Não me meto desde que
Não me meto, desde que
Cândida Albernaz
Ontem lá em casa foi uma confusão: ninguém se entendia. Tudo culpa de Zé Antônio, o dono do armazém da esquina. Foi se engraçar pro lado de Cinira, o xodó de papai.
Somos quatro irmãos e Cinira, a mais nova. Tem catorze anos e Zé Antônio, vai pra mais de quarenta.
-Só o que faltava esse tipo vir para cima da minha menina. Não se enxerga. Quebro ao meio esse safado.
Eu olhava para Cinira parada no canto da sala e a cara dela não era tão inocente assim. Qualquer dia desses o pai vai se aborrecer de verdade, porque ela vai arranjar um problema sério.
Divirto-me com as confusões de casa, só não dou muita opinião. Não gosto que se metam na minha vida e não me meto na de ninguém.
Desde que comecei a botar dinheiro em casa, o pai parou de invocar comigo. Perguntou onde estava trabalhando.
-Na oficina do Pedrão.
Perguntou o que fazia lá.
-Pintura.
-Pinta carros? Mas não tem tanto carro assim para pintar.
-O senhor é que pensa. Entendo de motor também.
-Desde quando?
-Desde sempre. Aprendi na curiosidade. Pedrão está satisfeito com meu serviço.
Nunca mais falamos sobre meu trabalho. Quando cheguei a casa com uma televisão e dei a mamãe, ela me olhou esquisito, mas agradeceu.
Dona Marisa nunca foi boba e não se enganava nem comigo nem com Cinira. Dava lá os seus conselhos, rezava por nós e entregava a Deus quando via que não adiantava falar.
Os outros dois irmãos, Célio e Selma, ainda muito crianças, só se preocupavam em brincar.
Dona Marisa era magra e miúda enquanto meu pai era um homem alto e gordo. Os dois, um ao lado do outro, eram meio engraçados. Não pareciam combinar.
A verdade é que ela é quem mandava e ele com aquele tamanhão todo mal entendia o que acontecia à sua volta.
Outro dia vi mãe conversando com Cinira sobre Edmundo, um chapa lá da oficina que não valia nada. Quando ouvi o nome dele, entrei na conversa das duas e falei que não queria Cinira de papo com ele. Ela quis saber por que, se era meu amigo.
-Não é amigo, trabalha comigo e não presta.
-Se trabalha com você...
-Ele gosta mesmo é de emprenhar umas e outras por aí. Muitas vezes, pega as idiotas à força.
-Comigo é diferente, porque não sou boba.
A discussão continuou e quase dei uns tapas nela para calar a boca. À noite ouvi dona Marisa chorando baixinho. Eu sempre digo que ela vê longe.
* * *
Chegou um carro novo essa noite, Pedrão pediu pressa na limpeza e na pintura. Vi que o banco estava sujo de sangue: não é da minha conta.
Limpei tudo e pintei. Levei a madrugada nesse serviço. De manhã entreguei pronto para o Pedrão e dei uma última olhada dentro dele. Vi alguma coisa brilhando num canto da mala do carro. Era uma medalhinha dourada, dessas de Nossa Senhora, igual a minha e dos meus irmãos. Dona Marisa deu uma a cada um de nós, que era para dar proteção. Guardei no bolso da calça: não falei nada com ninguém. Quem trouxe o carro para a oficina foi Edmundo, que esse é o serviço dele: meter um carretão. O nosso é modificar o dito cujo.
Dona Marisa estava no portão quando cheguei. Já passava das dez horas da manhã.
-Viu Cinira?
-Não, mãe. Trabalhei a noite toda.
-Ela não voltou para casa desde ontem.
Coloquei a mão no bolso e a medalhinha parecia de fogo.
Não falei nada e voltei a oficina.
-Cadê Edmundo?
-Deixou o carro aqui e disse que tinha umas coisas para resolver.
Fui até a casa dele e não bati na porta. Com um chute, consegui entrar.
-Onde está ela?
-Ela quem? Tô dormindo e você invade a minha casa desse jeito.
-Vi o carro sujo de sangue e achei a medalha no porta-malas. O que fez com Cinira?
Enquanto falava, fui enfiando a faca que trazia, no braço dele.
-Se não responder rápido, acabo com você aos poucos.
Passei a faca no rosto de Edmundo, de onde escorreu um fio de sangue.
-Dá um tempo, cara. Não sei se ainda tá lá. Deixei na curva do quilômetro sete, você sabe onde é. Não tive culpa, foi ela quem me procurou e se não queria me dar, não devia ter ido atrás de mim. Sei do que essas vadias gostam.
-Cale a boca, seu filho da puta.
A faca enterrou na barriga dele...
* * *
Na estrada de chão vi minha irmã deitada embaixo de uma árvore. Estava suja de sangue e terra. Não me olhou. Peguei seu corpo leve no colo e fui caminhando por dentro do mato, que era para ninguém ver.
Com a cabeça no meu ombro, sentia as lágrimas molharem minha blusa. Uma criança minha irmã.