Não gosto de moto
candida 22/04/2016 18:34
Não gosto de moto Cândida Albernaz Ontem eu estava agitado para largar o serviço e chegar a casa. Acabei pegando a maior pilha quando o Gersin falou que a Das Dores estava dando em cima dele. Onde já se viu? Das Dores vai casar comigo. Ela ainda não sabe, mas estou juntando dinheiro para comprar uma moto e convidar ela para sair. Quero ver se não vai topar. Mulher adora essas coisas de moto, carro. E a gente também fica diferente, se sente mais poderoso. Já fui à oficina do seu Adilson seis vezes e avisei que a máquina que está lá vai ser minha. Ele riu na minha cara e falou que eu só aparecesse de novo com o dinheiro no bolso. Não acredita que vou conseguir. Quero ver quando eu chegar e jogar a quantia na mesa dele. Ele fica sentado, contando o lucro enquanto os manés trabalham sem parar. Até parece que consertar um carro aqui, outro ali dá esse poder todo! Essa moto que estou de olho, ninguém sabe de onde veio. Mas não tenho nada com isso. Não me envolvo com as malandragens desses caras, mas não vou perder uma oportunidade como esta. Acho que mais uns dois meses e junto o que preciso. Ontem disse para o patrão que posso fazer umas horas extras. Avisou que está precisando de vigia na loja por algumas noites. O rapaz que trabalhava lá levou um tiro e ainda está internado. Disse que dá toda assistência para ele coisa e tal. O local à noite é perigoso e o cara deu mole. Dormia quando chegaram. Eram três. Acordou assustado com o barulho, colocou a mão no bolso da jaqueta e eles nem piscaram: mandaram bala. Quem me contou foi o parceiro dele que tinha saído para pegar um goró para os dois. Na volta, viu os sujeitos e se escondeu. Esse é dos bons: bom amigo, bom vigia, boa merda! Comigo não será assim. Terei cuidado. Não lido tão bem com arma, mas Deus protege. O patrão perguntou se sei atirar. Disse que sim. Olhou meio descrente, mas resolveu me dar uma chance. Faço qualquer coisa pela Das Dores. Tentei sair com ela ano passado, mas nem deu bola. Riu na minha cara e falou para eu crescer. Ou virar homem. Sei lá, dá no mesmo. Hoje não entrei, passei em frente e vi que a danada estava lá ainda. Vermelha. Esperando que eu a comprasse. Falei baixinho: aguenta firme que venho te buscar. Desta vez seu Adilson não me viu. Não estava na mesa dele. Devia estar no quarto dos fundos com alguma vadia da redondeza. Todo mundo conhecia seus hábitos. Gostava de pegar uma dessas garotas e levar lá para trás. De dia, que era para todo mundo ver. Os funcionários fizeram um buraco na parede e se revezavam para espiar. Velho, gordo, de unhas feitas, que suava sem parar. Maldoso com as meninas. Vez em quando saia uma chorando. Ou xingando. Começo esta noite como vigia. Não será fácil três dias trabalhando vinte e quatro horas. Mas o motivo é bom. Ainda caso com Das Dores. Imagino a gente com os guris à nossa volta: dois meninos, uma menina. E ela cheia de carinho comigo. Não sou homem de maltratar mulher. Nem gosto de ver. Tenho uma irmã que vivia apanhando do marido. Um dia olhei no olho dele e avisei que não topava aquilo.  Não entendeu que eu falava sério e deu mais uns tapas nela. Quando chegou lá em casa pedindo a mãe para ir ao hospital com ela porque o nariz havia quebrado, não soltei um pio. Fui até onde eles moravam. Ele me olhou desafiando. Não precisou de mais nada. Quebrei o filho da puta todo. Foi de ambulância para o mesmo hospital. Só que levou mais tempo para sair de lá. Isso foi passado, porque agora os dois vivem bem. Tem gente, que conversar não resolve. Estou com dinheiro suficiente. Seu Adilson não vai acreditar. Onde está o raio da moto? Entrei na oficina e avisei: - Vim pegar minha moto. Estou com o dinheiro. - Ih, cara! Acho que aquela você não compra mais. - Disse para o seu Adilson que vinha comprar e ele vendeu para outro? - Pois é. Tem uma semana. Olhei para o chão. Uma semana e perdi a chance de chegar em Das Dores. Até conseguir outra com aquele preço... - Onde está seu Adilson? - Adivinha. Olhei para os fundos da oficina. - Acho que volto amanhã. -Sabe quem está com ele? A gostosa da Das Dores. - Qual é cara? Senti o coração acelerar. - Ela vem aqui de vez em quando. E nunca sai chorando. A porta do quartinho abriu e Das Dores passou por ele contando uns míseros trocados para em seguida enfiar no meio dos peitos. - Está olhando o quê? Nunca me viu? O rosto dela vermelho e inchado de um lado. Um sorriso sacana na boca. Passou por mim rebolando mais do que o costume. Coloquei a mão no bolso e senti o elástico que prendia a grana. Pensei em responder a pergunta. Mas ela já ia longe dobrando a esquina. Seu Adilson parou na minha frente. - Vendi a moto. Não estava boa não. Vou te arrumar uma melhor do que aquela. Vê se não gasta o que juntou. - Precisa não. Não gosto de moto. Nunca gostei.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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