Frases nem tão soltas XXVII
Frases nem tão soltas XXVII
Cândida Albernaz
Quando o procurei com o olhar, fugiu como se não pudesse aguentar. Não percebeu que o peso que temia era apenas seu. Continua ainda a arrastar os pés quando poderia voar.
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Por instantes deixar-se levar pelo quase não sentir é refrescante.
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Ser motivo da obsessão alheia só vai te fazer mal se você aceitar recebê-la.
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Alguns usam de perversidade com o outro esquecendo que o mundo gira e gira e gira.
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Toque em mim como se pétala eu fosse. Há dias de galho. Há dias de tronco. Há dias de fruto. Hoje sou flor.
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Em todas as vezes que pensou não aguentar enxergou ao redor três pares de olhos que reconheciam nela a força que imaginava não possuir.
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Calma no pensar. Paz no sentir. Sorrir até o rir. Não é preciso muito mais.
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Se sorriem por mim, se sorriem para mim ilumino por dentro.
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Gosto de assoviar. Assovio quando estou alegre. Assovio se estou triste. É quase como respirar. A melodia indica o meu sentir.
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Minha sensibilidade é tão à flor da pele, que só ironizando o que machuca para não sangrar sem parar.
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Tentei esconder o coração, mas sem que percebesse este se multiplicou para me provocar. Culpa da lua, afirmei. Culpa da noite, respondeu. Culpa da alma que não cansa de tentar, escutei.
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Mamãe e o Natal
A rabanada dos meus natais não era essa, frita, (que também é deliciosa). Ela era em calda, bem docinha, com pães grandes e encharcados, feita no açúcar e com ameixas enfeitando. Foi o café da manhã de quase todos os vinte e cinco de dezembro da minha existência. Não importava a hora que eu acordasse, ou anos mais tarde, chegasse à casa de mamãe.
Primeiro ainda em casa esperava que minhas filhas abrissem seus presentes deixados na noite anterior, depois que todos estivessem dormindo, em cima dos sapatos colocados ao redor da árvore. E quando acabavam, abria os meus.
Todas tínhamos comentários a fazer após cada embrulho desfeito. Ritual que seguimos até hoje, incluindo agora a Betina. Jamais qualquer presente é aberto sem nos reunirmos uma ao lado da outra.
Só então corríamos para a casa de mamãe, elas para receber o que Papai Noel havia deixado. Eu, para sentir na boca aquele gosto de carinho de mãe com açúcar. Porque era ela quem preparava um dia antes, o doce tão esperado o ano inteiro. Esse sim, o melhor café da manhã que já provei em minha vida. Tenho saudade de muitas coisas boas que sorrio ao recordar, mas esta que chega com dia e mês marcados me enche a boca e os olhos de água.