Aniversário
Cândida Albernaz
Comemoro meu aniversário como sempre fiz questão. Sei o que pensam: pode ser o último. Noventa e quatro anos. Mal sabem que não pretendo ir tão cedo.
Vivi bem, com perdas como todo mundo, mas a soma de pequenas felicidades ao passar dos anos foi maior.
Quando menina sonhava em ter muitos filhos e um marido para cuidar. Mais tarde, jovem, pensei em uma carreira que me tornaria independente e não precisaria de homem algum. O que minha mãe sempre rebatia com olhos assustados:
- Onde já se viu? Você tem cada ideia.
O primeiro sonho foi o que se concretizou.
Casei e logo Antunes me convenceu a parar de trabalhar. Para quê? Ganho o suficiente e quero que você tenha tempo para nós dois. Pelo menos concluí os estudos, o que não serviu para nada. Com cinco filhos fortes e exigentes, meus dias eram ocupados em educá-los e me apaixonar por cada um deles.
Ficou longe a vontade de um futuro profissional. Mentira! Entre um filho e outro que crescia, um e outro que casava, a saudade da moça sonhadora fazia com que chorasse escondido. Não me arrependo das escolhas que fiz, mas por inúmeras vezes um sentir vazio deixava rastros de tristeza no caminho que foi decidido tomar.
Antunes se foi há vinte anos. Senti falta dele ao mesmo tempo em que um alívio de não mais precisar prestar contas me dominou. No final se tornara um homem rabugento, implicante com tudo, e que exigia dedicação total.
Com a idade, piorou. Com a idade, melhorei. Deixei de ser tão submissa e acatar o que dizia.
Muitas vezes demonstrava impaciência e incredulidade ao lidar com a mulher a qual eu me tornava. Desconcertava-se quando ao chegar do trabalho já não me encontrava em casa esperando-o como se acostumara.
Fiz novas amigas e nos encontrávamos uma ou duas vezes por semana para jogar cartas, rir e falar bobagens. Tínhamos uma regra: recordar o passado e jamais discutir o presente. Éramos garotas novamente. Momentos preciosos aqueles, mas quando duas de nós partiram, desanimamos e acabamos por perder aquelas tardes. Deixamos de nos encontrar por alguns meses e não houve retorno.
Nessa época, Antunes ainda vivia e não conseguiu disfarçar sua satisfação quando o grupo se desfez. Aproveitou para se fazer de doente e conseguir que ficasse ao lado dele como se dependesse de ajuda.
Foi um homem forte e bonito que nunca deixei de amar. Pena ter sido tão autoritário. Teríamos uma vida melhor sem isso, com menos discussões, mágoas e mais companheirismo. Morreu durante a noite enquanto dormia. Sabia que seria assim. O coração enfraquecera aos poucos.
Agora estou aqui comemorando mais um ano com meus filhos, uma dúzia de netos e mais um tanto de bisnetos barulhentos. Brinco e converso com eles como se tivéssemos idades mais próximas. Dizem que sou uma vó moderninha. Não perco tempo me surpreendendo com as novidades do mundo que se atualiza a cada segundo. Apenas acompanho e aceito.
Peço ajuda para assoprar as velas. Não que não consiga fazer sozinha, mas gostam de pensar que preciso deles para quase tudo. É um pouco verdade, porque preciso da presença de todos ao meu lado durante o máximo de tempo para que continue respirando.
O ar necessário para continuar vivendo está a minha frente batendo palmas enquanto cantam os parabéns. Aspiro com força. Pretendo viver muito ainda.
Aniversário
Aniversário
Cândida Albernaz
Comemoro meu aniversário como sempre fiz questão. Sei o que pensam: pode ser o último. Noventa e quatro anos. Mal sabem que não pretendo ir tão cedo.
Vivi bem, com perdas como todo mundo, mas a soma de pequenas felicidades ao passar dos anos foi maior.
Quando menina sonhava em ter muitos filhos e um marido para cuidar. Mais tarde, jovem, pensei em uma carreira que me tornaria independente e não precisaria de homem algum. O que minha mãe sempre rebatia com olhos assustados:
- Onde já se viu? Você tem cada ideia.
O primeiro sonho foi o que se concretizou.
Casei e logo Antunes me convenceu a parar de trabalhar. Para quê? Ganho o suficiente e quero que você tenha tempo para nós dois. Pelo menos concluí os estudos, o que não serviu para nada. Com cinco filhos fortes e exigentes, meus dias eram ocupados em educá-los e me apaixonar por cada um deles.
Ficou longe a vontade de um futuro profissional. Mentira! Entre um filho e outro que crescia, um e outro que casava, a saudade da moça sonhadora fazia com que chorasse escondido. Não me arrependo das escolhas que fiz, mas por inúmeras vezes um sentir vazio deixava rastros de tristeza no caminho que foi decidido tomar.
Antunes se foi há vinte anos. Senti falta dele ao mesmo tempo em que um alívio de não mais precisar prestar contas me dominou. No final se tornara um homem rabugento, implicante com tudo, e que exigia dedicação total.
Com a idade, piorou. Com a idade, melhorei. Deixei de ser tão submissa e acatar o que dizia.
Muitas vezes demonstrava impaciência e incredulidade ao lidar com a mulher a qual eu me tornava. Desconcertava-se quando ao chegar do trabalho já não me encontrava em casa esperando-o como se acostumara.
Fiz novas amigas e nos encontrávamos uma ou duas vezes por semana para jogar cartas, rir e falar bobagens. Tínhamos uma regra: recordar o passado e jamais discutir o presente. Éramos garotas novamente. Momentos preciosos aqueles, mas quando duas de nós partiram, desanimamos e acabamos por perder aquelas tardes. Deixamos de nos encontrar por alguns meses e não houve retorno.
Nessa época, Antunes ainda vivia e não conseguiu disfarçar sua satisfação quando o grupo se desfez. Aproveitou para se fazer de doente e conseguir que ficasse ao lado dele como se dependesse de ajuda.
Foi um homem forte e bonito que nunca deixei de amar. Pena ter sido tão autoritário. Teríamos uma vida melhor sem isso, com menos discussões, mágoas e mais companheirismo. Morreu durante a noite enquanto dormia. Sabia que seria assim. O coração enfraquecera aos poucos.
Agora estou aqui comemorando mais um ano com meus filhos, uma dúzia de netos e mais um tanto de bisnetos barulhentos. Brinco e converso com eles como se tivéssemos idades mais próximas. Dizem que sou uma vó moderninha. Não perco tempo me surpreendendo com as novidades do mundo que se atualiza a cada segundo. Apenas acompanho e aceito.
Peço ajuda para assoprar as velas. Não que não consiga fazer sozinha, mas gostam de pensar que preciso deles para quase tudo. É um pouco verdade, porque preciso da presença de todos ao meu lado durante o máximo de tempo para que continue respirando.
O ar necessário para continuar vivendo está a minha frente batendo palmas enquanto cantam os parabéns. Aspiro com força. Pretendo viver muito ainda.
21/01/2017 | 18h53
Aniversário
Cândida Albernaz
Comemoro meu aniversário como sempre fiz questão. Sei o que pensam: pode ser o último. Noventa e quatro anos. Mal sabem que não pretendo ir tão cedo.
Vivi bem, com perdas como todo mundo, mas a soma de pequenas felicidades ao passar dos anos foi maior.
Quando menina sonhava em ter muitos filhos e um marido para cuidar. Mais tarde, jovem, pensei em uma carreira que me tornaria independente e não precisaria de homem algum. O que minha mãe sempre rebatia com olhos assustados:
- Onde já se viu? Você tem cada ideia.
O primeiro sonho foi o que se concretizou.
Casei e logo Antunes me convenceu a parar de trabalhar. Para quê? Ganho o suficiente e quero que você tenha tempo para nós dois. Pelo menos concluí os estudos, o que não serviu para nada. Com cinco filhos fortes e exigentes, meus dias eram ocupados em educá-los e me apaixonar por cada um deles.
Ficou longe a vontade de um futuro profissional. Mentira! Entre um filho e outro que crescia, um e outro que casava, a saudade da moça sonhadora fazia com que chorasse escondido. Não me arrependo das escolhas que fiz, mas por inúmeras vezes um sentir vazio deixava rastros de tristeza no caminho que foi decidido tomar.
Antunes se foi há vinte anos. Senti falta dele ao mesmo tempo em que um alívio de não mais precisar prestar contas me dominou. No final se tornara um homem rabugento, implicante com tudo, e que exigia dedicação total.
Com a idade, piorou. Com a idade, melhorei. Deixei de ser tão submissa e acatar o que dizia.
Muitas vezes demonstrava impaciência e incredulidade ao lidar com a mulher a qual eu me tornava. Desconcertava-se quando ao chegar do trabalho já não me encontrava em casa esperando-o como se acostumara.
Fiz novas amigas e nos encontrávamos uma ou duas vezes por semana para jogar cartas, rir e falar bobagens. Tínhamos uma regra: recordar o passado e jamais discutir o presente. Éramos garotas novamente. Momentos preciosos aqueles, mas quando duas de nós partiram, desanimamos e acabamos por perder aquelas tardes. Deixamos de nos encontrar por alguns meses e não houve retorno.
Nessa época, Antunes ainda vivia e não conseguiu disfarçar sua satisfação quando o grupo se desfez. Aproveitou para se fazer de doente e conseguir que ficasse ao lado dele como se dependesse de ajuda.
Foi um homem forte e bonito que nunca deixei de amar. Pena ter sido tão autoritário. Teríamos uma vida melhor sem isso, com menos discussões, mágoas e mais companheirismo. Morreu durante a noite enquanto dormia. Sabia que seria assim. O coração enfraquecera aos poucos.
Agora estou aqui comemorando mais um ano com meus filhos, uma dúzia de netos e mais um tanto de bisnetos barulhentos. Brinco e converso com eles como se tivéssemos idades mais próximas. Dizem que sou uma vó moderninha. Não perco tempo me surpreendendo com as novidades do mundo que se atualiza a cada segundo. Apenas acompanho e aceito.
Peço ajuda para assoprar as velas. Não que não consiga fazer sozinha, mas gostam de pensar que preciso deles para quase tudo. É um pouco verdade, porque preciso da presença de todos ao meu lado durante o máximo de tempo para que continue respirando.
O ar necessário para continuar vivendo está a minha frente batendo palmas enquanto cantam os parabéns. Aspiro com força. Pretendo viver muito ainda.
Compartilhe
Obrigada por você
Obrigada por você
Cândida Albernaz
Ontem eu o vi escondido sob nova roupagem, agora com cabelos grisalhos, vincos na face e trazendo no olhar parte de um passado onde eu não me encontrava.
Sentada, o observava furtivamente enquanto em volta o presente dançava. No ar as lembranças teimavam regressar como se recentes fossem. No peito uma dor incontrolável pelo que não foi completamente vivido.
Você esteve rondando minha vida todos esses anos mesmo sem saber, aconchegando-me e fazendo ficar. Na memória, vezes e vezes foi a companhia que faltava e sempre era bom trazer sua presença como num passe de mágica e fazer realidade o que havia se tornado sonho há muito.
Não sei se quero que chegue perto e veja que também eu tenho cabelos grisalhos e marcas no rosto que não conhecia. Creio que o melhor seja continuarmos na lembrança um do outro para que possamos encontrar nas recordações calor para as horas cruas que teremos.
Está muito escuro aqui. Sinto o corpo se retesar com frio. O lençol fino não aquece o suficiente. Bato o queixo tremendo e tento não deixar que os dentes, se encontrando, façam barulho.
Preferia continuar meu sonho onde eu e você éramos passado se tornando presente. Penso em sentar um pouco, mas esse movimento tão comum não me é permitido. Preciso esperar que amanheça quando então o corredor se encherá de passos e sons.
Por que fui acordar? Estes sonhos com você parecem reais. Gosto de imaginar que numa dessas noites eles me levem a tal ponto que eu possa tocar sua pele, cruzar nossas línguas e trazer na saliva o gosto de um passado incompleto, mas que me pertence.
A cama ao lado resmunga. Talvez eu esteja fazendo barulho. Tento ver o soro, saber se está terminando. Não queria que o trocassem mais. Careço dos braços livres dessas agulhas que machucam.
Nunca suportei estar presa e agora estou atada a fios e aparelhos sem poder reclamar. Ainda bem que tenho você. Ouço sua voz murmurar palavras ditas numa época em que eu imaginava ser dona do tempo.
A lembrança da rispidez ao me trazer de encontro ao peito e o beijo misturado às lágrimas numa noite em que medos e paixão se confundiam, ainda faz com que permaneça viva.
A respiração está mais difícil, o peito esmaga não deixando que o ar entre. Talvez tenha sido o beijo novamente sentido. Não importa, por mais que fique agitada, quando o relembro é dessa forma que também sinto serenidade.
Queria tocá-lo uma vez mais. Tê-lo prendido a mim no dia em que o deixei ir.
O peito sufoca com uma enorme pressão. São mãos que o apertam enquanto ouço: ela está indo embora! Estão me perdendo.
Mal sabem que quero ir. Não quero retornos.
Obrigada por continuar comigo nessa hora. Por ter estado em meu passado para poder buscá-lo agora. Sinto o gosto de sua boca mais uma vez. Ainda ouço vozes distantes dizendo que não há mais o que fazer.
A luz transborda ao redor. Nossos dedos se entrelaçam com força.
O aparelho ao lado começa a emitir um som contínuo e agudo.
21/01/2017 | 18h53
Obrigada por você
Cândida Albernaz
Ontem eu o vi escondido sob nova roupagem, agora com cabelos grisalhos, vincos na face e trazendo no olhar parte de um passado onde eu não me encontrava.
Sentada, o observava furtivamente enquanto em volta o presente dançava. No ar as lembranças teimavam regressar como se recentes fossem. No peito uma dor incontrolável pelo que não foi completamente vivido.
Você esteve rondando minha vida todos esses anos mesmo sem saber, aconchegando-me e fazendo ficar. Na memória, vezes e vezes foi a companhia que faltava e sempre era bom trazer sua presença como num passe de mágica e fazer realidade o que havia se tornado sonho há muito.
Não sei se quero que chegue perto e veja que também eu tenho cabelos grisalhos e marcas no rosto que não conhecia. Creio que o melhor seja continuarmos na lembrança um do outro para que possamos encontrar nas recordações calor para as horas cruas que teremos.
Está muito escuro aqui. Sinto o corpo se retesar com frio. O lençol fino não aquece o suficiente. Bato o queixo tremendo e tento não deixar que os dentes, se encontrando, façam barulho.
Preferia continuar meu sonho onde eu e você éramos passado se tornando presente. Penso em sentar um pouco, mas esse movimento tão comum não me é permitido. Preciso esperar que amanheça quando então o corredor se encherá de passos e sons.
Por que fui acordar? Estes sonhos com você parecem reais. Gosto de imaginar que numa dessas noites eles me levem a tal ponto que eu possa tocar sua pele, cruzar nossas línguas e trazer na saliva o gosto de um passado incompleto, mas que me pertence.
A cama ao lado resmunga. Talvez eu esteja fazendo barulho. Tento ver o soro, saber se está terminando. Não queria que o trocassem mais. Careço dos braços livres dessas agulhas que machucam.
Nunca suportei estar presa e agora estou atada a fios e aparelhos sem poder reclamar. Ainda bem que tenho você. Ouço sua voz murmurar palavras ditas numa época em que eu imaginava ser dona do tempo.
A lembrança da rispidez ao me trazer de encontro ao peito e o beijo misturado às lágrimas numa noite em que medos e paixão se confundiam, ainda faz com que permaneça viva.
A respiração está mais difícil, o peito esmaga não deixando que o ar entre. Talvez tenha sido o beijo novamente sentido. Não importa, por mais que fique agitada, quando o relembro é dessa forma que também sinto serenidade.
Queria tocá-lo uma vez mais. Tê-lo prendido a mim no dia em que o deixei ir.
O peito sufoca com uma enorme pressão. São mãos que o apertam enquanto ouço: ela está indo embora! Estão me perdendo.
Mal sabem que quero ir. Não quero retornos.
Obrigada por continuar comigo nessa hora. Por ter estado em meu passado para poder buscá-lo agora. Sinto o gosto de sua boca mais uma vez. Ainda ouço vozes distantes dizendo que não há mais o que fazer.
A luz transborda ao redor. Nossos dedos se entrelaçam com força.
O aparelho ao lado começa a emitir um som contínuo e agudo.
Frases nem tão soltas XXIX
Frases nem tão soltas XXIX
Cândida Albernaz
Coloquei-me à disposição da vida. Ela pareceu não saber o que fazer comigo. Então peguei o laço, girei no ar e joguei. Ao conseguir prendê-la, depois de lutar e lutar obriguei-a a seguir na direção escolhida.
*
Quando faço perguntas que nãos sei responder, procuro na mente as anotações um dia feitas com o sangue retirado dos profundos cortes provocados na alma.
*
Vi olhos sorrindo esperança, o que me provocou enorme dor por não conseguir acreditar também.
*
Se pudesse a levaria em meu colo até onde seu sorrir encontrasse um lugar de paz. Eu a depositaria na grama a olhar o céu para que não apenas sonhasse, mas tivesse a chance de viver o seu desejo de menina, agora mulher.
*
Quando a dor é grande demais, anestesio uma parte de mim para que de vez em quando possa ficar no não sentir.
*
Na renda do tempo bordei a vida. Pedaço por pedaço com a dedicação que a paciência do construir exige.
*
Colocou perspectivas em mãos alheias. Que estúpido não perceber que só suas mãos tinham o poder de realizar desejos contidos.
*
No tecido branco usei linhas coloridas para alinhavar onde a costura rompera. Não precisava que ficassem imperceptíveis. O que queria mesmo era poder enxergá-las para sempre lembrar de que era capaz.
*
Quando foi ao jardim colher flores não esperou encontrar um espinho tão grande entre elas. Vendo o sangue que pingava imaginou ter furado o dedo, mas enganou-se. Foi no peito onde ele se alojou perfurando-o de um lado a outro.
*
A noite chega mansa entre sombras e penumbras com o som surdo dos passos em beco escuro. E quando o sono enfim faz seu fechar de olhos já cansados de não ver, a mente foge para o lugar onde sonhos de cantar embalam o dormir. A melodia que escuta vai aprisionando sua dor e transformando-a em doce ninar. Já não há becos escuros ou sombras. O que permanece agora é o ressonar na espera do dia que logo vai nascer.
*
Não é preciso ser feliz o tempo todo. Pequenas felicidades nos completam.
*
Gosto quando meus anjos descansam suas asas e sorrindo brincam de me fazer feliz.
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas XXIX
Cândida Albernaz
Coloquei-me à disposição da vida. Ela pareceu não saber o que fazer comigo. Então peguei o laço, girei no ar e joguei. Ao conseguir prendê-la, depois de lutar e lutar obriguei-a a seguir na direção escolhida.
*
Quando faço perguntas que nãos sei responder, procuro na mente as anotações um dia feitas com o sangue retirado dos profundos cortes provocados na alma.
*
Vi olhos sorrindo esperança, o que me provocou enorme dor por não conseguir acreditar também.
*
Se pudesse a levaria em meu colo até onde seu sorrir encontrasse um lugar de paz. Eu a depositaria na grama a olhar o céu para que não apenas sonhasse, mas tivesse a chance de viver o seu desejo de menina, agora mulher.
*
Quando a dor é grande demais, anestesio uma parte de mim para que de vez em quando possa ficar no não sentir.
*
Na renda do tempo bordei a vida. Pedaço por pedaço com a dedicação que a paciência do construir exige.
*
Colocou perspectivas em mãos alheias. Que estúpido não perceber que só suas mãos tinham o poder de realizar desejos contidos.
*
No tecido branco usei linhas coloridas para alinhavar onde a costura rompera. Não precisava que ficassem imperceptíveis. O que queria mesmo era poder enxergá-las para sempre lembrar de que era capaz.
*
Quando foi ao jardim colher flores não esperou encontrar um espinho tão grande entre elas. Vendo o sangue que pingava imaginou ter furado o dedo, mas enganou-se. Foi no peito onde ele se alojou perfurando-o de um lado a outro.
*
A noite chega mansa entre sombras e penumbras com o som surdo dos passos em beco escuro. E quando o sono enfim faz seu fechar de olhos já cansados de não ver, a mente foge para o lugar onde sonhos de cantar embalam o dormir. A melodia que escuta vai aprisionando sua dor e transformando-a em doce ninar. Já não há becos escuros ou sombras. O que permanece agora é o ressonar na espera do dia que logo vai nascer.
*
Não é preciso ser feliz o tempo todo. Pequenas felicidades nos completam.
*
Gosto quando meus anjos descansam suas asas e sorrindo brincam de me fazer feliz.
Frases nem tão soltas
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Brincava de achar que era possível e trazia na face a inocência do acreditar.
*
Não deixe dúvidas. Dúvidas alimentam a alma com o rancor.
*
E porque meu coração sangra deve ser muito bem cuidado.
*
Nem todos possuem o dom de ver com olhos da alma.
*
Nunca suportou vícios. Ninguém que provocasse dependência poderia fazê-la feliz.
*
Fico perdida com o tanto que penso. O pensamento não é meu amigo, porque ele fala em excesso me deixando tonta. Se fosse, ele viria com calma, assunto por assunto para que eu tivesse como digerir cada um deles.
*
Nunca pense que eu sou forte, qualquer sopro de criança me joga longe.
*
E se não somos um pouco loucos, não sentimos com intensidade.
*
Em alguns momentos bate uma ventania interna quebrando o sentir em pequenas partes e fazendo cacos voarem sem rumo espalhando pedaços que não se colam mais.
*
Outra noite ao tentar dormir contei pássaros, e eles me levaram em sonhos fazendo das suas, minhas asas.
*
Sou muitas em uma só, para que me dividindo possa permanecer inteira.
*
Não tente adivinhar, porque o que carrego dentro de mim é só meu.
*
Admiro quem é inteligente. Dos espertos passo ao largo.
*
Não procure entender meias palavras. Não aceite obter meias atitudes. Não queira ser menos do que inteiro.
*
Um mais um nem sempre é igual a dois. Dois menos um pode ser igual a você inteiro outra vez.
*
Alguns dias são melhores. Outros não. Hoje são outros.
*
Um dia carregou para sempre o momento em que as salivas misturaram-se ao sal das lágrimas que escorriam.
*
E a dor vem logo depois do sentir bem. Como se estar feliz fosse demais para suportar.
*
E vezes e vezes se contiveram não dizendo o que sentiam. Era o medo de não ouvirem de volta o que esperavam.
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Brincava de achar que era possível e trazia na face a inocência do acreditar.
*
Não deixe dúvidas. Dúvidas alimentam a alma com o rancor.
*
E porque meu coração sangra deve ser muito bem cuidado.
*
Nem todos possuem o dom de ver com olhos da alma.
*
Nunca suportou vícios. Ninguém que provocasse dependência poderia fazê-la feliz.
*
Fico perdida com o tanto que penso. O pensamento não é meu amigo, porque ele fala em excesso me deixando tonta. Se fosse, ele viria com calma, assunto por assunto para que eu tivesse como digerir cada um deles.
*
Nunca pense que eu sou forte, qualquer sopro de criança me joga longe.
*
E se não somos um pouco loucos, não sentimos com intensidade.
*
Em alguns momentos bate uma ventania interna quebrando o sentir em pequenas partes e fazendo cacos voarem sem rumo espalhando pedaços que não se colam mais.
*
Outra noite ao tentar dormir contei pássaros, e eles me levaram em sonhos fazendo das suas, minhas asas.
*
Sou muitas em uma só, para que me dividindo possa permanecer inteira.
*
Não tente adivinhar, porque o que carrego dentro de mim é só meu.
*
Admiro quem é inteligente. Dos espertos passo ao largo.
*
Não procure entender meias palavras. Não aceite obter meias atitudes. Não queira ser menos do que inteiro.
*
Um mais um nem sempre é igual a dois. Dois menos um pode ser igual a você inteiro outra vez.
*
Alguns dias são melhores. Outros não. Hoje são outros.
*
Um dia carregou para sempre o momento em que as salivas misturaram-se ao sal das lágrimas que escorriam.
*
E a dor vem logo depois do sentir bem. Como se estar feliz fosse demais para suportar.
*
E vezes e vezes se contiveram não dizendo o que sentiam. Era o medo de não ouvirem de volta o que esperavam.
Sem arrependimento
21/01/2017 | 18h53
Sem arrependimento
Cândida Albernaz
Hoje acordei cedo e fui comprar flores porque quero a casa cheia de cor e cheiro. Você adora quando tenho estes cuidados com nós dois. Não assume, mas sei que é romântico.
A escolha do vinho e das músicas fica por sua conta, sempre gostou que fosse assim.
Tenho certeza de que não vai chegar tarde. No ano passado, na mesma data esperei por você e acabei dormindo. Dessa vez não terei sono, se atrasar vai me encontrar desperta. Fica triste quando vê que não o espero para jantarmos juntos.
Sabe de uma coisa? Decidi que não reclamo de mais nada. Ou de quase nada. Se bem que se aparecer sem pelo menos um cartão, ficarei magoada. Sou uma boba mesmo, minha eterna insegurança. Nunca se esqueceu de trazer um presente ou flores acompanhados de palavras que me emocionam. Sabe como me deixar sem ação e cada vez mais apaixonada.
Quando nos casamos, muitos apostaram que não daria certo. Você, um artista. Eu, comerciante. Enquanto você pintava flores e lugares imaginados, eu vendia tijolos, cimento ou telhas. Você sonhava. Eu sonhava junto.
Não houve um dia sequer, durante estes quinze anos em que tenha sentido arrependimento por nosso casamento. Há dois, fez sua primeira exposição. Vendeu algumas telas e recebeu comentários elogiando seu trabalho.
Apenas um fato me atormenta: não poder ter filhos. Adora criança e elas o adoram também. Sei que vive repetindo que “não tem problema, podemos adotar e amaremos igual”. Fala isso para que não me entristeça. Antes de nos casarmos costumávamos conversar sobre sua vontade ser pai e dizia que não teríamos menos do que três.
Acalentou-me quando descobri que não poderia ter filhos, mas ouvi quando chorou na noite em que fomos ao médico.
Às vezes acho que devo libertá-lo. Dez anos a diferença entre nós dois. Talvez com uma garota mais jovem realize este desejo. Não farei isto: sou egoísta e quero você para mim. Para sempre.
Daqui a pouco estará chegando. Vou colocar aquele vestido que gosta. Diz que fico linda com ele. Hoje quero terminar a noite com você dentro de mim. Embaixo da coberta sentindo um ao outro.
Está tudo pronto. A mesa perfeita e a comida, tenho certeza, muito gostosa. Vou subir e tomar um banho.
Droga! O telefone tocando agora. Vai me atrasar.
- Alô.
- Oi Juliana.
- Oi irmã. Por favor, fale rápido porque estava entrando no banho.
- Fiquei preocupada com você. Hoje está fazendo um ano que tudo aconteceu.
- Não sei do que está falando, mas seja lá o que for, diga logo, porque está me atrasando.
- Vai sair? Que bom! Pensei que estivesse mal.
- Não vou sair sua tonta. Preparei uma noite inesquecível para quando Davi chegar. O que não deve demorar a acontecer, portanto, deixe de conversa fiada. Vou desligar.
- Juliana, que história é essa?
-Não tenho tempo agora.
-Você sabe que Davi não pode jantar com você.
- ...
- Fale alguma coisa. Estou indo até aí.
Por que ela tinha que estragar tudo?
Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Cartas não foram escritas, palavras não foram ditas, abraços não foram dados. E tudo o que poderia ter sido o tempo se encarregou de levar.
*
Cheia de luz ela sorriu na escuridão. Tinha certeza de que assim iluminaria o mundo.
*
Quando conhecemos bem o outro, aprendemos a escutar seu silêncio.
*
Foi exatamente no ponto em que se percebeu parada que resolveu seguir em frente. Não em linha reta como parecia mais fácil, mas entre uma curva e outra para que tivesse oportunidade de fazer escolhas.
*
É quando me calo que tento dizer tudo o que quero. Ouça através dos meus olhos.
*
Hoje as palavras estão saltando a minha frente; sem que eu consiga pegar nenhuma delas para colocar no papel.
*
Será que em algum momento vamos julgar que se é velho o bastante para parar de querer? Tenho certeza de que jamais.
*
Coloca-me em seu colo, hoje o peito pesa com dores de vida real. Com dores de vida material. Com dores de sufocar.
*
Pode ser um pouco, quase nada, pode ser apenas a delicadeza de um sorriso. Pode ser que se ganhe o dia quando vemos no outro, em qualquer outro, carinho no olhar.
*
Em alguns dias retiro minhas asas para que os pés não percam o costume de pisar o chão e saibam enfrentar a dor quando ela chega.
*
Não gosto de precisar do outro para me sentir.
*
O tempo rouba de nós o tempo que esperávamos viver.
*
Há dias que fico assim, exausta de mim.
*
Como é aconchegante ver nosso sorriso refletido nos olhos do outro.
*
Amanheci com o peito partido. Sofrendo dores de imaginar.
*
Há dias em que o coração pesa como se uma pedra estivesse dentro dele. É quase impossível conseguir tirá-la do peito para que possa aliviar tamanha pressão.
*
Seguiu passos que não eram seus. Confiou e subiu cada pé em um par de pés que pertenciam a outro. Fechou os olhos e por isso não percebeu que aqueles caminhavam para o abismo.
*
Braços demais sufocam. Lembram-me tentáculos.
Uma pequena lembrança
21/01/2017 | 18h53
Uma pequena lembrança
Cândida Albernaz
Eu a segurava com cuidado no caminho do quarto até o banheiro. O corpo muito branco e macio era pesado, porque simplesmente não conseguia sustentá-lo sozinha. Membros inchados e frágeis.
Durante o banho avisava, como em outras vezes, que era necessário tirar todo o sabonete. Está bom?, nunca estava. Ainda preciso de mais água no pescoço, ou embaixo do braço, ou.
Sabia que o momento de lavar a cabeça era o que mais gostava. Levantava o rosto em direção ao chuveiro e deixava que encharcasse com vontade, retirando o cabelo de sobre a testa. Acho que acabamos; eu tentava. Não seja impaciente. Esfregue minhas costas um pouco mais acima.
Na volta colocava-a sentada na beirada da cama enquanto enxugava suas pernas. Os pés precisavam de um cuidado especial. Dedo por dedo até que não sobrasse qualquer umidade, caso contrário dizia que ficavam feridos. Como os meus. Como os de minha filha.
Costumava colocar a mão em minha cabeça para se apoiar, quando ajoelhada à sua frente eu cuidava de secar cada parte de seu corpo enfraquecido. Nunca comentei que aquele gesto, jogando um tanto de seu peso, me incomodava. Manias antigas com um cabelo crespo que nunca obedecia a desejos.
Então buscava a calma que nunca tive e ria satisfazendo todas as suas poucas vontades.
Quando já perfumada e vestida, pedia o batom que fazia questão de usar nos lábios finos e rosados. Dirigia-se novamente a mim e indagava se estava correto. Não enxergava o suficiente para confiar no espelho que eu segurava.
Em seguida me debruçava sobre ela, ajeitava os travesseiros para que se recostasse, e puxava o lençol branco estampado com pequenas flores, até a cintura. Sentia mais frio do que a temperatura exigia.
Em alguns dias melhores, segurava o prato na direção de seu colo, para que ela mesma pudesse colocar cada garfada de comida na boca. Não havia uma vez em que deixasse de reclamar da falta de sal e gosto do alimento que lhe era oferecido. A apresentação do prato, com legumes coloridos, não condizia com o sabor. Ruim, eu provara.
Pedia cachorro-quente quando estava mais animada. Adorava. Mas não pode comer carne!, e então satisfazia-se com o pão francês e o molho de tomate cheio de cebola e pimentão cortados em grandes pedaços. A refeição da tarde que mais apreciava.
O tom dos olhos ficava entre o mel e o verde. Estes que se habituaram a obedecer na cor ao humor que vivia no momento, agora permaneciam opacos na maior parte do tempo. Brilhavam quando conseguia reunir os filhos ou parte deles à sua volta. Então ouvia cada um como se bebesse as palavras. Ria nossos risos como se fossem seus. Para ela, bastava o que sentíamos. Abdicava de qualquer sentimento próprio para viver o nosso.
Lembro quando, me olhando nos olhos, meses depois, avisou que não aguentava mais. Pediu que a internássemos, o que sempre lutara contra. Nem mesmo assim consegui ver fraqueza ou desistência. Firme, demonstrava uma força que parecia não possuir.
Naquele instante, soube que estava indo.
Frases nem tão soltas XXVIII
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas XXVII
Cândida Albernaz
Depois de muito caminhar imaginei que enfim poderia descansar. Qual nada!, era apenas hora de recomeçar. Não fiquei triste: recomeço é ter esperança outra vez.
*
Naquele dia não precisou olhar em volta para entender o que era sofrer. De suas entranhas saiu o grito do não querer acreditar.
*
É tanto dia a dia que a inspiração foge. Então corro feito louca atrás dela, mas por muitas vezes se esconde tão bem que penso nunca mais encontrá-la.
*
Na beira da lagoa parei a observar a lua: enorme, amarela, me senti hipnotizar. Peguei um pequeno barco e remando, segui seu reflexo na água. Tinha certeza de que assim encontraria o infinito. No meio do caminho escutei da lua, bem baixinho: por que querer conhecer o inesperado? Deixe-me segredos conter.
*
Se não consegue escutar o que meu coração diz, é porque está cego no sentir.
*
Queria colocar brilhos e cores na tinta com que escrevia, mas naqueles dias as palavras saíam como borrões de choro não contido que caem em gotas grossas no papel.
*
Você encara dois olhos a pedir socorro e percebe que o máximo que pode fazer é implorar perdão por sua impotência. Então lembra que ainda sobrou o abraçar e o tanto de colo que sabe dar.
*
Quando repetidas vezes enfrentamos ventos fortes, aprendemos a valorizar brisas e não temer vendavais. Em todos eles passamos a reconhecer o que precisamos para continuar serenos.
*
Sentou no chão e apertou a cabeça contra os joelhos enquanto enlaçava as pernas recolhidas. Agora parecia estar no útero a dor que antes habitara o peito.
*
Confiante, bebeu sofregamente a água que lhe foi oferecida. Só então notou a borra de dor que ainda sobrara no fundo do copo.
*
Corra a me abraçar e faça de seus braços um escudo em meu corpo. Não permita que dardos de dor me rasguem a pele.
*
Faz-me rir um riso de leveza. Faz-me sentir estar coberta por seda que esvoaça ao vento. Faz-me pensar possuir asas para que bem longe do chão esteja. Faz-me acreditar que no abismo a minha frente eu não precise saltar. Porque neste momento sozinha estou incapaz de lutar.
*
Ventanias vêm e vão. E mesmo que vidros se quebrem em pequenos cacos que não colam, sempre nos reconstruiremos.
*
Tenho um mundo às vezes fácil, às vezes complicado, às vezes sonhador, às vezes pé no chão, às vezes trancado na escuridão, às vezes criança cheia de birra, e é dentro dele que carrego os que amo de um jeito ou de outro.
*
Se triste estamos, a neblina, a chuva ou o frio se tornam a continuidade do que sentimos. De dentro para fora. Ou de fora para dentro.
Não gosto de moto
21/01/2017 | 18h53
Não gosto de moto
Cândida Albernaz
Ontem eu estava agitado para largar o serviço e chegar a casa. Acabei pegando a maior pilha quando o Gersin falou que a Das Dores estava dando em cima dele.
Onde já se viu? Das Dores vai casar comigo. Ela ainda não sabe, mas estou juntando dinheiro para comprar uma moto e convidar ela para sair.
Quero ver se não vai topar. Mulher adora essas coisas de moto, carro. E a gente também fica diferente, se sente mais poderoso.
Já fui à oficina do seu Adilson seis vezes e avisei que a máquina que está lá vai ser minha. Ele riu na minha cara e falou que eu só aparecesse de novo com o dinheiro no bolso.
Não acredita que vou conseguir. Quero ver quando eu chegar e jogar a quantia na mesa dele.
Ele fica sentado, contando o lucro enquanto os manés trabalham sem parar. Até parece que consertar um carro aqui, outro ali dá esse poder todo! Essa moto que estou de olho, ninguém sabe de onde veio. Mas não tenho nada com isso. Não me envolvo com as malandragens desses caras, mas não vou perder uma oportunidade como esta.
Acho que mais uns dois meses e junto o que preciso. Ontem disse para o patrão que posso fazer umas horas extras. Avisou que está precisando de vigia na loja por algumas noites. O rapaz que trabalhava lá levou um tiro e ainda está internado. Disse que dá toda assistência para ele coisa e tal.
O local à noite é perigoso e o cara deu mole. Dormia quando chegaram. Eram três. Acordou assustado com o barulho, colocou a mão no bolso da jaqueta e eles nem piscaram: mandaram bala.
Quem me contou foi o parceiro dele que tinha saído para pegar um goró para os dois. Na volta, viu os sujeitos e se escondeu. Esse é dos bons: bom amigo, bom vigia, boa merda!
Comigo não será assim. Terei cuidado. Não lido tão bem com arma, mas Deus protege.
O patrão perguntou se sei atirar. Disse que sim. Olhou meio descrente, mas resolveu me dar uma chance.
Faço qualquer coisa pela Das Dores. Tentei sair com ela ano passado, mas nem deu bola. Riu na minha cara e falou para eu crescer. Ou virar homem. Sei lá, dá no mesmo.
Hoje não entrei, passei em frente e vi que a danada estava lá ainda. Vermelha. Esperando que eu a comprasse. Falei baixinho: aguenta firme que venho te buscar.
Desta vez seu Adilson não me viu. Não estava na mesa dele. Devia estar no quarto dos fundos com alguma vadia da redondeza. Todo mundo conhecia seus hábitos. Gostava de pegar uma dessas garotas e levar lá para trás. De dia, que era para todo mundo ver. Os funcionários fizeram um buraco na parede e se revezavam para espiar. Velho, gordo, de unhas feitas, que suava sem parar. Maldoso com as meninas. Vez em quando saia uma chorando. Ou xingando.
Começo esta noite como vigia. Não será fácil três dias trabalhando vinte e quatro horas. Mas o motivo é bom. Ainda caso com Das Dores. Imagino a gente com os guris à nossa volta: dois meninos, uma menina. E ela cheia de carinho comigo.
Não sou homem de maltratar mulher. Nem gosto de ver. Tenho uma irmã que vivia apanhando do marido. Um dia olhei no olho dele e avisei que não topava aquilo. Não entendeu que eu falava sério e deu mais uns tapas nela. Quando chegou lá em casa pedindo a mãe para ir ao hospital com ela porque o nariz havia quebrado, não soltei um pio. Fui até onde eles moravam. Ele me olhou desafiando. Não precisou de mais nada. Quebrei o filho da puta todo. Foi de ambulância para o mesmo hospital. Só que levou mais tempo para sair de lá.
Isso foi passado, porque agora os dois vivem bem. Tem gente, que conversar não resolve.
Estou com dinheiro suficiente. Seu Adilson não vai acreditar.
Onde está o raio da moto? Entrei na oficina e avisei:
- Vim pegar minha moto. Estou com o dinheiro.
- Ih, cara! Acho que aquela você não compra mais.
- Disse para o seu Adilson que vinha comprar e ele vendeu para outro?
- Pois é. Tem uma semana.
Olhei para o chão. Uma semana e perdi a chance de chegar em Das Dores. Até conseguir outra com aquele preço...
- Onde está seu Adilson?
- Adivinha.
Olhei para os fundos da oficina.
- Acho que volto amanhã.
-Sabe quem está com ele? A gostosa da Das Dores.
- Qual é cara?
Senti o coração acelerar.
- Ela vem aqui de vez em quando. E nunca sai chorando. A porta do quartinho abriu e Das Dores passou por ele contando uns míseros trocados para em seguida enfiar no meio dos peitos.
- Está olhando o quê? Nunca me viu?
O rosto dela vermelho e inchado de um lado. Um sorriso sacana na boca.
Passou por mim rebolando mais do que o costume.
Coloquei a mão no bolso e senti o elástico que prendia a grana.
Pensei em responder a pergunta. Mas ela já ia longe dobrando a esquina.
Seu Adilson parou na minha frente.
- Vendi a moto. Não estava boa não. Vou te arrumar uma melhor do que aquela. Vê se não gasta o que juntou.
- Precisa não. Não gosto de moto. Nunca gostei.
Perfeição
21/01/2017 | 18h53
Perfeição
Cândida Albernaz
Respirou profundamente. Essa ansiedade o incomodava. Queria escrever a carta com calma. Sabia que não se usava mais, tudo costuma ser resolvido por e-mail ou mensagem. Não era o caso.
Sentou-se na beira da cama porque não queria sujar o lençol com a roupa que chegara da rua.
Resolveu tomar um banho antes. Talvez diminuísse a sensação de abafamento. A água gelada fez com que retesasse o corpo. Ouviu uma voz e prendeu a respiração por momentos. Lembrou-se então que havia deixado a televisão ligada.
Trocara a fechadura da entrada, portanto ninguém mais teria acesso ao apartamento a não ser ele. Sentiu necessidade disso para que não tivesse a esperança, a cada vez que abria a porta, de encontrar alguém a sua espera.
Mudou o número do telefone também. Assim tinha a certeza de quem não seria todas as vezes que tocasse.
Enxugou os pés, dedo por dedo, não gostava que ficassem nem um pouco úmidos. Um ritual chamado de ridículo em tantas ocasiões. Era estranho notar que tudo o que divertia ou provocava risos no início, se tornou desagradável e exasperante mais tarde.
Onde deixara seu pente? Será que trocaram de lugar? Impossível, pensou com um sorriso torto na boca.
Realmente estava fora do seu normal. Nada!, nunca ficava fora do espaço que destinara a ele em sua casa.
Por isso não dera certo com ninguém. Tudo e todos deviam permanecer em seu lugar. Ou melhor, onde dispusera colocá-los.
Foi assim com Márcia, com Letícia e por último com Sílvia.
Todas o deixaram alegando o mesmo: controlador, cheio de manias, sério em excesso e finalizavam com o Chato!, chato!, chato!, chato! Cinco letras que o sufocavam.
Por que não entendiam que apenas preferia a ordem em troca da desordem?
Encolheu-se quando ouviu a voz do pai.
- Não viu que sua mãe acabou de limpar a sala? Tire estes sapatos imundos!
- E o pescoço? Não sabe se lavar direito?
Esfregava o local com força até que ficasse vermelho. Não adiantava.
- Lodo! Isso é lodo nesse pescoço.
E voltava ao banheiro, com a bucha agora, para cima para baixo para cima para baixo até que ficasse lanhado. Nunca era o bastante.
Olhou-se no espelho: precisaria de uma camisa com a gola mais alta. Fizera de novo.
Fechou a torneira e voltou uma, duas, três vezes para se certificar que não a deixara pingando. Não aceitava desperdício.
Sílvia quando saiu fez questão de deixar o lençol amassado, depois de sentar nele de qualquer jeito. Um copo sujo de batom sobre a pia e não levou com ela a escova de cabelo que sempre o incomodara com todos aqueles fios sobrando.
Apanhou inúmeras vezes para que entendesse que o tênis usado na escola deveria ser limpo diariamente com um pano úmido, e em seguida com outro seco. Então este era colocado na borda do tanque, onde não poderia haver qualquer resquício de água. Se fosse encontrado um quase imperceptível fio de poeira no mesmo, era motivo. Com o tempo o problema aumentava por conta das marcas escuras de uso. Então...
Não gostava muito de pensar em sua infância. Filho único, com todas as expectativas e exigências sobre ele.
Uma vez por mês visitava o túmulo do pai. Limpava pétala por pétala das flores plásticas que colocara lá. Brancas.
Pegou o papel, colocou a caneta ao lado e ficou observando a folha em branco.
Queria pedir que voltasse, mas pensando bem, estava tudo tão organizado. Mantinha as luzes apagadas como sempre gostara, o lençol sem um friso, a cozinha sem um senão. Concluíra que comer na rua era mais prático.
A TV..., bem, esta foi a única coisa que mudara.
Sílvia tinha o hábito de chegando a casa ligar a televisão. Dizia que o silêncio lhe trazia tristeza. Discutiram e discutiram por isso.
Hoje, acostumara-se a mantê-la ligada. Se passava pela sala, sorria para ela de acordo com o que acontecia na tela. Só retirava da tomada quando ia se deitar.
Pensou ser melhor deixar a carta para amanhã. Ou depois de amanhã.
Sentou-se na poltrona e ficou prestando atenção no programa bobo que era transmitido.
Daqui a pouco o sono chegaria.
Sobre o autor
Candida Albernaz
[email protected]
Arquivos
- Fevereiro 2026
- Janeiro 2026
- Dezembro 2025
- Novembro 2025
- Outubro 2025
- Setembro 2025
- Agosto 2025
- Julho 2025
- Junho 2025
- Maio 2025
- Abril 2025
- Março 2025
- Fevereiro 2025
- Janeiro 2025
- Dezembro 2024
- Novembro 2024
- Outubro 2024
- Setembro 2024
- Agosto 2024
- Julho 2024
- Junho 2024
- Maio 2024
- Abril 2024
- Março 2024
- Fevereiro 2024
- Janeiro 2024
- Dezembro 2023
- Novembro 2023
- Outubro 2023
- Setembro 2023
- Agosto 2023
- Julho 2023
- Junho 2023
- Maio 2023
- Abril 2023
- Março 2023
- Fevereiro 2023
- Janeiro 2023
- Dezembro 2022
- Novembro 2022
- Outubro 2022
- Setembro 2022
- Agosto 2022
- Julho 2022
- Junho 2022
- Maio 2022
- Abril 2022
- Março 2022
- Fevereiro 2022
- Janeiro 2022
- Dezembro 2021
- Novembro 2021
- Outubro 2021
- Setembro 2021
- Agosto 2021
- Julho 2021
- Junho 2021
- Maio 2021
- Abril 2021
- Março 2021
- Fevereiro 2021
- Janeiro 2021
- Dezembro 2020
- Novembro 2020
- Outubro 2020
- Setembro 2020
- Agosto 2020
- Julho 2020
- Junho 2020
- Maio 2020
- Abril 2020
- Março 2020
- Fevereiro 2020
- Janeiro 2020
- Dezembro 2019
- Novembro 2019
- Outubro 2019
- Setembro 2019
- Agosto 2019
- Julho 2019
- Junho 2019
- Maio 2019
- Abril 2019
- Março 2019
- Fevereiro 2019
- Janeiro 2019
- Dezembro 2018
- Novembro 2018
- Outubro 2018
- Setembro 2018
- Agosto 2018
- Julho 2018
- Junho 2018
- Maio 2018
- Abril 2018
- Março 2018
- Fevereiro 2018
- Janeiro 2018
- Dezembro 2017
- Novembro 2017
- Outubro 2017
- Setembro 2017
- Agosto 2017
- Julho 2017
- Junho 2017
- Maio 2017
- Abril 2017
- Março 2017
- Fevereiro 2017
- Janeiro 2017
- Dezembro 2016
- Novembro 2016
- Outubro 2016
- Setembro 2016
- Agosto 2016
- Julho 2016
- Junho 2016
- Maio 2016
- Abril 2016
- Março 2016
- Fevereiro 2016
- Janeiro 2016
- Dezembro 2015
- Novembro 2015
- Outubro 2015
- Setembro 2015
- Agosto 2015
- Julho 2015
- Junho 2015
- Maio 2015
- Abril 2015
- Março 2015
- Fevereiro 2015
- Janeiro 2015
- Dezembro 2014
- Novembro 2014
- Outubro 2014
- Setembro 2014
- Agosto 2014
- Julho 2014
- Junho 2014
- Maio 2014
- Abril 2014
- Março 2014
- Fevereiro 2014
- Janeiro 2014
- Dezembro 2013
- Novembro 2013
- Outubro 2013
- Setembro 2013
- Agosto 2013
- Julho 2013
- Junho 2013
- Maio 2013
- Abril 2013
- Março 2013
- Fevereiro 2013
- Janeiro 2013
- Dezembro 2012
- Novembro 2012
- Outubro 2012
- Setembro 2012
- Agosto 2012
- Julho 2012
- Junho 2012
- Maio 2012
- Abril 2012
- Março 2012
- Fevereiro 2012
- Janeiro 2012
- Dezembro 2011
- Novembro 2011
- Outubro 2011
- Setembro 2011
- Agosto 2011
- Julho 2011
- Junho 2011
- Maio 2011
- Abril 2011
- Março 2011
- Fevereiro 2011
- Janeiro 2011
- Dezembro 2010
- Novembro 2010
- Outubro 2010
- Setembro 2010
- Agosto 2010
- Julho 2010
- Junho 2010
- Maio 2010
- Abril 2010
- Março 2010
- Fevereiro 2010
