Carrego dentro de mim
candida 19/11/2015 20:45
Carrego dentro de mim Cândida Albernaz Ela corria e esperava não estar sendo seguida. Não outra vez. Quando fechou a porta estava sem fôlego. Com a respiração agitada olhava em volta se certificando de que ali estaria segura. A sala e os móveis conhecidos foram fazendo com que se acalmasse. Na cozinha, abriu a geladeira e retirou o copo que gostava de manter ali dentro. Hábito adquirido com o pai. O contato do ar quente com o copo gelado, fez com que este embaçasse. Encheu com água e tomou toda de uma só vez. Puxou a cadeira e sentou. Começava a sentir-se tranquila. Precisava voltar no tempo e entender o que estava acontecendo. Decidiu morar sozinha há três anos. Cansou de assistir aos porres da mãe, as discussões diárias e as desculpas daqueles dois que não conseguiam ter paz. Quando a mãe começou a se exceder com a bebida, o pai fazia-se de morto, fingindo não perceber. Não brigava, não exigia, apenas pedia que parasse. Com o tempo cansou, foi o que disse. Cansou e partiu para a briga. Era por tudo e a qualquer hora. Se ela levava amigas para estudar, de um momento para o outro, era possível ouvir copos, pratos ou o que estivesse pela frente, sendo quebrado. A mãe o acusava de indiferença, dizia que tinha outra mulher, e que por isso encontrava consolo na bebida. Se sentisse agradecido por isso. “Pior seria se eu te colocasse um par de chifres ou te enfiasse na cadeia...”. O pai reagia dizendo que “além de bêbada quer ser vagabunda também”. Trancava-se no quarto durante a gritaria, ligava o som bem alto ou enfiava-se embaixo da coberta. Apenas uma vez a mãe agrediu o pai fisicamente. Tinha quinze anos e teve que ajudar. Com um vaso que estava sobre a mesa, acertou em cheio a testa dele. Desmaiou e quando acordou pediu seu auxílio. Procurou pela mãe que dormia no quarto sem se lembrar do estrago feito. Não falaram a verdade para o médico e ele ganhou uma cicatriz na testa que carrega até hoje. Quando no dia seguinte acordou e viu o que tinha feito, pediu desculpas, beijou o marido de cima abaixo e prometeu parar de beber. Duraram quatro meses sua abstinência e nesse tempo os dois pareciam ter nascido um para o outro. Decidiu procurar um apartamento para morar quando chegou a casa com um namorado e ele assistiu uma dessas loucuras entre eles. Ouviu um barulho na sala. Será que a seguiram e conseguiram entrar? Levantou sem fazer barulho, acendeu as luzes. Nada. Já dentro do quarto trancou a porta. Lembrou-se de outra porta que não tinha chave para que não ficasse presa lá dentro. Ficava à mercê do que estava lá fora. Dormiu e acordou serena. O trabalho a esperava e não podia atrasar. Os pais avisaram que a visitariam no domingo. Era a segunda vez que vinham ali. A anterior foi no dia em que se mudou. Nesse tempo, encontraram-se poucas vezes, e sempre na casa deles. Prepararia uma massa que aprendera com as amigas da loja onde era gerente de vendas. Durante o dia chegou a esquecer de seus medos. Não comentou e não comentaria sobre a sensação de estar sendo perseguida. A loja era perto e não havia necessidade de nenhum tipo de condução. A noite estava clara e o céu limpo. Chegando perto de casa, ouviu os passos. Olhou para traz e não viu ninguém. Devia ser imaginação sua. O prédio pequeno e antigo não possuía elevador ou porteiro. Ao abrir o portão na entrada, sentiu a respiração ofegante em seu pescoço. Subiu a escada correndo, entrando e fechando a porta com a chave. Livrou-se dessa vez. Foi até o quarto e sem trocar de roupa, deitou e cobriu todo o corpo. Em poucos segundos sentiu a respiração pesada do outro a seu lado. Puxou ainda mais a colcha tapando a cabeça. Braços a envolveram e debateu-se, mas a força dele era maior do que a sua. Desistiu de reagir. Sem descobrir a cabeça, pediu mais uma vez. - Não, pai. Vai me machucar, não quero. Tinha oito anos novamente.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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