Carrego dentro de mim
Carrego dentro de mim
Cândida Albernaz
Ela corria e esperava não estar sendo seguida. Não outra vez.
Quando fechou a porta estava sem fôlego. Com a respiração agitada olhava em volta se certificando de que ali estaria segura. A sala e os móveis conhecidos foram fazendo com que se acalmasse. Na cozinha, abriu a geladeira e retirou o copo que gostava de manter ali dentro. Hábito adquirido com o pai. O contato do ar quente com o copo gelado, fez com que este embaçasse. Encheu com água e tomou toda de uma só vez.
Puxou a cadeira e sentou. Começava a sentir-se tranquila. Precisava voltar no tempo e entender o que estava acontecendo.
Decidiu morar sozinha há três anos. Cansou de assistir aos porres da mãe, as discussões diárias e as desculpas daqueles dois que não conseguiam ter paz.
Quando a mãe começou a se exceder com a bebida, o pai fazia-se de morto, fingindo não perceber. Não brigava, não exigia, apenas pedia que parasse. Com o tempo cansou, foi o que disse.
Cansou e partiu para a briga. Era por tudo e a qualquer hora.
Se ela levava amigas para estudar, de um momento para o outro, era possível ouvir copos, pratos ou o que estivesse pela frente, sendo quebrado.
A mãe o acusava de indiferença, dizia que tinha outra mulher, e que por isso encontrava consolo na bebida. Se sentisse agradecido por isso. “Pior seria se eu te colocasse um par de chifres ou te enfiasse na cadeia...”.
O pai reagia dizendo que “além de bêbada quer ser vagabunda também”.
Trancava-se no quarto durante a gritaria, ligava o som bem alto ou enfiava-se embaixo da coberta.
Apenas uma vez a mãe agrediu o pai fisicamente. Tinha quinze anos e teve que ajudar. Com um vaso que estava sobre a mesa, acertou em cheio a testa dele. Desmaiou e quando acordou pediu seu auxílio. Procurou pela mãe que dormia no quarto sem se lembrar do estrago feito. Não falaram a verdade para o médico e ele ganhou uma cicatriz na testa que carrega até hoje.
Quando no dia seguinte acordou e viu o que tinha feito, pediu desculpas, beijou o marido de cima abaixo e prometeu parar de beber. Duraram quatro meses sua abstinência e nesse tempo os dois pareciam ter nascido um para o outro.
Decidiu procurar um apartamento para morar quando chegou a casa com um namorado e ele assistiu uma dessas loucuras entre eles.
Ouviu um barulho na sala. Será que a seguiram e conseguiram entrar? Levantou sem fazer barulho, acendeu as luzes. Nada. Já dentro do quarto trancou a porta.
Lembrou-se de outra porta que não tinha chave para que não ficasse presa lá dentro. Ficava à mercê do que estava lá fora.
Dormiu e acordou serena. O trabalho a esperava e não podia atrasar.
Os pais avisaram que a visitariam no domingo. Era a segunda vez que vinham ali. A anterior foi no dia em que se mudou.
Nesse tempo, encontraram-se poucas vezes, e sempre na casa deles.
Prepararia uma massa que aprendera com as amigas da loja onde era gerente de vendas.
Durante o dia chegou a esquecer de seus medos. Não comentou e não comentaria sobre a sensação de estar sendo perseguida.
A loja era perto e não havia necessidade de nenhum tipo de condução.
A noite estava clara e o céu limpo. Chegando perto de casa, ouviu os passos. Olhou para traz e não viu ninguém.
Devia ser imaginação sua. O prédio pequeno e antigo não possuía elevador ou porteiro. Ao abrir o portão na entrada, sentiu a respiração ofegante em seu pescoço. Subiu a escada correndo, entrando e fechando a porta com a chave. Livrou-se dessa vez.
Foi até o quarto e sem trocar de roupa, deitou e cobriu todo o corpo. Em poucos segundos sentiu a respiração pesada do outro a seu lado. Puxou ainda mais a colcha tapando a cabeça. Braços a envolveram e debateu-se, mas a força dele era maior do que a sua. Desistiu de reagir. Sem descobrir a cabeça, pediu mais uma vez.
- Não, pai. Vai me machucar, não quero.
Tinha oito anos novamente.