Tivera sorte
candida 10/03/2016 10:51
Tivera sorte Cândida Albernaz Acordou bem cedo. Não dera cinco horas ainda. Como todos os dias, o caminhão não demorou a chegar para pegar seu marido e os outros que ali viviam. Trabalhavam na mesma lavoura. Gostava de preparar o feijão fresquinho para Nelson levar. E hoje em especial porque ontem ele trouxe um pouco de linguiça. Colocou na panela para que cozinhasse junto. Seria o almoço da família. Melhor deixar o arroz que tinha para amanhã. Seria feito com alguns legumes plantados por ela. Cuidava com carinho daquela pequena horta. Afinal, fora aquela abóbora ou couve ou quiabo a única refeição do dia por inúmeras vezes. Esquentou a água e deixou o pó de café ferver e só então despejou no coador de pano. O líquido amarelo claro que saía não era tão forte como gostariam, mas o cheiro estava delicioso. Os dois pães que fizera com que sobrasse do dia anterior, seria dividido entre eles. Claudinha e Genilson dormiam encolhidos no colchonete que dividiam. Oito e dez anos e compridos como o pai. Daqui a pouco seria impossível compartilhar aquele espaço colado à parede. Tivera sorte em não engravidar de novo. Viviam em dois cômodos e mais um banheiro que Nelson fez. Muitos moradores daquela área faziam suas necessidades num buraco atrás do barraco. Ainda bem que seu marido era caprichoso e cuidava deles. Não bebia como a maioria e não encostava a mão nela. A não ser para exigir carinho quando a vontade do outro apertava. Na época em que se casaram tinha vergonha de tudo, mas Nelson ensinara umas coisas divertidas e vivia andando pelado no quartinho onde moravam. No início abaixava os olhos, mas depois, a curiosidade foi maior e passou a observar detalhes do corpo dele e querer mais e mais. Quando o filho mais velho começou a crescer, acabou aquele negócio de ficar sem roupa. Teve pena, porque a intimidade deles diminuiu, mas as crianças ocupavam boa parte de seu tempo. Tinha dó de algumas vizinhas. Os companheiros batiam nelas sem piedade. Por qualquer motivo. Parecia até que um incentivava o outro. Se um grito era ouvido num barraco, em seguida vinha em mais um. Elas não tinham muita escolha. Grande parte dos que se alojaram ali vinham de longe. Tudo sem família por perto. Trabalhar na cidade era luxo para poucas e as casadas com filhos pequenos eram obrigadas a ficar para cuidar deles. Dia desses uma delas revidou: a Anamaria. Danada que só ela. Tiveram que arrumar um carro para levar o marido ao hospital mais próximo. Lançou mão de um leite que fervia e jogou em cima dele depois que recebeu um soco na barriga. O homem chorava feito criança, mas nem sabia se tinha compaixão dele. Todos saíram de suas casas para ver e observou que muitas mulheres sorriam escondendo a boca com as mãos. E olhe que não morriam de amores pela Anamaria, porque ela costumava se meter com todos. Mas tiveram o sentimento de estar sendo defendidas. Naquela noite não se ouviu gritaria ou xingamento. Depois que Nelson embarcou, acordou os filhos e foi buscar água para lavar a roupa. Não era muita porque não tinham muito. Aproveitaria o sol. Eles precisavam preparar o dever de casa. O ônibus parava no ponto às 11h30min e até chegarem a ele, caminhavam por quinze minutos. Iam almoçados e recebiam um lanche na escola. Ela estava sem trabalhar desde que adoecera do coração. O médico avisou que era isso ou morria. Ficou mais complicado para eles. O dinheiro que trazia ajudava bastante. Mas fazer o que!? Deus queria assim e assim seria. Rezava sempre para Nelson continuar forte e poder sustentá-la e também os meninos. Deu para bordar uns panos de prato. Uma das vizinhas vendia quando ia para o serviço. As crianças também levavam para o colégio. As professoras, além de pagarem direitinho, ficavam com alguns para oferecerem. Assim, vez ou outra entrava um dinheirinho extra. Que barulheira fora de hora é essa? Ficam tão poucos neste horário e costuma ser tranquilo. Anamaria está berrando e não consigo entender direito o que diz. - Filho da puta! ...mulher. Tem que matar um ... Cheguei perto e vi a Clarinha caída no chão de terra. O rosto vermelho de sangue. - Olha o que ele fez com ela! Olha!  Ajudem aqui. Todos chegaram perto e algumas começaram a chorar. - Arranja um carro rápido!  Temos que levar para o hospital. - Acho que está morta. Lembro quando a Clarinha chegou há dois anos. Menina ainda, a pele muito preta, os olhos grandes e risonhos. Gostava de conversar e cantar. Voz linda de ouvir. Podia ter sido cantora. As crianças viviam atrás dela para que contasse histórias. Parece que faz muito tempo. Hoje em dia ficava ela sempre trancada com os braços lanhados ou o olho roxo. Se ela não aguentar, ele não aparece mais por aqui. Se sobreviver, ele volta para bater mais. Queria carregar Clarinha no meu colo. Quero que alguém carregue Claudinha no colo quando ela precisar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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