguida correu, passando pelos colegas que começaram a rir e a persegui-lo.
A gritaria e as risadas ecoavam longe.