Não me meto desde que
candida 07/12/2015 09:29
Não me meto, desde que                                                Cândida Albernaz Ontem lá em casa foi uma confusão: ninguém se entendia. Tudo culpa de Zé Antônio, o dono do armazém da esquina. Foi se engraçar pro lado de Cinira, o xodó de papai. Somos quatro irmãos e Cinira, a mais nova. Tem catorze anos e Zé Antônio, vai pra mais de quarenta. -Só o que faltava esse tipo vir para cima da minha menina. Não se enxerga. Quebro ao meio esse safado. Eu olhava para Cinira parada no canto da sala e a cara dela não era tão inocente assim. Qualquer dia desses o pai vai se aborrecer de verdade, porque ela vai arranjar um problema sério. Divirto-me com as confusões de casa, só não dou muita opinião. Não gosto que se metam na minha vida e não me meto na de ninguém. Desde que comecei a botar dinheiro em casa, o pai parou de invocar comigo. Perguntou onde estava trabalhando. -Na oficina do Pedrão. Perguntou o que fazia lá. -Pintura. -Pinta carros? Mas não tem tanto carro assim para pintar. -O senhor é que pensa. Entendo de motor também. -Desde quando? -Desde sempre. Aprendi na curiosidade. Pedrão está satisfeito com meu serviço. Nunca mais falamos sobre meu trabalho. Quando cheguei a casa com uma televisão e dei a mamãe, ela me olhou esquisito, mas agradeceu. Dona Marisa nunca foi boba e não se enganava nem comigo nem com Cinira. Dava lá os seus conselhos, rezava por nós e entregava a Deus quando via que não adiantava falar. Os outros dois irmãos, Célio e Selma, ainda muito crianças, só se preocupavam em brincar. Dona Marisa era magra e miúda enquanto meu pai era um homem alto e gordo. Os dois, um ao lado do outro, eram meio engraçados. Não pareciam combinar. A verdade é que ela é quem mandava e ele com aquele tamanhão todo mal entendia o que acontecia à sua volta. Outro dia vi mãe conversando com Cinira sobre Edmundo, um chapa lá da oficina que não valia nada.  Quando ouvi o nome dele, entrei na conversa das duas e falei que não queria Cinira de papo com ele. Ela quis saber por que, se era meu amigo. -Não é amigo, trabalha comigo e não presta. -Se trabalha com você... -Ele gosta mesmo é de emprenhar umas e outras por aí. Muitas vezes, pega as idiotas à força. -Comigo é diferente, porque não sou boba. A discussão continuou e quase dei uns tapas nela para calar a boca. À noite ouvi dona Marisa chorando baixinho. Eu sempre digo que ela vê longe.   *                                 *                                             *   Chegou um carro novo essa noite, Pedrão pediu pressa na limpeza e na pintura. Vi que o banco estava sujo de sangue: não é da minha conta. Limpei tudo e pintei. Levei a madrugada nesse serviço. De manhã entreguei pronto para o Pedrão e dei uma última olhada dentro dele. Vi alguma coisa brilhando num canto da mala do carro. Era uma medalhinha dourada, dessas de Nossa Senhora, igual a minha e dos meus irmãos. Dona Marisa deu uma a cada um de nós, que era para dar proteção. Guardei no bolso da calça: não falei nada com ninguém. Quem trouxe o carro para a oficina foi Edmundo, que esse é o serviço dele: meter um carretão. O nosso é modificar o dito cujo. Dona Marisa estava no portão quando cheguei. Já passava das dez horas da manhã. -Viu Cinira? -Não, mãe. Trabalhei a noite toda. -Ela não voltou para casa desde ontem. Coloquei a mão no bolso e a medalhinha parecia de fogo. Não falei nada e voltei a oficina. -Cadê Edmundo? -Deixou o carro aqui e disse que tinha umas coisas para resolver. Fui até a casa dele e não bati na porta. Com um chute, consegui entrar. -Onde está ela? -Ela quem? Tô dormindo e você invade a minha casa desse jeito. -Vi o carro sujo de sangue e achei a medalha no porta-malas. O que fez com Cinira? Enquanto falava, fui enfiando a faca que trazia, no braço dele. -Se não responder rápido, acabo com você aos poucos. Passei a faca no rosto de Edmundo, de onde escorreu um fio de sangue. -Dá um tempo, cara. Não sei se ainda tá lá. Deixei na curva do quilômetro sete, você sabe onde é. Não tive culpa, foi ela quem me procurou e se não queria me dar, não devia ter ido atrás de mim. Sei do que essas vadias gostam. -Cale a boca, seu filho da puta. A faca enterrou na barriga dele...   *                                             *                                             * Na estrada de chão vi minha irmã deitada embaixo de uma árvore. Estava suja de sangue e terra. Não me olhou. Peguei seu corpo leve no colo e fui caminhando por dentro do mato, que era para ninguém ver. Com a cabeça no meu ombro, sentia as lágrimas molharem minha blusa. Uma criança minha irmã.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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