Sem arrependimento
Sem arrependimento
Cândida Albernaz
Hoje acordei cedo e fui comprar flores porque quero a casa cheia de cor e cheiro. Você adora quando tenho estes cuidados com nós dois. Não assume, mas sei que é romântico.
A escolha do vinho e das músicas fica por sua conta, sempre gostou que fosse assim.
Tenho certeza de que não vai chegar tarde. No ano passado, na mesma data esperei por você e acabei dormindo. Dessa vez não terei sono, se atrasar vai me encontrar desperta. Fica triste quando vê que não o espero para jantarmos juntos.
Sabe de uma coisa? Decidi que não reclamo de mais nada. Ou de quase nada. Se bem que se aparecer sem pelo menos um cartão, ficarei magoada. Sou uma boba mesmo, minha eterna insegurança. Nunca se esqueceu de trazer um presente ou flores acompanhados de palavras que me emocionam. Sabe como me deixar sem ação e cada vez mais apaixonada.
Quando nos casamos, muitos apostaram que não daria certo. Você, um artista. Eu, comerciante. Enquanto você pintava flores e lugares imaginados, eu vendia tijolos, cimento ou telhas. Você sonhava. Eu sonhava junto.
Não houve um dia sequer, durante estes quinze anos em que tenha sentido arrependimento por nosso casamento. Há dois, fez sua primeira exposição. Vendeu algumas telas e recebeu comentários elogiando seu trabalho.
Apenas um fato me atormenta: não poder ter filhos. Adora criança e elas o adoram também. Sei que vive repetindo que “não tem problema, podemos adotar e amaremos igual”. Fala isso para que não me entristeça. Antes de nos casarmos costumávamos conversar sobre sua vontade ser pai e dizia que não teríamos menos do que três.
Acalentou-me quando descobri que não poderia ter filhos, mas ouvi quando chorou na noite em que fomos ao médico.
Às vezes acho que devo libertá-lo. Dez anos a diferença entre nós dois. Talvez com uma garota mais jovem realize este desejo. Não farei isto: sou egoísta e quero você para mim. Para sempre.
Daqui a pouco estará chegando. Vou colocar aquele vestido que gosta. Diz que fico linda com ele. Hoje quero terminar a noite com você dentro de mim. Embaixo da coberta sentindo um ao outro.
Está tudo pronto. A mesa perfeita e a comida, tenho certeza, muito gostosa. Vou subir e tomar um banho.
Droga! O telefone tocando agora. Vai me atrasar.
- Alô.
- Oi Juliana.
- Oi irmã. Por favor, fale rápido porque estava entrando no banho.
- Fiquei preocupada com você. Hoje está fazendo um ano que tudo aconteceu.
- Não sei do que está falando, mas seja lá o que for, diga logo, porque está me atrasando.
- Vai sair? Que bom! Pensei que estivesse mal.
- Não vou sair sua tonta. Preparei uma noite inesquecível para quando Davi chegar. O que não deve demorar a acontecer, portanto, deixe de conversa fiada. Vou desligar.
- Juliana, que história é essa?
-Não tenho tempo agora.
-Você sabe que Davi não pode jantar com você.
- ...
- Fale alguma coisa. Estou indo até aí.
Por que ela tinha que estragar tudo?